28 maio 2026

Quando o BRUJERIA usou a música como arma contra o machismo

Por Júlio Feriato


O BRUJERIA sempre construiu sua identidade em cima da provocação e da brutalidade. Suas letras, personagens e imagens caminham por um território sujo, violento e teatral, onde nada parece feito para soar comportado. Dentro desse universo, “Bruja Encabronada”, lançada como um dos singles do álbum Esto Es Brujeria (2023), chama atenção justamente por usar essa agressividade para transmitir uma mensagem muito clara: a revolta feminina contra abusadores, machistas e todas as estruturas que tentam silenciar mulheres.

A canção também ganha peso extra porque dialoga com a persona de “La Bruja Encabronada”, associada a Jessica Pimentel, atriz e musicista estadunidense de ascendência dominicana (conhecida por interpretar Maria Ruiz no famoso seriado da Netflix Orange Is the New Black), que passou a integrar o universo do BRUJERIA em 2017. 

Jessica Pimentel nos tempos da banda Desolate.

A “bruxa” da música não é apenas uma figura de terror ou ocultismo. Ela representa a mulher que cansou de ser chamada de louca, exagerada, histérica ou perigosa por não aceitar submissão. A palavra “encabronada”, em tradução livre, sugere alguém tomada por uma raiva profunda, e reforça justamente essa ideia: trata-se de uma fúria com motivo. Não é revolta gratuita. É reação.

A música fala de violência, abuso, medo, impunidade e resistência. O BRUJERIA pega uma linguagem típica do metal extremo — agressiva, direta e suja — e a coloca a serviço de uma denúncia social. A brutalidade, aqui, não está contra a mulher. Pelo contrário: ela vem da mulher. É a voz da vítima que se recusa a continuar calada.

E é aí que a faixa se torna especialmente interessante dentro da cena metal. O gênero sempre se orgulhou de ser rebelde, contestador e antissistema. Mas, ao mesmo tempo, parte de seu público ainda reproduz um machismo velho, cansado e contraditório. Muitos metaleiros aceitam tranquilamente letras sobre morte, guerra, demônios, mutilação e destruição, mas se incomodam quando uma música aponta o dedo para o abuso contra mulheres.

Essa contradição não é exclusividade da cena latina. Ela existe no metal mundial. Ainda há quem trate mulheres como intrusas no rolê, duvide do conhecimento delas sobre bandas, minimize denúncias de assédio ou ache que qualquer crítica ao machismo é “mimimi”. É curioso: o cara se diz contra a censura, contra a religião, contra o sistema e contra a caretice, mas se desespera quando uma mulher usa a mesma raiva do metal para denunciar violência.


“Bruja Encabronada” incomoda porque vira esse jogo. A mulher não aparece como objeto, vítima passiva ou fantasia masculina. Ela aparece como ameaça. Como força. Como alguém que devolve o medo a quem sempre o produziu. A figura da bruxa, historicamente usada para perseguir mulheres independentes, aqui se transforma em símbolo de resistência.

No fim, a música funciona como um recado direto para a própria cena: o metal não pode se dizer livre, rebelde e extremo se continuar protegendo comportamentos machistas. Ser pesado não é apenas falar de sangue, morte e caos. Às vezes, ser pesado é encarar verdades incômodas dentro do próprio público.

“Bruja Encabronada” é isso: uma música brutal, raivosa e necessária. Uma lembrança de que a fúria feminina não é exagero. Muitas vezes, é apenas justiça gritando mais alto que a distorção das guitarras.


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