A aura que emana de Cause of Death é de pura maldade. A atmosfera é o equivalente musical de um cadáver apodrecendo ao sol, exalando um odor de morte e horrorizando quem o ouve. Os efeitos adicionais incorporados ao álbum são os grandes responsáveis por fazê-lo atingir esse nível de grandeza. Um ótimo exemplo é a introdução de "Infected". Quando o som descendente de sinos e de um vento uivante se junta às batidas de um martelo golpeando uma rocha, você sabe imediatamente que se trata da sinistra introdução deste disco.
E isso é só o começo. As cordas graves da guitarra de Trevor Peres tocam o riff sombrio e ameaçador que dá o tom inicial de "Infected". É então que o solo de James Murphy surge como um abutre, pronto para se banquetear com a sonoridade incrível do OBITUARY . O som de seus solos é mais limpo e menos distorcido do que em seus outros trabalhos como guitarrista, mas gostei mais do seu timbre neste disco do que em qualquer outro em que tenha tocado.
Outras duas obras-primas de Cause of Death são "Memories Remain" e "Find the Arise". Adoro a abertura de "Memories Remain" — é a banda no seu auge, apresentando o grito mais insano de John Tardy. Já "Find the Arise" atua como uma espécie de trailer cinematográfico: essencialmente tudo o que você ouvirá em Cause of Death está presente nela. Lembro-me com carinho de ter ficado surpreso e bastante assustado com o grito repentino que vem logo após a introdução com sons de tempestade nesta faixa.
O que mais gosto neste disco é o vocal de John Tardy. Ele é um verdadeiro monstro no microfone, simplesmente atropelando tudo em seu caminho com aquela voz absurda. Não são apenas grunhidos típicos do death metal; são verdadeiros rugidos. Ele se coloca em um pedestal, acima até mesmo de alguns dos vocalistas mais titânicos do gênero, como Brett Hoffmann ou Frank Mullen. O melhor uso de suas habilidades pode ser conferido em "Memories Remain" e "Dying". As composições de Tardy nessa fase da carreira do OBITUARY consistiam principalmente em temas excêntricos, o que me agrada bastante.
Há muito a se dizer também sobre os dois heróis não tão reconhecidos da sonoridade de Cause of Death: o baterista Donald Tardy e o baixista Frank Watkins. Embora o baixo de Watkins não tenha um timbre tão distinto de imediato, sua presença estrondosa é bem perceptível para o ouvinte. O som grave e pesado, característico do OBITUARY no início dos anos 90, deve-se, em grande parte, a essa sonoridade encorpada e distorcida do instrumento.
Pedir a uma banda de death metal que faça um cover de uma música do Celtic Frost não é tarefa fácil, e fazê-lo bem é um desafio completamente diferente. O OBITUARY acertou em cheio com "Circle of the Tyrants". Ouvir Donald Tardy tocando bateria com uma velocidade impressionante e seu irmão cantando a faixa com tanta maestria me convenceu plenamente da grande influência do grupo suíço sobre eles, mesmo que o som do Obituary seja bem mais agressivo. O restante da banda se sai maravilhosamente bem, e acho que o cover pode ser considerado perfeito.
E "perfeito" é a palavra que define Cause of Death para um novato no death metal. Anos atrás, quando ouvi esse álbum pela primeira vez, soube imediatamente que encontraria algo diferente, algo muito, muito mais pesado do que um disco comum. E foi exatamente isso que ocorreu: deparei-me com a banda mais brutal da Flórida, o OBITUARY .
Curiosidades:
- As gravações aconteceram no lendário Morrisound Recording, estúdio que praticamente definiu a estética do death metal floridiano no final dos anos 80 e início dos 90. Produzido por Scott Burns, Cause of Death capturou perfeitamente aquela combinação de sujeira, peso e clareza que transformou o Morrisound em referência mundial para o metal extremo. Curiosamente, o OBITUARY buscava um som ainda mais pesado e “doentio” do que em Slowly We Rot, e Burns precisou equilibrar a crueza do grupo com uma produção que não sacrificasse completamente a definição dos instrumentos.
- Outro detalhe curioso envolve a participação de James Murphy. O guitarrista entrou no OBITUARY logo após sua saída do Death e praticamente caiu direto no estúdio para gravar Cause of Death. Sua presença elevou drasticamente o nível técnico do álbum, trazendo uma abordagem mais refinada e melódica aos solos, em contraste com a brutalidade quase primitiva dos riffs de Trevor Peres. O resultado foi uma fusão quase perfeita entre caos e precisão.
- Existe ainda uma história curiosa envolvendo a arte da capa. O OBITUARY originalmente queria utilizar a ilustração de um necrotério retirada do livro The Dead, do fotógrafo Joel-Peter Witkin, mas problemas de direitos autorais impediram o uso da imagem. Às pressas, a banda acabou recorrendo a uma pintura já existente de Michael Whelan — o mesmo artista responsável pela capa de Beneath the Remains, clássico do SEPULTURA. A coincidência acabou gerando uma das histórias mais curiosas da era de ouro do death metal: dois clássicos absolutos do gênero compartilhando praticamente a mesma identidade visual no mesmo período.

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