Por Júlio Feriato
E não, a importância de Vini não está apenas no fato de ele ser um músico gay dentro do metal brasileiro. Reduzir sua história a isso seria cometer o mesmo erro de quem olha para artistas LGBTQIA+ como se a identidade viesse antes da obra. Vini é, antes de tudo, um guitarrista de uma das bandas mais relevantes do metal moderno nacional. O PROJECT46 não nasceu para fazer música confortável. Desde o começo, a banda apostou em peso, discurso direto e letras que encaram o Brasil sem maquiagem.
| Imagem: matéria no G1. |
Mas existe um ponto em que arte e vida se encontram. E, no caso de Vini, esse encontro ganhou força quando sua sexualidade deixou de ser apenas um assunto íntimo e passou a ter peso público dentro de uma cena que ainda trata esse tipo de tema como tabu. Em 2015, pouco antes da apresentação do PROJECT46 no ROCK IN RIO, uma entrevista ao G1 deu visibilidade ao fato de Vini ser um homem gay no metal brasileiro. O que poderia ter sido transformado em escândalo por parte do público mais conservador acabou revelando outra coisa: muita gente precisava ouvir aquilo.
A fala de Vini foi importante justamente por quebrar uma imagem pronta. Ele não se encaixava no estereótipo limitado que muitos ainda associam a homens gays. Era cabeludo, barbudo, metaleiro, guitarrista de uma banda pesada. Em outras palavras: era tudo aquilo que parte da cena costuma aceitar como “masculino” — até descobrir que aquele homem também era gay. E talvez aí esteja uma das grandes provocações de sua presença: Vini expôs, sem precisar levantar bandeira no palco a cada show, o quanto o preconceito dentro do metal também nasce de uma visão estreita sobre o que um homem pode ou não ser.
A reação, segundo ele próprio já contou, foi muito mais acolhedora do que a insegurança fazia imaginar. Os fãs mandaram mensagens de apoio, pessoas se identificaram com sua história e os companheiros de banda estiveram ao seu lado. Isso não significa que a cena seja livre de homofobia. Longe disso. Significa apenas que, quando alguém decide existir publicamente sem pedir desculpas, abre uma fresta por onde muita gente também começa a respirar.
O caso de Vini é simbólico porque não vem embalado numa estética pop de aceitação fácil. Estamos falando de metal brasileiro, de guitarra pesada, de rodas de mosh, de público muitas vezes resistente a qualquer conversa que envolva sexualidade, gênero ou diversidade. Por isso sua presença tem força. Ele não precisou abandonar o metal para ser quem é. Não precisou suavizar sua imagem. Não precisou pedir licença. Apenas continuou sendo guitarrista, compositor, metaleiro — e gay.
| Banda Project 46. |
Com o tempo, sua fala também amadureceu. Vini passou a tratar o tema com mais amplitude, reconhecendo que sua experiência, como a de um homem gay com aparência considerada “heteronormativa”, não é a mesma de pessoas trans, travestis, lésbicas ou gays afeminados, que costumam sofrer violências muito mais diretas. Essa percepção é importante porque tira o debate do campo do ego e coloca a conversa num lugar mais honesto: representatividade não é só falar de si, mas entender que existem outras vivências dentro da própria comunidade.
E a trajetória de Vini ainda ganhou outra camada quando ele passou a falar abertamente sobre saúde mental, dependência química e recuperação. Num gênero que, por muito tempo, romantizou autodestruição como se fosse parte obrigatória da vida de músico, ouvir um artista do metal falar sobre fragilidade, tratamento e reconstrução tem um peso enorme. Vini não surgiu tentando vender uma imagem de herói invencível. Pelo contrário: ao expor suas quedas e seu processo de recuperação, mostrou uma coragem que a pose de “durão” jamais alcança.
Isso também é metal. Talvez mais metal do que muita encenação vazia por aí.
Porque existe peso em assumir quem se é. Existe peso em falar de dependência sem glamour. Existe peso em admitir medo, dor, recaídas, recomeços e aprendizado. Existe peso em usar a própria voz para que outras pessoas entendam que não estão sozinhas. E, nesse sentido, Vini Castellari ampliou o papel que um músico pode ocupar dentro da cena.
O PROJECT46 segue sendo uma banda de riffs, pancada e discurso social. Mas, ao lado disso, Vini se tornou uma figura importante para uma geração que cresceu ouvindo metal e, muitas vezes, não se via representada nele. Sua existência pública ajuda a desmontar a ideia de que música pesada pertence apenas a homens heterossexuais, conservadores e presos a uma masculinidade engessada.
No fim, sua história não é sobre “um guitarrista gay”. É sobre um músico que não aceitou diminuir partes de si para caber numa cena que ainda precisa aprender muito. É sobre alguém que transformou exposição em acolhimento, vulnerabilidade em força e vivência pessoal em ponte para outras pessoas.
Vini Castellari não precisou deixar de ser metaleiro para ser gay. Não precisou deixar de ser gay para ser respeitado como músico. E é justamente aí que sua presença importa: porque, quando a música fala alto e a vida fala junto, o preconceito perde volume.
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