Por Júlio Feriato
É impressionante acompanhar o nível que a NERVOSA alcançou nos últimos anos. Depois de inúmeras mudanças de formação e de uma fase em que a banda mergulhou mais fundo no death metal, Slave Machine surge como um disco que reafirma a identidade do grupo sem abrir mão da evolução conquistada ao longo da trajetória. E basta uma primeira audição para perceber isso. A reação é praticamente instantânea: “caralho, isso aqui tá absurdo”.
O álbum se afasta um pouco da sonoridade mais extrema de Jailbreak (2023), mas sem abandonar a brutalidade que a NERVOSA vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, soa mais agressivo, mais técnico e muito mais coeso do que boa parte do material recente da banda. Existe uma sensação de unidade que talvez não aparecesse dessa forma desde Downfall of Mankind (2018), e isso fica evidente na química da formação atual.
E talvez seja justamente aí que Slave Machine mostre sua maior força: a energia. Dá para ouvir o álbum inteiro imaginando o caos que essas músicas vão causar nos shows. Quem já viu a banda ao vivo sabe que é praticamente impossível escapar da roda punk quando elas sobem ao palco. A intensidade e o senso de urgência dessas novas faixas parecem feitos sob medida para incendiar a plateia.
Musicalmente, o disco não tenta reinventar o thrash metal, e sinceramente nem precisa. Nada aqui soa artificialmente experimental ou progressivo. O álbum aposta no que o estilo faz de melhor: riffs cortantes, bateria insana, grooves violentos e refrões feitos para serem gritados por um público suado enquanto destrói a coluna cervical.
Faixas como “Impending Doom”, “Learn or Repeat” e a própria “Slave Machine” mostram uma banda extremamente afiada, despejando riffs um atrás do outro sem dar espaço para respirar. Mesmo nos momentos mais cadenciados, a sensação continua sendo a de um atropelamento sonoro constante. O trabalho das baixistas Hel Pyre e Emelie Herwegh adiciona ainda mais peso às composições, especialmente em “Ghost Notes”, que entrega um dos momentos mais marcantes do álbum com um solo de baixo que merece destaque.
Nos vocais, Prika Amaral talvez entregue sua performance mais feroz até hoje. Os vocais rasgados continuam brutais, mas ela também adiciona algumas linhas limpas discretas nos refrões, criando momentos extremamente grudentos sem suavizar o impacto das músicas. “30 Seconds”, “Speak in Fire”, “Ghost Notes” e “Slave Machine” têm refrões daqueles que ficam na cabeça imediatamente.
Nas guitarras, Helena Kotina ajuda a elevar ainda mais o nível técnico do disco. Os solos são rápidos, melódicos, caóticos e muito bem encaixados, principalmente em “The New Empire”, “Crawl for Your Pride” e “Learn or Repeat”. Já na bateria, Michaela Naydenova simplesmente destrói tudo sem perder precisão, dando ao álbum uma sensação constante de urgência e violência.
No fim das contas, Slave Machine mostra a NERVOSA em uma de suas fases mais fortes, técnicas e coesas até agora. Não é um álbum preocupado em reinventar o metal, criar tendências ou agradar quem vive decretando a morte do thrash na internet. É simplesmente uma banda funcionando como uma máquina de guerra extremamente bem ajustada — despejando riffs, velocidade e brutalidade do começo ao fim. Exatamente como o thrash metal deveria soar em 2026.

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