Por Júlio Feriato
| Reunião histórica do Angra no Bangers. / Foto: @marcosoliveirapht |
Eu até tento evitar esse papo sobre idade, mas não tem jeito: o corpo entrega. O domingo amanheceu com cada músculo reclamando, reflexo direto da maratona vivida no dia anterior no Bangers. Não é simples encarar horas andando de um lado para o outro, subir e descer a rampa, repetir o trajeto inúmeras vezes — tudo isso sob um sol sem trégua. Ainda assim, se fosse possível voltar no tempo, faria tudo exatamente igual. E, de certa forma, foi o que aconteceu.
No domingo, 26 de abril, retornei ao Memorial da América Latina para mais uma jornada intensa no Bangers Open Air. Desta vez, a estratégia foi diferente: foquei mais nos palcos principais e deixei as passagens pelos palcos menores em segundo plano. Também corrigi um erro do dia anterior, nada de chegar cedo demais. Quando finalmente entrei, o PROJECT46, responsável pela abertura do dia no Ice Stage, já se encaminhava para o fim do set. Resultado: mal vi a apresentação, então fica difícil até arriscar qualquer comentário.
De qualquer forma, ainda deu tempo de pegar o show do PRIMAL FEAR, que entrou em cena logo na sequência. Eu já fui um grande fã da banda lá no fim dos anos 1990, quando lançaram o disco de estreia. Apesar de não acompanhar tão de perto os trabalhos mais recentes, bateu a curiosidade de ver ao vivo essa nova fase, especialmente com a guitarrista Thalía Bellazecca. E olha, valeu demais.
O show foi muito, mas muito bom. O som estava redondo (pelo menos de onde eu estava dava para ouvir tudo numa boa), e Ralf Scheepers segue cantando de forma impressionante, o cara simplesmente não desafina. A abertura veio com “Destroyer”, do álbum mais recente, Domination. Foi nessa música, inclusive, que Bellazecca deu um tropeço no palco que chegou a assustar quem viu, mas ela se levantou na mesma hora e seguiu como se nada tivesse acontecido. Na sequência, vieram “I Am the Primal Fear” e “Nuclear Fire”, mantendo a energia lá em cima.
Demorei até perceber a ausência do baixista e fundador Matt Sinner (substituído por Dirk Schlächter, do GAMMA RAY), que ficou de fora após passar por uma cirurgia depois de sofrer um corte sério na perna direita, resultado de um acidente com uma plataforma de bateria. Ainda assim, o foco acabou recaindo naturalmente sobre Thalía Bellazecca. Que presença! Além de ser uma guitarrista excelente, ela esbanja carisma, sempre sorrindo e interagindo com o público. E não é só ela: a banda inteira parece muito à vontade no palco, criando uma conexão direta com quem está assistindo, algo que faz toda a diferença na experiência de quem está ali, vivendo o show.
O set foi encerrado com a já clássica “Metal Is Forever”, com Scheepers conduzindo o público em coro, transformando o encerramento em um daqueles momentos coletivos que resumem bem o espírito do festival.
| Nevermore no Bangers: memorável. / Foto: @_mariodavid_ |
E que show absurdo.
Sem esconder: sou fã da banda desde o debut autointitulado, de 1995, então a ansiedade estava lá em cima — e, ainda assim, foi completamente superada. Berzan Önen não apenas respeita o legado de Dane, como entrega uma performance impressionante. Com todo respeito à história, arrisco dizer que ele canta hoje até melhor do que o próprio Warrel em seus últimos anos, quando já enfrentava limitações por conta de saúde. Ao vivo, sua voz soa potente, precisa e, em vários momentos, remete à fase áurea de Dane, só que com ainda mais fôlego.
O repertório foi enxuto e direto, priorizando as faixas mais intensas, decisão que funcionou muito bem. A abertura com “Narcosynthesis” colocou o público em ebulição, e a sequência manteve o nível: “Enemies of Reality” veio logo depois, seguida por “The River Dragon Has Come”, uma das minhas preferidas (quase fiquei sem voz).
| Berzan Önen, vocalista do Nevermore. / Foto: lecasuzukiphoto |
Clássicos como “Beyond Within” e “Inside Four Walls” marcaram presença, sendo esta última um dos pontos mais fortes da apresentação. Houve ainda espaço para uma grata surpresa: “Engines of Hate”, possivelmente minha favorita de Dead Heart in a Dead World. Nessa hora, confesso, quase entrei na roda ali na frente, mas faltou coragem.
O encerramento veio com a dobradinha “My Acid Words” e a brutal “Born”. Antes da última, o baterista Van Williams incentivou o público a abrir um wall of death (em que a plateia se divide para, em seguida, colidir no mosh pit). Foi atendido prontamente e uma galera garantiu a pancadaria logo nos primeiros acordes.
Foi uma apresentação intensa e memorável que, sem medo de ser clichê, deixou aquele "gostinho de quero mais". Para mim, o NEVERMORE entregou o ponto mais alto deste dia no Bangers Open Air.
Assim que o NEVERMORE deixou o palco, os suecos do AMARANTHE já começavam os primeiros acordes no palco ao lado. Não é exatamente uma banda que me conquista — sempre que escuto, por algum motivo, me vem à cabeça algo na linha do BABYMETAL. Ainda assim, é inegável: os caras sabem fazer música “chiclete”, daquelas que grudam fácil, e contam com vocalistas muito competentes.
Particularmente, gosto bastante da voz de Nils Molin, que também canta no DYNAZTY. O cara tem uma presença de palco absurda e, sim, o cara é bonito pra caramba (e não, não tem nada demais em um homem reconhecer isso). Ao lado dele, Elize Ryd segura muito bem as partes melódicas, com uma performance segura e carismática. E Mikael Sehlin, responsável pelos vocais guturais, completa o trio com peso e precisão.
Acabei assistindo até “Digital World”, mas o foco já estava em outro lugar. A ideia era atravessar a área e seguir até o Sun Stage, lá depois da rampa, para não perder o show do CRAZY LIXX.
| Vista panorâmica do Sun Stage com Crazy Lixx. Foto: @guiurban |
Quando finalmente consegui chegar, o CRAZY LIXX já estava em ação, mandando “Rise Above”. O sol seguia castigando, então a prioridade foi encontrar um canto com sombra para curtir sem sair torrando no processo. Mesmo assim, o espaço estava bem cheio — sinal de que a banda tem publico por aqui.
O clima ali era outro, mais leve e descontraído. O som do grupo remete direto ao universo do hair metal dos anos 1980, mas com uma pegada atualizada, sem soar datado. E, sinceramente, em vários momentos soa até mais interessante do que muita coisa daquela época.
Achei curioso vê-los em um palco menor — dava a impressão de que a banda já tem público suficiente para ocupar os espaços principais. Ainda assim, a escolha acabou tendo seu lado positivo: no Sun Stage, a proximidade com o palco é maior, o que facilita chegar mais perto e aproveitar melhor cada detalhe. O som também parece mais nítido, provavelmente por conta do espaço reduzido, o que deixa a experiência mais direta e envolvente.
| Os sessentões do Winger. / Foto: @diegopadilha |
Quando consegui voltar ao Ice Stage, o WINGER já estava em plena execução da clássica “Seventeen”. Antes mesmo do show, alguns colegas de imprensa comentavam que aquela poderia ser a última apresentação de Kip Winger como vocalista, baixista e líder da banda, já que ele pretende se dedicar integralmente à carreira orquestral. Ainda assim, há a possibilidade de um último disco solo, com composições que já estariam praticamente prontas.
No palco, o clima foi de pura nostalgia. O repertório passeou pelos principais momentos da fase áurea do grupo, com destaques para “Can’t Get Enuff”, “Miles Away”, que certamente transportou muita gente de volta aos comerciais de cigarro Hollywood dos anos 1980, além de “Headed for a Heartbreak”, uma das minhas preferidas. Teve ainda a grudenta “Easy Come Easy Go” e, no encerramento, a indispensável “Madalaine”, fechando a apresentação com aquele sentimento de volta no tempo que combina perfeitamente com a proposta do show.
Na sequência, foi a vez do SMITH/KOTZEN, projeto que reúne Adrian Smith, do IRON MAIDEN, e Richie Kotzen, do THE WINERY DOGS. Mas, dessa vez, optei por passar. Não é um som que me prende muito e, a essa altura do dia, o cansaço já cobrava seu preço. Preferi dar uma pausa, recarregar as energias e me preparar para o WITHIN TEMPTATION, que, ao lado do NEVERMORE, era uma das apresentações mais aguardadas por mim naquele dia.
| Sharon den Adel. / Foto: @ayumikranzini |
E não me arrependi. O WITHIN TEMPTATION sabe como entregar um espetáculo que fica na memória dos fãs — e, dessa vez, não foi diferente. A abertura com “We Go to War” já deu o tom da apresentação, com a vocalista Sharon den Adel surgindo no palco usando uma máscara dourada. Segundo a própria cantora já comentou em entrevistas, o acessório carrega um forte simbolismo, conectado aos temas centrais do trabalho mais recente da banda.
Honestamente, nem tem muito o que destrinchar: foi um show daqueles que se sentem mais do que se analisam. O WITHIN TEMPTATION entregou uma apresentação impecável, com o público cantando praticamente todas as músicas em uníssono — eu incluso.
O repertório veio recheado de clássicos, com “Stand My Ground”, “In the Middle of the Night”, “Faster” e “Wireless” mantendo a energia lá em cima. “Paradise (What About Us?)”, pelo menos para mim, foi o grande momento da noite, daqueles que arrepiam do começo ao fim.
| Foto com a galera. / Foto: Foto: @ayumikranzini |
Depois dessa apresentação arrebatadora do WITHIN TEMPTATION, tratei de me apressar em busca de um lugar com menos muvuca para assistir ao ANGRA, que subiria ao palco na sequência — e não foi tarefa simples. O Hot Stage já estava tomado por uma multidão, e atravessar aquele mar de gente exigiu certa paciência (e disposição).
Mas essa já é outra história, que fica para uma terceira parte. Até porque esse show especial do ANGRA merece mesmo uma atenção mais detalhada.
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comentários ofensivos serão deletados!