05 maio 2026

ANGRA aposta na nostalgia e prova sua força no Bangers Open Air 2026

Por Júlio Feriato

Reencontro de titãs. Foto: @anderscarvalho

Obs: as fotos que ilustram esta resenha foram ‘emprestadas’ do Instagram e estão devidamente creditadas aos seus autores. Caso alguma seja de sua autoria e você não queira que ela permaneça aqui, entre em contato para que seja removida.

Sempre que digo que, pelo menos no Brasil, o ANGRA é maior que o SEPULTURA, muita gente torce o nariz e trata como exagero. Mas, olhando para o que a banda ainda movimenta por aqui — fãs fiéis, shows cheios e um público que acompanha cada fase — não vejo tanto absurdo assim. No Bangers Open Air, essa impressão ficou ainda mais forte, pelo menos pra mim.

Logo após o encerramento do show do WITHIN TEMPTATION, corri de volta para a frente do setor de imprensa, um dos poucos pontos onde ainda dava para assistir com um mínimo de tranquilidade. Ou pelo menos era o plano. No caminho, precisei cruzar a área em frente ao Hot Stage, e aí a realidade foi outra: um mar de gente espremida, praticamente impossível de atravessar.

Enquanto o ANGRA iniciava a intro, eu ainda estava preso naquele aperto. Quando começaram os primeiros acordes de "Nothing to Say", mal consegui prestar atenção, minha prioridade era sair vivo da muvuca. Só depois de ativar o "modo sobrevivência", consegui me livrar e achar um lugar minimamente decente.

Já mais tranquilo, deu pra perceber que a banda começou do jeito certo: no talo. "Nothing to Say", com Alírio Netto nos vocais, abriu o set com energia alta e um público cantando junto. Na sequência, "Angels Cry" elevou ainda mais o clima, e aí não teve jeito, entrei no coro também.

Alirio Netto e Rafael Bittencourt. Foto: @diegoccamara

Depois de um início assim, o mínimo que se esperava era manter o pé no acelerador. Eu já estava pronto pra uma sequência com "Evil Warning", "Time" e outros clássicos. Mas aí veio o balde de água fria: Fabio Lione sobe ao palco. Até aí, ok. Pensei que viriam os melhores momentos da fase dele como "Black Hearted Soul", "Newborn Me", "War Horns" (que, pra mim, é facilmente uma das melhores dessa fase). Era o caminho mais certeiro. Só que a banda resolveu ir por outro lado.

Em vez de manter a energia, entraram músicas mais lentas, que quebraram o ritmo do show. Isso é algo que me incomoda no ANGRA: com tanto material forte com Lione, por que insistir justamente nas mais arrastadas? A sensação é de uma escolha que desmonta o que a própria banda construiu minutos antes.

Fabio Lione. Foto: @anderscarvalho

Vieram "Tide of Changes – Part I" e "Tide of Changes – Part II", que em estúdio funcionam bem, mas ao vivo não seguram o mesmo impacto. O clima até deu uma leve reagida com "Lisbon", que parecia indicar uma retomada. Pensei: “agora vai”. Não foi. Logo depois, veio "Vida Seca", seguida por "Wuthering Heights", clássico da Kate Bush, dessa vez com Alírio nos vocais, tentando um timbre mais próximo de Andre Matos, e, na minha visão, não funcionou tão bem. Vale dizer: respeito total ao Alírio, ele canta muito e dá conta do repertório. O problema não é sua capacidade, mas quando ele perdeu um pouco da força ao tentar imitar Andre.

A coisa só voltou a engrenar de verdade em "Carolina IV". Mas, a essa altura, a adrenalina do começo já tinha ficado pra trás. E assim se encerrou o primeiro ato.

Poucos minutos depois, começou o que provavelmente era o momento mais esperado: Kiko Loureiro, Aquiles Priester e Edu Falaschi se juntaram a Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli para o segundo ato. Quando todos finalmente apareceram no palco, a plateia foi ao delírio. Era um momento histórico não só pro ANGRA, mas pra quem acompanha a banda há anos.

Kiko Loureiro, Edu Falaschi e Rafael Bittencourt. Foto: @diegoccamara

Quando "Nova Era" começou, o festival inteiro cantou junto. Bonito de ver. Mas aqui entra meu lado chato: Edu Falaschi claramente não estava num bom dia. Não sei se era questão de retorno ou qualquer outro fator, mas a voz não estava legal. Lembrei na hora de uma entrevista que fiz com ele em 2011, antes do Rock in Rio, quando ele brincou sobre não poder ficar doente pra não comprometer o show. Pois é… dessa vez, alguma coisa não encaixou.

A voz não melhorou ao longo do set. Sempre que as músicas exigiam mais, especialmente nas partes mais altas, a coisa não vinha. Ainda assim, seguiram com "Waiting Silence", "Millennium Sun", "Heroes of Sand", "Spread Your Fire" (uma das melhores dessa fase), "Acid Rain" e fecharam com "Rebirth".

O terceiro ato começou com uma bela homenagem a Andre Matos, com um vídeo antigo dele ao piano introduzindo "Silence and Distance". Confesso que quase fui às lágrimas — Andre é um dos poucos artistas cuja morte realmente me abalou. A banda seguiu com a música ao vivo, com três guitarras no palco (Kiko Loureiro, Marcelo Araújo e Rafael Bittencourt), além de Alírio e Edu dividindo os vocais. E aqui não tem como não notar: a diferença de potência entre as vozes é bem evidente.

Na sequência, veio mais uma balada, "Late Redemption", novamente com vocais divididos.

Os três tenores: Edu Falaschi, Fabio Lione e Alirio Netto. Foto: @lecasuzukiphoto

O show deu uma pausa e emendou a intro "Unfinished Allegro", que puxou "Carry On". Nesse momento, todo mundo estava no palco: Fabio, Alírio e Edu nos vocais; Bruno Valverde e Aquiles na bateria; Felipe Andreoli no baixo; além de Rafael, Kiko e Marcelo nas guitarras. Foi interessante de ver e talvez tenha sido o clímax da noite.

Os três vocalistas fizeram jus ao Andre Matos? Não. Mas, sendo bem honesto, ninguém esperava isso. "Carry On" sempre foi uma música muito específica na voz dele, e tá tudo bem.

Familia reunida (ou quase). Foto: @marcosoliveirapht

Se você chegou até aqui, já percebeu que essa resenha está carregada de críticas. E sim, são críticas de fã. Acompanho o ANGRA desde sempre, mas não sou fã cego, e também não sou dos mais fáceis de agradar. Senti falta de músicas como "Time" (como assim ficou de fora?), "Evil Warning", que pra mim é essencial, e até "Holy Land", já que a ideia era incluir momentos mais cadenciados. E volto no ponto: com tanto material forte da fase com Fabio Lione, dava pra fazer escolhas mais equilibradas.

Dito isso, a maioria ali claramente não se importou com nada disso. Tenho amigos que se emocionaram de verdade com esse show — o que talvez indique que eu esteja sendo crítico demais, quase um "Régis Tadeu" da vida.

No geral, o Bangers Open Air 2026 foi uma experiência muito positiva. Sinceramente, tenho pouco a reclamar do festival. Vi bandas que gosto, reencontrei amigos (o que, pra mim, é mais importante), e mesmo com o corpo destruído depois, valeu cada segundo. Sair do interior do Paraná pra viver isso foi mais do que válido.

Que venha o Bangers Open Air 2027, estarei lá, sem pensar duas vezes.

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