01 maio 2026

Minha experiência no BANGERS OPEN AIR 2026 - Parte 1

 Por Júlio Feriato

Lauren Hart, vocalista do Arch Enemy. / Foto: @diegoccamara

No último fim de semana de abril, São Paulo capital recebeu mais uma edição do Bangers Open Air que, somando os anos em que ainda se chamava Summer Breeze Brasil, chega à sua quarta realização cercado de elogios. 

Para driblar as críticas ao line-up do ano passado, a organização desta vez acertou ao apostar em uma mistura equilibrada entre nomes consagrados e bandas mais recentes, reunindo atrações como JINJER, AMARANTHE, WITHIN TEMPTATION, PRIMAL FEAR, TANKARD, VIOLATOR, CRYPTA, TORTURE SQUAD, KRISIUN, IN FLAMES e várias outras. Nos headliners, o ARCH ENEMY fechou o sábado (25) e o ANGRA encerrou o domingo (26), em apresentações que empolgaram o público. No geral, foi bonito de ver — com ressalvas, claro, porque nenhum evento é perfeito, mas com saldo mais do que positivo.

Cobrir um festival desse porte, porém, não é tarefa simples. Com quatro palcos espalhados pelo Memorial da América Latina, o evento exigia fôlego e planejamento. Na área dos palcos principais, Hot Stage e Ice Stage, havia opções de alimentação, bebida e merchandise — com preços salgados, chegando a R$ 200 em camisetas e R$ 400 em moletons — além do Lounge, voltado a quem buscava mais conforto (mas sem acesso para avaliação da imprensa). 

Do outro lado, os palcos Sun Stage e Wavez Stage reuniam bandas consideradas “menores”, ainda que algumas merecessem tocar nos palcos principais. Diante de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, foi inevitável fazer um recorte pessoal na cobertura, priorizando os shows de maior interesse — até porque, por mais imparcial que eu tente ser, também sou fã.

DIA 25 - SÁBADO

Johanna Sadonis, do Lucifer. / Foto: @diegoccamara

Cheguei cedo naquele dia e acabei pegando a passagem de som do LUCIFER, primeira atração do Sun Stage. Em um momento meio infeliz (e totalmente desnecessário, diga-se), tentei fazer uma foto da vocalista Johanna Sadonis, e ela, prontamente, fez um gesto claro pedindo para não ser fotografada. Constrangido, respondi com um “joinha” e guardei o celular na hora. Ainda deu tempo de ouvir um sonoro “put down your fucking cell phones!” vindo do palco. Preferi fingir que não era comigo e segui andando. Situação meio sem graça, mas que também serve de lembrete: nem todo momento, especialmente em passagem de som, é convite aberto pra foto.

Mas não vou mentir: peguei um certo ranço depois da situação e acabei assistindo só ao começo do show. Também pesa o fato de que o som da banda nunca me convenceu muito. Ao vivo, até entregam bem, e vale dizer que tinha uma galera considerável que chegou cedo justamente para vê-los, mas, pra mim, não foi o suficiente para segurar até o fim.

Foto: @paauloalexandria

Preferi subir a rampa e seguir para o Hot Stage, onde o KORZUS já estava tacando o terror, no melhor sentido possível. Era o segundo show da banda com os guitarristas Jean Patton (ex-PROJECT46) e Jessica Falchi (ex-CRYPTA), e, sinceramente, não tem muito o que dizer: KORZUS ao vivo é sempre garantia. Se tem uma banda que entrega exatamente o que promete, é essa. Cheguei bem na hora em que rolava o novo single “No Light Within”. Confesso que não tinha curtido tanto quando saiu o clipe, mas ao vivo a música ganhou outra força — uma pena que essa energia toda não tenha sido tão bem captada na versão de estúdio.

Tom S. Englund, vocalista/guitarrista do Evergrey. / Foto: @diegoccamara 

Logo na sequência, o Hot Stage já recebia o EVERGREY. Nunca dei muita bola pra banda, mas depois de vê-los ao vivo na primeira edição do Summer Breeze Brasil, passei a entender melhor o apelo — mesmo sem me tornar fã. Ainda assim, não fiquei até o fim. O sol estava castigando e a ideia era poupar energia para o show do VIOLATOR, que aconteceria “além da rampa”.

Depois de um breve pit stop na sala de imprensa — que, diga-se, estava bem equipada, com água, refrigerante, energéticos, petiscos e frutas à disposição dos profissionais —, recarreguei as energias e voltei à missão. Era hora de subir novamente a rampa e seguir para o outro lado para conferir o show do VIOLATOR.

Violator no Sun Stage. / Foto: @bel.santosfotografia

Sempre achei o VIOLATOR uma banda “injustiçada”. Apesar de fazerem bastante sucesso fora do Brasil - inclusive com um DVD gravado no Chile e disco ao vivo gravado na China — e terem um som consistente, parece que por aqui ainda não conseguiram “virar” de vez. Em entrevistas, o vocalista Poney já comentou que essa permanência no underground é, em grande parte, uma escolha da própria banda. Para se ter uma ideia, eles chegaram a recusar um contrato com a gravadora alemã Nuclear Blast. Mas esse é assunto para outra pauta.

Antes do início do show, enquanto a banda passava o som, muitos fãs já se concentravam na frente do palco, aguardando o começo da apresentação. Poney, no entanto, circulava tranquilamente pelo meio do público, conversando e tirando fotos com quem se aproximasse. Ficou claro ali que o cara é acessível, humilde e tem uma relação próxima com os fãs.


Sem muita enrolação, o show começou com “Ordered to Thrash”, seguida por “Hang the Merchants of Illusion” e “Endless Tyrannies”. Quem conhece a banda sabe bem qual é a posição política e a visão de mundo dos integrantes. Por isso, não surpreendeu quando, entre uma música e outra, Poney fez discursos anti-imperialistas, críticas à extrema direita e manifestações de apoio à Palestina, cuja bandeira, inclusive, estava exposta no palco. 

O clímax veio com o anúncio de “False Messiah”: Poney repetiu várias vezes, com muita autoridade, o coro “Foda-se Jair Messias Bolsonaro”, torcendo o nariz de muitos reaças que acompanhavam de longe. O VIOLATOR deixou claro que não segue a ideia de que “música e política não se misturam”. No caso deles, mistura sim, e sem pedir licença.

Infelizmente, não deu para acompanhar o show até o fim. O horário já se aproximava da apresentação do JINJER no Hot Stage, e lá fui eu novamente atravessar a rampa de volta. E olha, não foi nada fácil chegar até lá. A multidão que seguia no mesmo sentido era enorme, somada ao sol escaldante que castigava o público. Quem não levou protetor solar ou algum tipo de proteção acabou sofrendo bastante. Mas, ainda assim, provavelmente ninguém sofreu mais do que a cantora Tatiana Shmailyuk, do JINJER .

Tatiana Shmailyuk, do Jinjer. / Foto: @diegoccamara
No início, ela até parecia levar numa boa. Mas, com o passar do tempo, ficou claro o incômodo com o sol forte batendo direto no rosto o tempo todo. Honestamente, deu até dó. Convenhamos também que a “vestimenta” escolhida para a apresentação — um vestido rosa — não ajudou muito. Provavelmente, o calor ficou ainda mais intenso com essa roupa. Enfim, escolhas.

Quanto ao show em si, confesso que não sou um grande fã da banda. Conheço as músicas mais famosinhas, como “Pisces”, e só. Ainda assim, quis conferir como o JINJER funciona ao vivo e, sendo bem sincero, não me convenceu tanto. É verdade que o calor estava pesado até para quem é fã mais fervoroso, e isso claramente atrapalhou o andamento do show.

Além disso, o repertório escolhido me pareceu um pouco “arrastado” em vários momentos. Por outro lado, conversando com pessoas que realmente acompanham a banda, essa percepção passou longe de ser um problema. Para quem curte, o JINJER ao vivo entrega consistência, e Tatiana, sem dúvida, manda muito bem no palco.

Logo após o show do JINJER, e sem muita demora, teve início, no Ice Stage, a apresentação do Killswitch Engage. Mas, honestamente, eu não estava nem um pouco a fim de assistir. Primeiro, porque já estava cansado demais. Segundo, porque a banda realmente não me desce. Já os vi ao vivo no Monsters of Rock 2013 e na primeira edição do Summer Breeze Brasil, o que, para mim, já foi mais do que suficiente.

Crypta no Sun Stage. / Foto: @bel.santosfotografia
Diante disso, preferi aproveitar o tempo para recarregar as energias e me preparar para enfrentar novamente aquela rampa maldita, desta vez rumo ao show da CRYPTA, que começou pontualmente às 17h20, no Sun Stage.

Vale lembrar que, antes delas, quem subiu ao palco foi o TORTURE SQUAD, escalado para substituir o FEAR FACTORY no line-up poucos dias antes do evento. Infelizmente, não consegui acompanhar essa apresentação.

Já no show da CRYPTA, o espaço estava praticamente lotado para ver as garotas, que, como de costume, deram conta do recado. Se não me falha a memória, essa apresentação no Bangers foi a segunda com a nova guitarrista, a norte-americana Victoria Villarreal, efetivada na banda cerca de uma semana antes. Como ela já havia participado de uma turnê pelos Estados Unidos como guitarrista convidada, o entrosamento com o grupo já estava bem consolidado.

O show começou com “Death Arcana”, faixa que não aparecia no repertório ao vivo há algum tempo, seguida por “Lullaby for the Forsaken” e “Poisonous Apathy”. Sem muito rodeio, foi um show incrível. O som estava limpo, Fernanda, como de costume, teve uma entrega absurda no palco, e o público respondeu à altura.

A única ressalva fica por conta de um ponto específico: na minha opinião, a CRYPTA já tem status para se apresentar nos palcos principais do Bangers, e não entendo por que isso ainda não aconteceu.

Após esse belíssimo show, encerrei minha passagem por aquele lado do Bangers. Queria muito ter assistido às apresentações do TANKARD e do ONSLAUGHT, que também tocaram por ali, mas os horários coincidiam com os shows do IN FLAMES e do ARCH ENEMY. Por uma questão de gosto pessoal, acabei optando por essas duas últimas.

Como falei lá no comecinho, é impossível conseguir acompanhar tudo o que acontece em um festival como esse. Por exemplo, não vi nenhuma atração que rolou no Waves Stage, que ficava no mesmo lado do Sun Stage, porém em uma área coberta e até mais confortável, já que funcionava dentro de um auditório.

Por ali também havia diversas barracas de lojas, estandes, lanchonetes e praça de alimentação. Outro ponto que chamava atenção era o estande do Canal Amplifica, onde pessoas aleatórias se reuniam para tocar covers e interagir. Ou seja, ir ao Bangers é uma experiência completa, desde que você tenha disposição para conseguir aproveitar ao máximo tudo o que o festival oferece.

Anders Fridén, vocalista do In Flames. / Foto: @diegoccamara

Quando finalmente consegui atravessar para o outro lado, o BLACK LABEL SOCIETY já estava no meio do set. Mas, para ser sincero, acabei nem acompanhando. O cansaço já pesava e, naquele momento, o melhor a fazer era me preservar para o que vinha a seguir: o IN FLAMES.

Depois de me recuperar por alguns minutos, segui direto para a frente do Ice Stage. A expectativa estava lá no alto. Afinal, é uma das minhas bandas favoritas, e eu carregava essa vontade desde a última vez que vi um show deles em 2008. 

A banda deu início ao show pontualmente às 19h15, abrindo com a já clássica “Pinball Map”. O público, como era de se esperar, cantou em uníssono. No repertório, não faltaram outros hits, como “The Quiet Place”, “Cloud Connected” e “Only for the Weak”.

Um ponto que me chamou a atenção foi o vocalista Anders Fridén, que aparentava estar bastante cansado - o que não comprometeu em nada a performance da banda como um todo. Comentando esse detalhe com um amigo, ele levantou a hipótese de que o IN FLAMES vinha em uma sequência intensa de shows, praticamente um por dia, há pelo menos um mês. Se for esse o caso, dá para entender o desgaste.

Infelizmente, nenhuma música dos álbuns mais antigos entrou no setlist. Eu ainda tinha a expectativa de ouvir ao menos alguma faixa de Colony, mas a banda acabou priorizando o repertório da fase pós-anos 2000. O encerramento veio com “I Am Above” e “Take This Life”, fechando o set em alta e com boa resposta do público. 

Um momento curioso foi quando, antes de sair do palco, Anders resolveu mandar algumas mensagens ao público, com frases como “sejam sempre gentis com as pessoas” e “sejam bons para seus pais” e outras desse tipo. Foram recados simples, quase até ingênuos, algo pouco comum vindo de uma banda de metal, mas que deram um tom leve e diferente ao encerramento da apresentação.

Os palcos principais ficam lado a lado, então, quando um show termina, cerca de cinco minutos depois já começa outro no palco vizinho. Assim que o IN FLAMES encerrou, tratei de procurar um lugar mais confortável. Mesmo na pista premium, o acúmulo de gente era grande, especialmente quando chega a hora da principal atração da noite. E, naquele caso, estou falando do ARCH ENEMY.

Arch Enemy no Bangers Open Air. / Foto: Marcos Hermes _MHermes
Era a estreia da nova vocalista Lauren Hart em terras brasileiras, então a expectativa do público era grande. E, como diz o ditado, a banda “já chegou chegando”. O set começou com “Yesterday Is Dead and Gone”, seguida de “The World Is Yours”.

Sobre Lauren, dá para dizer que ela é como um lobo em pele de cordeiro. À primeira vista, parece até “fofa”, mas, quando começa a cantar, a impressão muda completamente. Nem loba é, vira praticamente uma leoa no palco. E olha, ela deu conta do recado. Dominou o público como uma veterana e recebeu de volta todos os louros possíveis da multidão, que ficou até o fim do evento para assistir à banda.

A música nova — aquela que gerou toda a polêmica envolvendo Kiko Loureiro — também foi bem recebida. Ainda assim, o repertório não deixou de fora clássicos como “Bury Me an Angel”, “Ravenous” e “War Eternal”.

Um dos momentos mais marcantes veio quando Lauren se emocionou e chegou a derramar algumas lágrimas, em resposta ao carinho do público, que gritava seu nome a todo momento. Um sinal claro de que ela foi mais do que aprovada pelos fãs da banda.

O show chegou ao fim com a clássica “Nemesis”, seguida de “Fields of Desolation”. Com essa apresentação, o ARCH ENEMY mostrou por que é um dos principais nomes do death metal melódico sueco. No fim das contas, não adianta soar bem só no estúdio; ao vivo é que a banda prova seu peso, e isso eles fizeram sem dificuldade.

Continua...

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