26 fevereiro 2026

SANCTUARY: Into The Mirror Black é um clássico que atravessou gerações

Por Júlio Feriato
Formação clássica do Sanctuary.
É curioso como o tempo avança sem pedir licença e, muitas vezes, sem que a gente perceba. A sensação é de que foi ontem. Mas não foi.

Já se passaram décadas desde aquela tarde em que saí da minha cidade com alguns amigos rumo a uma loja de discos numa cidade vizinha. O motivo? Uma prateleira generosa dedicada ao heavy metal, um verdadeiro oásis para um bando de adolescentes barulhentos e apaixonados por música pesada.

Eu já conhecia a loja, mas, daquela vez, havia um objetivo muito claro: comprar Into The Mirror Black, do SANCTUARY. Dias antes, tínhamos assistido ao clipe de "Future Tense" no saudoso Fúria Metal, da MTV. Foi o suficiente para nos deixar completamente obcecados. Imagine a cena: metaleiros de 14, 15 anos, hipnotizados diante da televisão, impactados por aquela avalanche sonora e visual. E, claro, pela figura magnética de Warrel Dane, com o cabelo quilométrico, a presença imponente e aquela voz dramática, única, inconfundível. Era impossível sair ileso daquela experiência.

Confesso: foi ali que nasceu a inspiração para este que vos escreve deixar o cabelo crescer. Porque, naquela época, mais do que ouvir heavy metal, eu queria viver aquilo. E vivi.

Mas este texto não é apenas memória afetiva. É também celebração. São 36 anos de um disco que se tornou um dos grandes clássicos do heavy metal mundial e, no meu caso, um dos álbuns mais ouvidos da vida.

Eu já conhecia o SANCTUARY por Refuge Denied, outro trabalho que amo. Mas foi em Into The Mirror Black que a banda decidiu dar um passo além. A produção ficou a cargo de Howard Benson, que entregou uma sonoridade mais limpa e definida do que no debut, sem diluir o peso. É um disco que soa mais encorpado, mais maduro. As composições apresentam arranjos mais trabalhados, com nuances progressivas — não no virtuosismo intrincado de um Dream Theater, mas em estruturas menos óbvias, mudanças de dinâmica e um refinamento que amplia o impacto das músicas.

A cozinha ganhou força. O baixo de Jim Sheppard, por exemplo, aparece com muito mais personalidade, ajudando a construir a atmosfera sombria que permeia o álbum.

Mas o grande destaque é, sem qualquer dúvida, Warrel Dane.

Se em Refuge Denied ele flertava com agudos mais estridentes, claramente influenciados por King Diamond, aqui ele assume de vez a própria identidade. Os agudos continuam presentes, mas surgem mais controlados, mais técnicos, mais emocionais do que teatrais. A evolução entre um disco e outro é evidente. Warrel já sabia exatamente o que estava fazendo: dominava a interpretação, a intensidade, o drama. Em muitos momentos, é difícil não pensar que ele sozinho já valia pela banda inteira.

A bela capa, sombria e quase onírica, dialoga perfeitamente com as letras introspectivas e existenciais — uma característica que se tornaria ainda mais marcante na trajetória posterior de Warrel.

Entre as faixas, “Future Tense” acabou se tornando o cartão de visitas por causa da forte exposição na MTV. Mas reduzir o álbum a esse single seria uma injustiça. O disco é coeso, maduro e inspirado do início ao fim. Ainda assim, algumas músicas sempre falaram mais alto por aqui: "Eden Lies Obscured", "Epitaph" e "Season of Destruction" (sempre achei que esta merecia um videoclipe). Foram elas as responsáveis por incontáveis noites de air guitar no meu antigo quarto, quando o mundo lá fora podia esperar e tudo o que importava era aumentar o volume e deixar o disco girar.


Mas, mesmo com toda essa maestria, o SANCTUARY foi mais um nome vencido pela ganância da indústria musical. Para entender isso, é necessário relembrar o contexto em que esse disco foi inserido.

Lançado em 1990 pela Epic Records, o álbum surgiu em um momento de transição no cenário pesado: o thrash vivia seu auge comercial, o glam ainda dominava a programação da MTV e o grunge começava a ganhar forma em Seattle. No meio desse choque de estilos, o SANCTUARY apostou em algo mais sombrio, técnico e emocional — um heavy metal denso, tradicional na essência, mas já apontando para estruturas mais elaboradas.

Nos bastidores, porém, o cenário era menos harmônico. Havia pressão da gravadora por um som mais acessível e divergências internas sobre os rumos musicais da banda. As tensões durante e após a turnê acabaram contribuindo para o fim do grupo pouco tempo depois. Das cinzas surgiria o NEVERMORE, que aprofundaria muitas das ideias estéticas e temáticas plantadas aqui.

Apesar dos elogios da crítica, Into The Mirror Black não alcançou grande sucesso comercial. Talvez tenha sido pesado demais para o mainstream da época e sofisticado demais para parte do público tradicional. O tempo, porém, fez justiça. Atualmente, o álbum é reverenciado como uma das obras mais consistentes do metal técnico do início dos anos 1990.

Olhando em retrospecto, Into The Mirror Black soa como um disco lançado na encruzilhada de uma era. Carrega o peso do passado, antecipa caminhos do futuro e mantém uma identidade muito própria. Talvez seja por isso que continue tão atual. E talvez seja por isso que, para muitos de nós, ele não seja apenas um clássico, mas parte da nossa própria história. Pelo menos da minha, é.

18 fevereiro 2026

BANGERS OPEN AIR: DIVULGADA A GRADE DE ATRAÇÕES


A organização do Bangers Open Air divulgou a programação oficial com a ordem das atrações para a edição 2026, marcada para 25 e 26 de abril. 

Ao todo serão 44 shows distribuídos em quatro palcos: Hot Stage, Ice Stage, Sun Stage e Waves Stage.

Confira:

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Ingressos: a venda segue acontecendo neste link informado pela organização.

Esta será a segunda edição do festival com o nome Bangers Open Air; as duas edições anteriores foram realizadas sob a marca Summer Breeze Brasil.

10 fevereiro 2026

BANGERS OPEN AIR 2026: CARTAZ OFICIAL É DIVULGADO

A organização do Bangers Open Air divulgou o cartaz oficial da edição que acontece nos dias 25 e 26 de abril, no Memorial da América Latina, em São Paulo. 

A nova arte confirma as bandas ARCH ENEMY, KRISIUN e AMBUSH no line-up, substituindo TWISTED SISTER, ELUVEITIE e COBRA SPELL.


Segundo a organização do evento, o cronograma com os horários das apresentações deverá ser divulgado ainda nesta semana. Inicialmente anunciado como um dos headliners, o TWISTED SISTER se reuniria para celebrar 50 anos de carreira, mas a apresentação — assim como outros compromissos futuros — foi cancelada em razão de problemas de saúde enfrentados pelo vocalista Dee Snider. 

Entre os destaques da edição de 2026 está o ANGRA, que prepara um show especial para o festival, conforme detalhado em nota oficial.

Ainda não garantiu seu ingresso? CLICA AQUI.

11 janeiro 2026

Gene Hoglan sobre Chuck Schuldiner: "Ele não era muito fã de pessoas ou da indústria musical"


Na série "Minhas 3 Perguntas Para" de Jonathan Montenegro, o baterista Gene Hoglan (TESTAMENT , DARK ANGEL, DETHKLOK, STRAPPING YOUNG LAD ) compartilhou suas experiências de sua época na lendária banda de metal DEATH, da qual fez parte de 1993 a 1995.

Ele também falou sobre Chuck Schuldiner, o mentor do DEATH , e disse: “ Chuck  era, no fundo, uma pessoa muito… Ele era uma pessoa muito pacífica. Amava animais. Amava jardinagem. Não era muito fã de pessoas ou da indústria musical, mas gostava dos seus amigos; gostava dos seus animais. Esse era  o Chuck. ”

“Além de ser um dos padrinhos do death metal, ele também era um ótimo cozinheiro. Pronto. Ele cozinhava muito bem. Nossa, ele preparou um monte de coisas incríveis para nós durante aqueles anos que passamos juntos. Isso foi muito legal. Seu legado sempre viverá.”

“Eu e [os ex  -membros do DEATH]  Bobby Koelble  e  Steve DiGiorgio , temos [a banda tributo]  DEATH TO ALL  , e começamos uma  turnê com o DEATH TO ALL  na semana que vem aqui nos Estados Unidos. Então, é isso. E é sempre muito divertido tocar  as músicas do Chuck e fazer com que soem legais.”


Em uma conversa de 2019 com Andrew McKaysmith do podcast “Scars And Guitars” , Hoglan discutiu seu período trabalhando com o DEATH . Ele disse na época: “ Chuck  era muito mente aberta e gostava que seus músicos que tocavam com ele simplesmente buscassem o melhor que pudessem fazer. Toda vez que eu criava uma batida maluca, ele dizia: 'Estou bem. Posso tocar meus riffs em cima das suas batidas, então se é isso que você quer, vá em frente. Solte a imaginação; mande ver. Estou bem aqui, então continue fazendo o seu som.' Nesse sentido,  trabalhar com Chuck  sempre foi um verdadeiro prazer. Não havia nenhuma restrição — e era bem óbvio que ninguém me limitava na bateria.”

“Eu toquei tudo em  Symbolic . Definitivamente há alguns exageros, [mas] ele nunca disse: 'Ei, não toque isso' ou 'Isso não está funcionando'. As únicas vezes que me lembro de algo assim ter acontecido foram duas ocasiões diferentes. Uma foi nas  sessões de Individual Thought Patterns  , e foi quando [o produtor]  Scott Burns , enquanto eu gravava  'Jealousy' , me lembro de  Scott  dizendo: 'Ei, cara. Não estou curtindo essa batida. Talvez você possa simplificá-la?' Eu respondi: 'Claro, sem problema'.”


"Aí, em  'Symbolic' , o [produtor]  Jim Morris  praticamente disse a mesma coisa — tipo, 'Não tenho certeza sobre essa'. O engraçado é que, na batida em que o  Jim Morris  disse 'Isso não vai acontecer', era uma batida que eu roubei do  Sean Reinert . Era algo do álbum  Human … quanto ao  Chuck , ele sempre foi muito gentil, tipo, 'É, cara. Faz o que você sabe fazer. Vai ficar ótimo.'"

“Chuck  era um cara bem complexo. Em alguns dias, certas coisas o afetavam de maneiras que talvez não afetassem você ou eu…  Chuck  não tinha muita confiança na indústria da música. Eu entendo isso — eu compreendo totalmente… Ele geralmente era muito legal de se trabalhar, e nos divertimos bastante até ele precisar tomar as decisões necessárias para manter a sanidade. Quando ele teve que deixar  o DEATH  de lado depois do  álbum Symbolic  , ele dissolveu  o DEATH  e precisou seguir em frente. A melhor maneira para  Chuck  seguir em frente foi com o lançamento de  CONTROL DENIED.”

O podcast foi ao ar em 2023, e você pode conferir no video abaixo.


10 janeiro 2026

BANGERS OPEN AIR 2026: IN FLAMES e o legado do “som de Gotemburgo”

Por Júlio Feriato

Uma das confirmações mais comentadas do Bangers Open Air 2026 é a participação do IN FLAMES, banda sueca que figura entre as mais influentes do metal melódico mundial. Para entender o peso dessa presença no line-up deste ano, é preciso olhar não só para o impacto do grupo ao longo de mais de três décadas, mas também para como eles e sua cidade de origem moldaram uma parte essencial da história do metal.

A banda surgiu no início da década de 1990 em Gothenburg (Gotemburgo), na Suécia, num cenário onde músicos se reuniam, trocavam ideias e experimentavam misturas sonoras sem pensar em rótulos. Com o tempo, aquilo que era apenas um jeito local de tocar evoluiu para o que se conhece hoje como “Gothenburg sound” — uma vertente do death metal melódico que equilibra agressividade com melodias e refrões mais acessíveis do que o death metal tradicional.

Esse estilo nasceu, em parte, da convivência e influência entre bandas que frequentavam os mesmos palcos e estúdios da cidade, assim como da troca de referências com outros centros do metal — desde o death metal de Flórida até a New Wave Of British Heavy Metal e o thrash europeu.


O IN FLAMES não foi só mais uma banda de Gotemburgo: ao longo dos anos, eles se tornaram símbolo desse som melódico, influenciando gerações de músicos que vieram depois. Sua trajetória demonstra não apenas evolução musical, mas também uma capacidade curiosa de ampliar os limites do metal. Se os primeiros discos tratavam de riffs técnicos embutidos em melodias, parte da carreira posterior da banda explorou sonoridades mais modernas, aproximando-se de outras vertentes sem jamais abandonar a intensidade que os tornou relevantes.

Isso explica por que a presença do grupo no Bangers Open Air 2026 causa tanto burburinho. Não se trata apenas de ver um nome consagrado no line-up, mas de assistir ao vivo uma banda diretamente conectada à formação de um gênero que, até hoje, reverbera no metal global.


Desde sua formação em 1990 na cidade de Gothenburg, Suécia, o In Flames construiu uma carreira marcada por mudanças sonoras e experimentação, sem perder sua identidade. A discografia da banda é extensa e reflete essa evolução:

* Discos da primeira fase como Lunar Strain (1994) The Jester Race (1996) Whoracle (1997) e Colony (1999) são considerados clássicos do death metal melódico, com guitarras harmonizadas e velocidade técnica que ajudaram a definir o estilo.

* Clayman (2000) consolidou o grupo como um nome central no metal europeu, misturando melodia intensa com uma estrutura pesada que soava intrigante e acessível ao mesmo tempo.

* Nos anos 2000, álbuns como Reroute to Remain (2002) e Soundtrack to Your Escape (2004) incorporaram elementos mais modernos e experimentais, aproximando a banda de palcos maiores e de um público mais amplo — inclusive nos Estados Unidos e na Europa.

* Come Clarity (2006) é frequentemente citado como um dos melhores discos da carreira, reunindo a agressividade do início com melodias mais refinadas e acessíveis.


* Álbuns posteriores como A Sense of Purpose (2008), Sounds of a Playground Fading (2011), Siren Charms (2014), Battles (2016), I, The Mask (2019) e o mais recente Foregone (2023) mostram uma banda que segue experimentando sem abrir mão da intensidade e da técnica que a tornaram influente.

Essa trajetória não foi linear nem isenta de debates entre fãs — alguns álbuns mais experimentais dividiram opiniões — mas ela ilustra o compromisso da banda em evoluir sem perder sua marca no metal pesado.

Mas, o que esperar do show no Bangers Open Air 2026?

Em termos de performance ao vivo, o In Flames costuma equilibrar passado e presente com naturalidade. Mas não espere por músicas da fase clássica, pois os shows recentes mostram que a banda apenas revisita clássicos como Cloud Connected, Only for the Weak e Take This Life, e integra músicas mais novas como The Great Deceiver e State of Slow Decay em seu repertório — um sinal de que o show no Bangers deve misturar gerações de fãs e épocas da banda.


O vocalista Anders Fridén continua sendo um ponto focal da performance, alternando entre guturais agressivos e vocais limpos mais melodiosos, e a banda inteira demonstra grande sinergia no palco mesmo após tantos anos de carreira.


Com uma carreira que atravessa mais de três décadas, a expectativa é que o setlist — caso seja tão eclético quanto nos shows recentes — traga de 15 a 20 músicas, passando por diferentes fases da discografia e oferecendo uma experiência completa para fãs antigos e novos.

Além disso, a experiência ao vivo da banda é frequentemente descrita como energética, exigente e envolvente: não importa se o público conhece cada álbum ou chegou lá pela primeira vez, a performance ao vivo tende a capturar atenção com riffs marcantes, transições nítidas entre melodias e momentos mais explosivos, e uma presença de palco que respeita tanto os cânones do metal quanto a própria história do In Flames.

IN FLAMES no Bangers Open Air 2026 representa mais do que apenas mais um show internacional em um festival brasileiro. É a oportunidade de ver ao vivo um grupo que não somente ajudou a moldar um gênero, mas que continua a dialogar com diversas eras do metal sem abrir mão de sua personalidade. Se há algo que se pode esperar do set deles é exatamente essa caminhada — de Gotemburgo para o mundo — traduzida em riffs, melodias e energia que atravessam gerações. 



27 novembro 2025

Freezin’ Hell, debut do SIECRIST, revelou o potencial do thrash metal capixaba nos anos 90

Por Júlio Feriato

O Espírito Santo nunca foi exatamente um terreno fértil para o metal brasileiro. A cena existia, claro, mas raramente gerava algo que escapasse do circuito local — e justamente por isso a exceção chamada SIECRIST ganha ainda mais peso.

Em 1992, a banda lançou pela Cogumelo Records seu debut Freezin’ Hell, um LP que não apenas capturou o clima do metal extremo nacional do começo dos anos 90, como também demonstrou uma qualidade incomum para o underground brasileiro da época.

Com Adriano Scaramussa (vocais e guitarra), George Motta (guitarra), Cláudio Neto (baixo) e Adilson Schwartz (bateria), o SIECRIST sabia exatamente o que queria fazer: thrash metal duro, direto, sem frescura, mas ao mesmo tempo muito bem trabalhado. Ouvindo o disco na época — e até hoje — era fácil perceber as influências clássicas que qualquer headbanger reconhecia na hora, como a técnica do EXODUS ou a aspereza marcial do SODOM. No entanto, tudo vinha filtrado pela personalidade do grupo; eram referências absorvidas, digeridas e devolvidas com identidade própria.

O álbum abre com uma intro sombria que já coloca o ouvinte na temperatura certa antes de desaguar na faixa-título. Esta prepara o terreno com riffs cortantes e velocidade segura, deixando claro, logo de saída, que a banda fazia thrash com convicção. “Depression Suicide” vem na cola, carregando o peso emocional e rítmico que reforçava a identidade crua do grupo. Já “Agony”, embora mais densa em clima, segue totalmente ancorada no thrash, exibindo troca de andamento, variações na palhetada e vocais diretos, tudo no ponto.

Grande parte desse impacto também é mérito da produção de Marcos Gauguin, muito conhecido por ter trabalhado com SARCÓFAGO, THE MIST, OVERDOSE, entre tantos outros nomes que estavam no seu auge. Com o SIECRIST não foi diferente, pois Freezin’ Hell soa surpreendentemente claro e consciente de si. Tudo é equilibrado, com intenção. As guitarras têm corpo, a bateria não se perde quando acelera, e os vocais encaixam no ponto certo, sem atropelar ninguém. É um álbum que exibe maturidade técnica e um senso de direção acima do que era feito em 1992.

A capa de Kelson Frost fecha o pacote com a mesma força. Sombria, direta e visualmente marcante, ela poderia figurar facilmente ao lado de lançamentos europeus da época. É o tipo de arte que, só de bater o olho, já indica que o disco merece ser ouvido.

Formação do álbum "Soul in Fire".
Formação do álbum Soul in Fire.

Com um início tão promissor, o contraste com o que veio depois é inevitável. Soul in Fire (1995) tentou manter a chama acesa, apresentando-se mais agressivo e flertando com o death metal de forma mais evidente. Contudo, a partir daí a trajetória se perdeu, com discos fracos que não sustentaram o que a banda parecia prometer. A impressão final é que Freezin’ Hell e seu sucessor formam um instante raro de clareza artística dentro de uma carreira que poderia ter sido maior.

Talvez por isso o debut tenha ganhado status de peça cult ao longo dos anos. Nunca relançado em CD por aqui (nota: existe uma versão japonesa, mas dificílima de encontrar), ficou restrito a poucas cópias — hoje disputadas — e a uploads no YouTube. Acabou virando presença constante em listas de raridades nacionais e funciona como um retrato sincero de uma época em que o metal extremo brasileiro ainda queimava com intensidade.

Ouvir Freezin’ Hell é revisitar uma banda que, por um momento breve, parecia pronta para brigar em patamar mais alto e que deixou, nesse curto intervalo, um dos discos mais sólidos e bem acertados que o metal extremo brasileiro já produziu.


12 novembro 2025

TETRARCH renasce com fúria e sem pedir desculpas em "The Ugly Side of Me"

 Por Júlio Feriato

“The Ugly Side of Me" reafirma o poder do nu-metal com refrões grudentos, peso e autenticidade.”
Quando o TETRARCH lançou Freak em 2017, muita gente que cresceu ouvindo metal nos anos 2000 parou pra prestar atenção. O nu-metal já vivia sua segunda onda — com Korn e Limp Bizkit ressurgindo em turnês nostálgicas —, mas o quarteto de Atlanta parecia entender o espírito da coisa. Pegaram o que o gênero tinha de melhor, atualizaram o som pro século XXI, misturaram um toque de metalcore e entregaram um disco que poderia facilmente ter saído em 2002 sem soar datado.

Mesmo assim, confesso que demorei para digerir o som do TETRARCH. Talvez seja pelo meu velho preconceito contra o nu-metal (algo que levou anos para me libertar), mas ao ouvir o segundo álbum, Unstable (2021), a banda me “ganhou”. Não tem como ficar indiferente aos refrões grudentos vociferados pelo vocalista e guitarrista Josh Fore. E quando vi que a guitarrista Diamond Rowe é uma mulher negra, tudo ficou ainda mais interessante — sim, representatividade importa —, ainda mais sendo ela uma das principais compositoras do grupo.

Agora, com The Ugly Side Of Me (lançado em 9 de maio pela Napalm Records), o TETRARCH mostra que não pretende sair da rota que traçou.

E não é nenhuma surpresa. O grupo segue fiel à própria fórmula — sem mudanças bruscas, sem experimentos desnecessários. São trinta minutos de nu-metal puro, daqueles que poderiam tocar entre "Issues" (do Korn) e "Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water" (do Limp Bizkit) sem ninguém perceber diferença. A faixa de abertura, "Anything Like Myself", é praticamente uma homenagem ao Korn, com baixo pulsante e uma atmosfera sombria de sintetizadores que aparecem e somem nos momentos certos. "Best Of Luck" carrega o mesmo DNA, lembrando o brilho de "Twisted Transistor".

Já "The Only Thing I’ve Got" traz aquela pegada emocional do Linkin Park da era Meteora — refrão gigante, feito pra estádios, e uma produção limpa que realça o impacto. E aqui vale destacar: os refrões são grudentos no melhor sentido, daqueles que grudam na cabeça e fazem a gente querer voltar e ouvir de novo. Há sinceridade nas letras também — em "Never Again (Parasite)", Josh Fore solta um “I gave you my trust, but never again” com uma entrega que soa real, quase como um desabafo. Essa honestidade é o que sempre manteve o nu-metal vivo entre quem cresceu com ele: uma mistura de fúria, vulnerabilidade e melodia.

Mas aqui está o ponto: o TETRARCH é ótimo no que faz, só que essa fidelidade ao estilo tem um limite. Dá pra se manter consistente sem mudar o estilo — o CANNIBAL CORPSE e o OBITUARY provaram isso —, mas ambos foram pioneiros, não seguidores. O nu-metal já teve seu auge e sua queda, e agora vive um renascimento. E The Ugly Side Of Me, embora coeso e divertido, ainda pisa em terreno conhecido. Se a banda quiser ir além, precisa encontrar algo que seja realmente seu — uma identidade que mostre pra onde o gênero pode evoluir, e não apenas revisitar o passado. Mas, se a intenção for justamente essa, então o TETRARCH é vitorioso.

Mesmo assim, pra quem não viveu a época, o álbum é uma bela porta de entrada — quase uma coletânea das melhores sensações do nu-metal. Soa como aquela coletânea em fita cassete que a gente gravava pra ouvir no discman ou no carro, cheia de riffs pegajosos e refrões explosivos. Não reinventa a roda, mas entrega diversão honesta. E às vezes, isso já basta.