Por Krampus
| Death em 1987: Chuck Schuldiner ( R.I.P ), Chris Reifert e John Hand |
Não nostálgico. Não inocente. Não preservado atrás de um vidro, como uma relíquia intocável da adolescência do metal extremo. Perigoso.
Talvez essa seja a maior conquista de Chuck Schuldiner e da formação original do DEATH: eles criaram um disco tão fundamental que gerações inteiras absorveram sua linguagem, mas que ainda mantém o cheiro de salas de ensaio úmidas, fitas cassete duplicadas, amplificadores baratos, VHS de horror e obsessão juvenil em estado puro.
É claro que o metal extremo não surgiu isoladamente. As bases já haviam sido lançadas por bandas como SLAYER, POSSESSED, HELLHAMMER e CELTIC FROST. No Brasil, um ainda jovem SEPULTURA já transformava escassez em fúria em discos como Bestial Devastation e Morbid Visions.
Aquelas gravações brasileiras primitivas viajaram pela rede subterrânea de troca de fitas e chegaram até Chuck Schuldiner, na Flórida, tornando-se uma das faíscas que o convenceram de que ele não estava sozinho em sua visão.
| Chris Refeirt e Chuck usando uma camiseta muito antiga do Sepultura, provavelmente feita por Igor "Skullcrusher". |
Porque o metal extremo jamais foi realmente construído pelos centros ricos da indústria musical. Ele nasceu em subúrbios, cidades negligenciadas, bairros operários e regiões periféricas, onde jovens criavam cultura com os recursos que conseguiam reunir. Tampa, Belo Horizonte, Essen, Coventry, Estocolmo — realidades diferentes conectadas pela mesma fome de criar algo mais brutal, mais livre e mais honesto do que a máquina polida de entretenimento ao redor deles.
De muitas formas, Scream Bloody Gore soa como o underground internacional descobrindo sua própria consciência coletiva.
Chuck Schuldiner não estava interessado em acessibilidade. Nem em perfeição técnica pela perfeição em si. O que importava era expressão. Impulso. Atmosfera. Convicção. Dá para ouvir isso imediatamente em faixas como “Infernal Death”, “Zombie Ritual”, “Denial of Life”, “Mutilation”, “Baptized in Blood” e na própria faixa-título.
| Chris Refeirt e Chuck Schuldiner ensaiando antigamente. |
Os riffs rastejam e golpeiam ao mesmo tempo. A bateria soa violenta em vez de clínica. Os vocais parecem menos uma performance e mais uma decomposição tomando forma humana. Ainda assim, por baixo de toda a imagética de horror e da distorção em motosserra, existe uma compreensão surpreendentemente sofisticada de composição musical.
Essa é uma das qualidades mais incompreendidas do álbum.
Tão importante quanto Chuck para o legado duradouro do disco foi a presença de Chris Reifert atrás da bateria. Sua performance selvagem, primitiva e inconfundivelmente humana deu a Scream Bloody Gore grande parte de seu pulso caótico. Reifert carregaria esse mesmo espírito posteriormente para o AUTOPSY, outra pedra fundamental do underground formativo do death metal, onde feiura, atmosfera e instinto bruto sempre importaram muito mais do que vaidade técnica ou refinamento comercial.
| Chuck Schuldiner em algum show nos anos 80. |
Apesar de toda a sua sujeira, Scream Bloody Gore permanece profundamente enraizado na construção clássica do heavy metal. Existem refrões memoráveis por toda parte. Grooves rítmicos. Instintos melódicos claros. O DNA do IRON MAIDEN e do thrash metal inicial ainda corre por suas veias — apenas arrastado para uma dimensão mais sombria e doentia.
É exatamente por isso que o álbum sobreviveu enquanto incontáveis imitadores desapareceram. Nunca foi brutalidade pelo espetáculo em si. Era brutalidade com identidade.
E talvez isso explique por que o disco ainda ressoa tão fortemente numa era em que até a rebeldia frequentemente é empacotada, monetizada e transformada em conteúdo inofensivo.
Scream Bloody Gore veio de um período em que a música underground ainda dependia de comunidades físicas, trocas de fitas, cartas manuscritas, fanzines e entusiasmo coletivo genuíno. Pertencia a pessoas que construíam sua própria infraestrutura cultural paralela, fora da aprovação das instituições dominantes.
Existe algo profundamente humano nisso. Especialmente hoje.
As imperfeições da produção apenas fortalecem seu poder. Nada aqui parece esterilizado. Nada soa desenhado algoritmicamente para consumo máximo. O disco respira. Sua. Parece vivo da maneira como apenas a arte genuinamente subterrânea consegue soar.
E é por isso que o álbum permanece muito maior do que “o primeiro disco de death metal” — debate que continuará para sempre entre historiadores do metal, aliás.
Seu verdadeiro significado está em outro lugar.
Scream Bloody Gore provou que a música extrema podia se tornar uma linguagem artística autônoma, com estética, atmosfera, lógica emocional e identidade cultural próprias. Mostrou que o underground não precisava mais pedir permissão a ninguém.
Quase quarenta anos depois, incontáveis subgêneros, cenas e bandas ainda existem à sombra dessa revelação.
Não porque Chuck Schuldiner seguiu tendências. Mas porque ele ajudou a criar uma realidade inteiramente nova.
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