04 junho 2026

Vini Castellari: peso, verdade e representatividade no metal brasileiro

 Por Júlio Feriato


Ser gay no metal nunca foi exatamente algo simples. Agora imagine ser gay em uma cena que, durante décadas, vendeu uma ideia quase caricata de masculinidade: cara fechada, barba, cabelo comprido, riffs pesados, discurso agressivo e, muitas vezes, um conservadorismo disfarçado de “tradição”. É nesse ambiente que Vini Castellari, guitarrista, compositor e um dos fundadores do PROJECT46, construiu uma trajetória que vai além dos palcos, dos festivais e dos discos.

E não, a importância de Vini não está apenas no fato de ele ser um músico gay dentro do metal brasileiro. Reduzir sua história a isso seria cometer o mesmo erro de quem olha para artistas LGBTQIA+ como se a identidade viesse antes da obra. Vini é, antes de tudo, um guitarrista de uma das bandas mais relevantes do metal moderno nacional. O PROJECT46 não nasceu para fazer música confortável. Desde o começo, a banda apostou em peso, discurso direto e letras que encaram o Brasil sem maquiagem.

Imagem: matéria no G1.

Mas existe um ponto em que arte e vida se encontram. E, no caso de Vini, esse encontro ganhou força quando sua sexualidade deixou de ser apenas um assunto íntimo e passou a ter peso público dentro de uma cena que ainda trata esse tipo de tema como tabu. Em 2015, pouco antes da apresentação do PROJECT46 no ROCK IN RIO, uma entrevista ao G1 deu visibilidade ao fato de Vini ser um homem gay no metal brasileiro. O que poderia ter sido transformado em escândalo por parte do público mais conservador acabou revelando outra coisa: muita gente precisava ouvir aquilo.

A fala de Vini foi importante justamente por quebrar uma imagem pronta. Ele não se encaixava no estereótipo limitado que muitos ainda associam a homens gays. Era cabeludo, barbudo, metaleiro, guitarrista de uma banda pesada. Em outras palavras: era tudo aquilo que parte da cena costuma aceitar como “masculino” — até descobrir que aquele homem também era gay. E talvez aí esteja uma das grandes provocações de sua presença: Vini expôs, sem precisar levantar bandeira no palco a cada show, o quanto o preconceito dentro do metal também nasce de uma visão estreita sobre o que um homem pode ou não ser.

A reação, segundo ele próprio já contou, foi muito mais acolhedora do que a insegurança fazia imaginar. Os fãs mandaram mensagens de apoio, pessoas se identificaram com sua história e os companheiros de banda estiveram ao seu lado. Isso não significa que a cena seja livre de homofobia. Longe disso. Significa apenas que, quando alguém decide existir publicamente sem pedir desculpas, abre uma fresta por onde muita gente também começa a respirar.

O caso de Vini é simbólico porque não vem embalado numa estética pop de aceitação fácil. Estamos falando de metal brasileiro, de guitarra pesada, de rodas de mosh, de público muitas vezes resistente a qualquer conversa que envolva sexualidade, gênero ou diversidade. Por isso sua presença tem força. Ele não precisou abandonar o metal para ser quem é. Não precisou suavizar sua imagem. Não precisou pedir licença. Apenas continuou sendo guitarrista, compositor, metaleiro — e gay.

Banda Project 46.

Com o tempo, sua fala também amadureceu. Vini passou a tratar o tema com mais amplitude, reconhecendo que sua experiência, como a de um homem gay com aparência considerada “heteronormativa”, não é a mesma de pessoas trans, travestis, lésbicas ou gays afeminados, que costumam sofrer violências muito mais diretas. Essa percepção é importante porque tira o debate do campo do ego e coloca a conversa num lugar mais honesto: representatividade não é só falar de si, mas entender que existem outras vivências dentro da própria comunidade.

E a trajetória de Vini ainda ganhou outra camada quando ele passou a falar abertamente sobre saúde mental, dependência química e recuperação. Num gênero que, por muito tempo, romantizou autodestruição como se fosse parte obrigatória da vida de músico, ouvir um artista do metal falar sobre fragilidade, tratamento e reconstrução tem um peso enorme. Vini não surgiu tentando vender uma imagem de herói invencível. Pelo contrário: ao expor suas quedas e seu processo de recuperação, mostrou uma coragem que a pose de “durão” jamais alcança.

Isso também é metal. Talvez mais metal do que muita encenação vazia por aí.

Porque existe peso em assumir quem se é. Existe peso em falar de dependência sem glamour. Existe peso em admitir medo, dor, recaídas, recomeços e aprendizado. Existe peso em usar a própria voz para que outras pessoas entendam que não estão sozinhas. E, nesse sentido, Vini Castellari ampliou o papel que um músico pode ocupar dentro da cena.

O PROJECT46 segue sendo uma banda de riffs, pancada e discurso social. Mas, ao lado disso, Vini se tornou uma figura importante para uma geração que cresceu ouvindo metal e, muitas vezes, não se via representada nele. Sua existência pública ajuda a desmontar a ideia de que música pesada pertence apenas a homens heterossexuais, conservadores e presos a uma masculinidade engessada.

No fim, sua história não é sobre “um guitarrista gay”. É sobre um músico que não aceitou diminuir partes de si para caber numa cena que ainda precisa aprender muito. É sobre alguém que transformou exposição em acolhimento, vulnerabilidade em força e vivência pessoal em ponte para outras pessoas.

Vini Castellari não precisou deixar de ser metaleiro para ser gay. Não precisou deixar de ser gay para ser respeitado como músico. E é justamente aí que sua presença importa: porque, quando a música fala alto e a vida fala junto, o preconceito perde volume.

28 maio 2026

Quando o BRUJERIA usou a música como arma contra o machismo

Por Júlio Feriato


O BRUJERIA sempre construiu sua identidade em cima da provocação e da brutalidade. Suas letras, personagens e imagens caminham por um território sujo, violento e teatral, onde nada parece feito para soar comportado. Dentro desse universo, “Bruja Encabronada”, lançada como um dos singles do álbum Esto Es Brujeria (2023), chama atenção justamente por usar essa agressividade para transmitir uma mensagem muito clara: a revolta feminina contra abusadores, machistas e todas as estruturas que tentam silenciar mulheres.

A canção também ganha peso extra porque dialoga com a persona de “La Bruja Encabronada”, associada a Jessica Pimentel, atriz e musicista estadunidense de ascendência dominicana (conhecida por interpretar Maria Ruiz no famoso seriado da Netflix Orange Is the New Black), que passou a integrar o universo do BRUJERIA em 2017. 

Jessica Pimentel nos tempos da banda Desolate.

A “bruxa” da música não é apenas uma figura de terror ou ocultismo. Ela representa a mulher que cansou de ser chamada de louca, exagerada, histérica ou perigosa por não aceitar submissão. A palavra “encabronada”, em tradução livre, sugere alguém tomada por uma raiva profunda, e reforça justamente essa ideia: trata-se de uma fúria com motivo. Não é revolta gratuita. É reação.

A música fala de violência, abuso, medo, impunidade e resistência. O BRUJERIA pega uma linguagem típica do metal extremo — agressiva, direta e suja — e a coloca a serviço de uma denúncia social. A brutalidade, aqui, não está contra a mulher. Pelo contrário: ela vem da mulher. É a voz da vítima que se recusa a continuar calada.

E é aí que a faixa se torna especialmente interessante dentro da cena metal. O gênero sempre se orgulhou de ser rebelde, contestador e antissistema. Mas, ao mesmo tempo, parte de seu público ainda reproduz um machismo velho, cansado e contraditório. Muitos metaleiros aceitam tranquilamente letras sobre morte, guerra, demônios, mutilação e destruição, mas se incomodam quando uma música aponta o dedo para o abuso contra mulheres.

Essa contradição não é exclusividade da cena latina. Ela existe no metal mundial. Ainda há quem trate mulheres como intrusas no rolê, duvide do conhecimento delas sobre bandas, minimize denúncias de assédio ou ache que qualquer crítica ao machismo é “mimimi”. É curioso: o cara se diz contra a censura, contra a religião, contra o sistema e contra a caretice, mas se desespera quando uma mulher usa a mesma raiva do metal para denunciar violência.


“Bruja Encabronada” incomoda porque vira esse jogo. A mulher não aparece como objeto, vítima passiva ou fantasia masculina. Ela aparece como ameaça. Como força. Como alguém que devolve o medo a quem sempre o produziu. A figura da bruxa, historicamente usada para perseguir mulheres independentes, aqui se transforma em símbolo de resistência.

No fim, a música funciona como um recado direto para a própria cena: o metal não pode se dizer livre, rebelde e extremo se continuar protegendo comportamentos machistas. Ser pesado não é apenas falar de sangue, morte e caos. Às vezes, ser pesado é encarar verdades incômodas dentro do próprio público.

“Bruja Encabronada” é isso: uma música brutal, raivosa e necessária. Uma lembrança de que a fúria feminina não é exagero. Muitas vezes, é apenas justiça gritando mais alto que a distorção das guitarras.


26 maio 2026

“SCREAM BLOODY GORE”: QUANDO O DEATH METAL ESCAPOU DA SEPULTURA

Por Krampus

Death em 1987: Chuck Schuldiner ( R.I.P ), Chris Reifert e John Hand

Quase quatro décadas depois, Scream Bloody Gore ainda soa perigoso.

Não nostálgico. Não inocente. Não preservado atrás de um vidro, como uma relíquia intocável da adolescência do metal extremo. Perigoso.

Talvez essa seja a maior conquista de Chuck Schuldiner e da formação original do DEATH: eles criaram um disco tão fundamental que gerações inteiras absorveram sua linguagem, mas que ainda mantém o cheiro de salas de ensaio úmidas, fitas cassete duplicadas, amplificadores baratos, VHS de horror e obsessão juvenil em estado puro.


Lançado em 1987 pela Combat Records, Scream Bloody Gore não apenas levou o thrash metal a um nível mais extremo. Ele cruzou uma linha. O álbum estabeleceu um novo território emocional e sonoro, no qual a brutalidade deixou de ser mero adorno estético para se tornar a própria linguagem central.

É claro que o metal extremo não surgiu isoladamente. As bases já haviam sido lançadas por bandas como SLAYER, POSSESSED, HELLHAMMER e CELTIC FROST. No Brasil, um ainda jovem SEPULTURA já transformava escassez em fúria em discos como Bestial Devastation e Morbid Visions.

Aquelas gravações brasileiras primitivas viajaram pela rede subterrânea de troca de fitas e chegaram até Chuck Schuldiner, na Flórida, tornando-se uma das faíscas que o convenceram de que ele não estava sozinho em sua visão.

Chris Refeirt e Chuck usando uma camiseta muito antiga do Sepultura, provavelmente feita por Igor "Skullcrusher". 

E esse detalhe importa.

Porque o metal extremo jamais foi realmente construído pelos centros ricos da indústria musical. Ele nasceu em subúrbios, cidades negligenciadas, bairros operários e regiões periféricas, onde jovens criavam cultura com os recursos que conseguiam reunir. Tampa, Belo Horizonte, Essen, Coventry, Estocolmo — realidades diferentes conectadas pela mesma fome de criar algo mais brutal, mais livre e mais honesto do que a máquina polida de entretenimento ao redor deles.

De muitas formas, Scream Bloody Gore soa como o underground internacional descobrindo sua própria consciência coletiva.

Chuck Schuldiner não estava interessado em acessibilidade. Nem em perfeição técnica pela perfeição em si. O que importava era expressão. Impulso. Atmosfera. Convicção. Dá para ouvir isso imediatamente em faixas como “Infernal Death”, “Zombie Ritual”, “Denial of Life”, “Mutilation”, “Baptized in Blood” e na própria faixa-título.

Chris Refeirt e Chuck Schuldiner ensaiando antigamente.

Os riffs rastejam e golpeiam ao mesmo tempo. A bateria soa violenta em vez de clínica. Os vocais parecem menos uma performance e mais uma decomposição tomando forma humana. Ainda assim, por baixo de toda a imagética de horror e da distorção em motosserra, existe uma compreensão surpreendentemente sofisticada de composição musical.

Essa é uma das qualidades mais incompreendidas do álbum.

Tão importante quanto Chuck para o legado duradouro do disco foi a presença de Chris Reifert atrás da bateria. Sua performance selvagem, primitiva e inconfundivelmente humana deu a Scream Bloody Gore grande parte de seu pulso caótico. Reifert carregaria esse mesmo espírito posteriormente para o AUTOPSY, outra pedra fundamental do underground formativo do death metal, onde feiura, atmosfera e instinto bruto sempre importaram muito mais do que vaidade técnica ou refinamento comercial.

Chuck Schuldiner em algum show nos anos 80.

Apesar de toda a sua sujeira, Scream Bloody Gore permanece profundamente enraizado na construção clássica do heavy metal. Existem refrões memoráveis por toda parte. Grooves rítmicos. Instintos melódicos claros. O DNA do IRON MAIDEN e do thrash metal inicial ainda corre por suas veias — apenas arrastado para uma dimensão mais sombria e doentia.

É exatamente por isso que o álbum sobreviveu enquanto incontáveis imitadores desapareceram. Nunca foi brutalidade pelo espetáculo em si. Era brutalidade com identidade.

E talvez isso explique por que o disco ainda ressoa tão fortemente numa era em que até a rebeldia frequentemente é empacotada, monetizada e transformada em conteúdo inofensivo.

Scream Bloody Gore veio de um período em que a música underground ainda dependia de comunidades físicas, trocas de fitas, cartas manuscritas, fanzines e entusiasmo coletivo genuíno. Pertencia a pessoas que construíam sua própria infraestrutura cultural paralela, fora da aprovação das instituições dominantes.

Existe algo profundamente humano nisso. Especialmente hoje.

As imperfeições da produção apenas fortalecem seu poder. Nada aqui parece esterilizado. Nada soa desenhado algoritmicamente para consumo máximo. O disco respira. Sua. Parece vivo da maneira como apenas a arte genuinamente subterrânea consegue soar.

E é por isso que o álbum permanece muito maior do que “o primeiro disco de death metal” — debate que continuará para sempre entre historiadores do metal, aliás.

Seu verdadeiro significado está em outro lugar.

Scream Bloody Gore provou que a música extrema podia se tornar uma linguagem artística autônoma, com estética, atmosfera, lógica emocional e identidade cultural próprias. Mostrou que o underground não precisava mais pedir permissão a ninguém.

Quase quarenta anos depois, incontáveis subgêneros, cenas e bandas ainda existem à sombra dessa revelação.

Não porque Chuck Schuldiner seguiu tendências. Mas porque ele ajudou a criar uma realidade inteiramente nova.

25 maio 2026

HAVUKRUUNU: a cria selvagem que BATHORY e MOONSORROW teriam se tivessem um filho

Por Krampus

Havukruunu em 2017: Stefan (vocal/guitarra/baixo/teclado) e Noitavalo (bateria).
Então, quando foi a última vez que você ficou tão empolgado com uma banda a ponto de querer contar para qualquer pessoa, só para depois se dar conta de que ela não entenderia essa coisa de “metal” de que você estava falando e sentir vontade de esmagar o crânio dela com o martelo de Thor? Não foi ultimamente? Bem, então venha cá e leia isto.

A banda finlandesa Havukruunu, relativamente jovem, foi formada por volta de 2013. Com alguns álbuns incríveis, demos excepcionais e muito noise pagão estridente no currículo, lançou, em 2017, seu segundo álbum oficial, “Kelle Surut Soi”. Até agora, este é o seu melhor trabalho. E, provavelmente, o melhor álbum daquele ano — pelo menos para mim, e talvez para qualquer outra pessoa.


O som do Havukruunu lembra o que aconteceria se Quorthon, na época de “Blood Fire Death”, e o Moonsorrow, na era de “Verisakeet”, unissem forças e, no processo, decidissem adicionar blast beats intermináveis e bumbo duplo sempre que possível. O resultado traz gritos de guerra vikings, cantos ancestrais, coros, espíritos e até alguns vocais limpos — presumivelmente, quando o vocalista fica realmente furioso.

Isso é só o vocal. Depois vem a bateria: estelar, estrondosa e variada, inquieta e implacável. Faz tempo que eu não ouvia um baterista que gostasse tanto de tocar bateria... bem, desde o álbum anterior do Havukruunu. Se prestar atenção, pode até notar que ele acentua os riffs de guitarra ao bater em diferentes partes do prato de condução durante um blast beat.


Riffs? Sim, há muitos deles. Lembra-se do primeiro motivo que levou você a curtir esse negócio de metal? O Havukruunu tem todos eles e muito mais. Há riffs distantes, poéticos, triunfantes, orgânicos e honestos. Também há riffs galopantes, flamejantes e brutais. São riffs de verdade, do jeito que deveriam ser compostos. Alguns vão voltar à sua cabeça no dia seguinte; outros vão causar impacto imediato.

Alguns serão um mistério por algum tempo, como o riff explosivo no início de “Vainajain Valot”, que só se torna claro no final da música, porque, no começo, fica quase abafado pelo blast beat. Outros vão dar a você vontade de erguer as mãos e gritar, como a passagem para bater cabeça depois do solo de guitarra limpa em “Myrskynkutsuja”.


Algumas melodias são triunfantes; outras, pungentes; algumas só se tornam óbvias se você prestar atenção. E os solos, às vezes, aparecem até onde uma banda comum seria preguiçosa. Mas o Havukruunu não faz nada de “normal” — nem de “preguiçoso”, aliás. Há sempre algo acontecendo, seja uma linha de baixo inspirada surgindo quando você menos espera, seja um som inserido apenas para dar mais seriedade às coisas.

No começo, chega a ser assustador, porque você começa a gostar demais do Havukruunu e torce para que a banda não cometa um erro comum, como colocar uma parte chata depois de uma boa parte. Mas, faixa após faixa, minuto após minuto, as suspeitas desaparecem e, quando o álbum termina, todas as dúvidas também se dissipam, porque essa banda também não faz nada de “chato”. Você pode ouvir o álbum novamente sem se preocupar. Anos após o lançamento oficial, ainda ouço “Kelle Surut Soi” sempre que tenho uma hora livre.

Formação atual do Havukruunu.
“E o som?”, alguém pode perguntar. Ele é impactante e envolvente, mas um pouco frio e distante. É possível ouvir tudo, e isso já é uma conquista por si só. Portanto, é perfeito para o que se propõe. Se você ouvir alguém tocando “Kelle Surut Soi” em outro cômodo, provavelmente sentirá inveja.

Kelle Surut Soi” é épico, mas não no sentido das histórias de reluzentes matadores de dragões; ao contrário dos cavaleiros brilhantes de outrora, ele é marcado pelo tempo, veste peles emaranhadas e quase certamente já arrancou a garganta de outro homem com uma mordida. 


Embora se possam fazer críticas à homogeneidade — como ocorreu com seu antecessor, “Havulinnaan” (2015) —, este álbum é, acima de tudo, monstruosamente divertido, conseguindo, inclusive, eliminar minha noção de tempo. Se você decidir se presentear, apagando as luzes e ouvindo o álbum com fones de ouvido, não haverá mais nada ao redor, e você não conseguirá pensar em nada além da música. Sim, é tão bom assim. Compre.

21 maio 2026

Com 'Cause of Death', o OBITUARY consolidou seu nome no death metal

Por Krampus

Quando se discute a era de ouro do death metal da Flórida no início dos anos 1990, poucos álbuns são tão reverenciados e fundamentais quanto o monumental segundo trabalho do OBITUARY. Lançado em 1990 e adornado por uma das capas mais icônicas da história da música extrema — obra do lendário artista Michael Whelan —, em vez de apenas entregar velocidade Cause of Death trouxe uma identidade fundamentada no peso sufocante e na ambientação aterrorizante, transformando o ato de escutar o disco em uma experiência única.

A aura que emana de Cause of Death é de pura maldade. A atmosfera é o equivalente musical de um cadáver apodrecendo ao sol, exalando um odor de morte e horrorizando quem o ouve. Os efeitos adicionais incorporados ao álbum são os grandes responsáveis por fazê-lo atingir esse nível de grandeza. Um ótimo exemplo é a introdução de "Infected". Quando o som descendente de sinos e de um vento uivante se junta às batidas de um martelo golpeando uma rocha, você sabe imediatamente que se trata da sinistra introdução deste disco.

E isso é só o começo. As cordas graves da guitarra de Trevor Peres tocam o riff sombrio e ameaçador que dá o tom inicial de "Infected". É então que o solo de James Murphy surge como um abutre, pronto para se banquetear com a sonoridade incrível do OBITUARY . O som de seus solos é mais limpo e menos distorcido do que em seus outros trabalhos como guitarrista, mas gostei mais do seu timbre neste disco do que em qualquer outro em que tenha tocado. 

Outras duas obras-primas de Cause of Death são "Memories Remain" e "Find the Arise". Adoro a abertura de "Memories Remain" — é a banda no seu auge, apresentando o grito mais insano de John Tardy. Já "Find the Arise" atua como uma espécie de trailer cinematográfico: essencialmente tudo o que você ouvirá em Cause of Death está presente nela. Lembro-me com carinho de ter ficado surpreso e bastante assustado com o grito repentino que vem logo após a introdução com sons de tempestade nesta faixa.

O que mais gosto neste disco é o vocal de John Tardy. Ele é um verdadeiro monstro no microfone, simplesmente atropelando tudo em seu caminho com aquela voz absurda. Não são apenas grunhidos típicos do death metal; são verdadeiros rugidos. Ele se coloca em um pedestal, acima até mesmo de alguns dos vocalistas mais titânicos do gênero, como Brett Hoffmann ou Frank Mullen. O melhor uso de suas habilidades pode ser conferido em "Memories Remain" e "Dying". As composições de Tardy nessa fase da carreira do OBITUARY consistiam principalmente em temas excêntricos, o que me agrada bastante.

Há muito a se dizer também sobre os dois heróis não tão reconhecidos da sonoridade de Cause of Death: o baterista Donald Tardy e o baixista Frank Watkins. Embora o baixo de Watkins não tenha um timbre tão distinto de imediato, sua presença estrondosa é bem perceptível para o ouvinte. O som grave e pesado, característico do OBITUARY no início dos anos 90, deve-se, em grande parte, a essa sonoridade encorpada e distorcida do instrumento. 


Donald Tardy, por sua vez, é um baterista soberbo. Jamais — e eu digo absolutamente nunca — ele acelera ou desacelera indevidamente o andamento de qualquer música do Obituary, tampouco sai do ritmo. Ouça "Find the Arise" e "Chopped in Half" para apreciar seu melhor trabalho em Cause of Death.

Pedir a uma banda de death metal que faça um cover de uma música do Celtic Frost não é tarefa fácil, e fazê-lo bem é um desafio completamente diferente. O OBITUARY acertou em cheio com "Circle of the Tyrants". Ouvir Donald Tardy tocando bateria com uma velocidade impressionante e seu irmão cantando a faixa com tanta maestria me convenceu plenamente da grande influência do grupo suíço sobre eles, mesmo que o som do Obituary seja bem mais agressivo. O restante da banda se sai maravilhosamente bem, e acho que o cover pode ser considerado perfeito.

E "perfeito" é a palavra que define Cause of Death para um novato no death metal. Anos atrás, quando ouvi esse álbum pela primeira vez, soube imediatamente que encontraria algo diferente, algo muito, muito mais pesado do que um disco comum. E foi exatamente isso que ocorreu: deparei-me com a banda mais brutal da Flórida, o OBITUARY .

Curiosidades:

- As gravações aconteceram no lendário Morrisound Recording, estúdio que praticamente definiu a estética do death metal floridiano no final dos anos 80 e início dos 90. Produzido por Scott Burns, Cause of Death capturou perfeitamente aquela combinação de sujeira, peso e clareza que transformou o Morrisound em referência mundial para o metal extremo. Curiosamente, o OBITUARY buscava um som ainda mais pesado e “doentio” do que em Slowly We Rot, e Burns precisou equilibrar a crueza do grupo com uma produção que não sacrificasse completamente a definição dos instrumentos.

- Outro detalhe curioso envolve a participação de James Murphy. O guitarrista entrou no OBITUARY logo após sua saída do Death e praticamente caiu direto no estúdio para gravar Cause of Death. Sua presença elevou drasticamente o nível técnico do álbum, trazendo uma abordagem mais refinada e melódica aos solos, em contraste com a brutalidade quase primitiva dos riffs de Trevor Peres. O resultado foi uma fusão quase perfeita entre caos e precisão.

- Existe ainda uma história curiosa envolvendo a arte da capa. O OBITUARY originalmente queria utilizar a ilustração de um necrotério retirada do livro The Dead, do fotógrafo Joel-Peter Witkin, mas problemas de direitos autorais impediram o uso da imagem. Às pressas, a banda acabou recorrendo a uma pintura já existente de Michael Whelan — o mesmo artista responsável pela capa de Beneath the Remains, clássico do SEPULTURA. A coincidência acabou gerando uma das histórias mais curiosas da era de ouro do death metal: dois clássicos absolutos do gênero compartilhando praticamente a mesma identidade visual no mesmo período.

10 maio 2026

NERVOSA: 'Slave Machine' é um dos discos mais violentos e afiados de 2026

Por Júlio Feriato

É impressionante acompanhar o nível que a NERVOSA alcançou nos últimos anos. Depois de inúmeras mudanças de formação e de uma fase em que a banda mergulhou mais fundo no death metal, Slave Machine surge como um disco que reafirma a identidade do grupo sem abrir mão da evolução conquistada ao longo da trajetória. E basta uma primeira audição para perceber isso. A reação é praticamente instantânea: “caralho, isso aqui tá absurdo”.

O álbum se afasta um pouco da sonoridade mais extrema de Jailbreak (2023), mas sem abandonar a brutalidade que a NERVOSA vinha desenvolvendo. Ao mesmo tempo, soa mais agressivo, mais técnico e muito mais coeso do que boa parte do material recente da banda. Existe uma sensação de unidade que talvez não aparecesse dessa forma desde Downfall of Mankind (2018), e isso fica evidente na química da formação atual.


A produção também merece destaque. A mixagem é pesada na medida certa, tudo soa muito forte e definido, mas sem perder aquele peso cru que combina com a proposta da banda. O disco traz uma abordagem mais moderna e refinada, mas sem descaracterizar o som da NERVOSA . Continua sendo thrash metal agressivo, direto e feito para destruir pescoços ao vivo.

E talvez seja justamente aí que Slave Machine mostre sua maior força: a energia. Dá para ouvir o álbum inteiro imaginando o caos que essas músicas vão causar nos shows. Quem já viu a banda ao vivo sabe que é praticamente impossível escapar da roda punk quando elas sobem ao palco. A intensidade e o senso de urgência dessas novas faixas parecem feitos sob medida para incendiar a plateia.

Musicalmente, o disco não tenta reinventar o thrash metal, e sinceramente nem precisa. Nada aqui soa artificialmente experimental ou progressivo. O álbum aposta no que o estilo faz de melhor: riffs cortantes, bateria insana, grooves violentos e refrões feitos para serem gritados por um público suado enquanto destrói a coluna cervical.

Faixas como “Impending Doom”, “Learn or Repeat” e a própria “Slave Machine” mostram uma banda extremamente afiada, despejando riffs um atrás do outro sem dar espaço para respirar. Mesmo nos momentos mais cadenciados, a sensação continua sendo a de um atropelamento sonoro constante. O trabalho das baixistas Hel Pyre e Emelie Herwegh adiciona ainda mais peso às composições, especialmente em “Ghost Notes”, que entrega um dos momentos mais marcantes do álbum com um solo de baixo que merece destaque.

Nos vocais, Prika Amaral talvez entregue sua performance mais feroz até hoje. Os vocais rasgados continuam brutais, mas ela também adiciona algumas linhas limpas discretas nos refrões, criando momentos extremamente grudentos sem suavizar o impacto das músicas. “30 Seconds”, “Speak in Fire”, “Ghost Notes” e “Slave Machine” têm refrões daqueles que ficam na cabeça imediatamente.

Nas guitarras, Helena Kotina ajuda a elevar ainda mais o nível técnico do disco. Os solos são rápidos, melódicos, caóticos e muito bem encaixados, principalmente em “The New Empire”, “Crawl for Your Pride” e “Learn or Repeat”. Já na bateria, Michaela Naydenova simplesmente destrói tudo sem perder precisão, dando ao álbum uma sensação constante de urgência e violência.

No fim das contas, Slave Machine mostra a NERVOSA em uma de suas fases mais fortes, técnicas e coesas até agora. Não é um álbum preocupado em reinventar o metal, criar tendências ou agradar quem vive decretando a morte do thrash na internet. É simplesmente uma banda funcionando como uma máquina de guerra extremamente bem ajustada — despejando riffs, velocidade e brutalidade do começo ao fim. Exatamente como o thrash metal deveria soar em 2026.

08 maio 2026

ANGRA reúne gerações e celebra sua trajetória no Espaço Unimed

Por Allan Kunha

Existem shows que são apenas apresentações ao vivo. E existem aqueles que parecem um encontro entre passado, nostalgia e realização pessoal. O Angra Reunion no Espaço Unimed foi exatamente isso: uma celebração de diferentes fases da banda, reunindo músicos que marcaram gerações e entregando uma noite carregada de emoção para fãs que esperaram décadas por um momento assim. Mais do que um simples show, foi uma experiência quase catártica para quem cresceu ouvindo esses discos e sonhando em ver determinadas formações dividindo o mesmo palco novamente.

O evento estava marcado para começar às 21h e prometia quase três horas de duração. Houve um pequeno atraso por conta dos ajustes finais, e a casa estava completamente lotada, mas, no geral, tudo correu bem. O público do ANGRA é bem diverso em questão de idade: tinha desde adolescentes de 15 anos acompanhados pelos pais fãs da banda, passando pela galera na faixa dos 35 anos que viveu intensamente a era Rebirth e Temple of Shadows, até os veteranos de 40, 45 anos, que acompanharam a primeira fase desde Angels Cry.

Foto: @andretedimphotography
O ACT I começou com imagens da trajetória da banda sendo exibidas no telão do Espaço Unimed, que estava abarrotado. O vídeo passeava desde o início da carreira e suas diferentes formações até os dias atuais. O repertório dessa primeira parte foi focado principalmente na era clássica com Andre Matos, mas também abriu espaço para algumas músicas da fase com Fabio Lione.

O show já começou de maneira absurda com "Nothing To Say", levando o público à loucura logo em seguida com "Angels Cry". Porém, durante "Tide of Changes", o clima esfriou um pouco. Foi aquele momento em que muita gente aproveitou para ir ao banheiro ou buscar cerveja. Como o Dee Snider costuma dizer: existem as músicas que todo mundo quer ouvir e aquelas usadas para “tirar a água do joelho”. E, por mais bonita que "Tide of Changes" seja, a plateia claramente não estava ali por ela — ainda mais sem a voz do “Mago”. Mesmo sendo uma homenagem muito bonita à fase Lione, interpretada com competência pelo Alírio Netto, a escolha acabou não funcionando tão bem naquele momento inicial do show. O público queria outra coisa.

Foto: @andretedimphotography
Mas logo veio a sequência que provou que a entrada de Alírio Netto não aconteceu por acaso, e sim por ser uma escolha extremamente acertada: "Wuthering Heights", "Carolina IV" e "Make Believe". Foi facilmente um dos pontos altos da noite. Quem ainda não viu o Alírio ao vivo precisa ver, porque o cara canta demais. Voz afiadíssima, potência absurda e agudos impecáveis. Já estou ansioso para ouvir um álbum inédito do ANGRA com ele nos vocais, porque, sinceramente, esse parece ser o caminho certo.

A segunda parte começou com as luzes se apagando e o palco sendo tomado por tons de azul, numa clara referência ao momento mais aguardado da noite. Quando "In Excelsis" começou a tocar e surgiram as silhuetas dos “4 Cavaleiros do Zodíaco Apocalíptico” — nosso tesouro Kiko Loureiro, Felipe Andreoli, Rafael Bittencourt e Edu Falaschi — na linha de frente, acompanhados pelo “Ktulu” Aquiles Priester em sua nave baterística ao fundo do palco... F*DEU. Ninguém estava preparado para essa "Nova Era". Simplesmente tocaram o álbum Rebirth na íntegra.

É difícil colocar em palavras a emoção de ouvir ao vivo músicas que marcaram toda uma geração do começo dos anos 2000. E o mais bonito era ver o Edu com um sorriso gigantesco no rosto o tempo inteiro. Atrás dele, o “Polvo” destruía tudo na bateria, enquanto Rafael, Felipe e Kiko tocavam em um nível absurdo. Foi emocionante de verdade. Dava para perceber claramente que os fãs daquela era clássica estavam profundamente emocionados.

Um detalhe que me chamou atenção: enquanto eu estava focado nas guitarras, acabei me surpreendendo ao perceber como Bruno Valverde toca pesado, mesmo usando traditional grip, uma técnica mais associada ao jazz e fusion. O cara simplesmente destrói.

Realizei o sonho de ver o ANGRA com a formação clássica executando Rebirth na íntegra e, ao mesmo tempo, pude testemunhar a excelência da nova formação com Alírio Netto. Sério, o quanto esse cara canta ainda não está escrito. Ele honra o legado do nosso eterno maestro Andre Matos enquanto constrói sua própria história de maneira brilhante. Vocais impecáveis, presença de palco e muito respeito ao material clássico. Um verdadeiro mestre. Até agora estou sem palavras.

Destaques do show:
ACT I: Nothing To Say, Angels Cry, Wuthering Heights (perfeição!), Carolina IV e Make Believe.
ACT II: O REBIRTH INTEIRO, MERMÃO! (Visions Prelude ainda rolou como música de créditos no final).
ACT III: Reaching Horizons (voz e violão do Rafa), Silence and Distance, Late Redemption e, claro, o encerramento perfeito com Unfinished Allegro + Carry On.

Por enquanto é isso… provavelmente eu volto para falar mais alguma coisa. Ou não. Vai saber.

05 maio 2026

ANGRA aposta na nostalgia e prova sua força no Bangers Open Air 2026

Por Júlio Feriato

Reencontro de titãs. Foto: @anderscarvalho

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Sempre que digo que, pelo menos no Brasil, o ANGRA é maior que o SEPULTURA, muita gente torce o nariz e trata como exagero. Mas, olhando para o que a banda ainda movimenta por aqui — fãs fiéis, shows cheios e um público que acompanha cada fase — não vejo tanto absurdo assim. No Bangers Open Air, essa impressão ficou ainda mais forte, pelo menos pra mim.

Logo após o encerramento do show do WITHIN TEMPTATION, corri de volta para a frente do setor de imprensa, um dos poucos pontos onde ainda dava para assistir com um mínimo de tranquilidade. Ou pelo menos era o plano. No caminho, precisei cruzar a área em frente ao Hot Stage, e aí a realidade foi outra: um mar de gente espremida, praticamente impossível de atravessar.

Enquanto o ANGRA iniciava a intro, eu ainda estava preso naquele aperto. Quando começaram os primeiros acordes de "Nothing to Say", mal consegui prestar atenção, minha prioridade era sair vivo da muvuca. Só depois de ativar o "modo sobrevivência", consegui me livrar e achar um lugar minimamente decente.

Já mais tranquilo, deu pra perceber que a banda começou do jeito certo: no talo. "Nothing to Say", com Alírio Netto nos vocais, abriu o set com energia alta e um público cantando junto. Na sequência, "Angels Cry" elevou ainda mais o clima, e aí não teve jeito, entrei no coro também.

Alirio Netto e Rafael Bittencourt. Foto: @diegoccamara

Depois de um início assim, o mínimo que se esperava era manter o pé no acelerador. Eu já estava pronto pra uma sequência com "Evil Warning", "Time" e outros clássicos. Mas aí veio o balde de água fria: Fabio Lione sobe ao palco. Até aí, ok. Pensei que viriam os melhores momentos da fase dele como "Black Hearted Soul", "Newborn Me", "War Horns" (que, pra mim, é facilmente uma das melhores dessa fase). Era o caminho mais certeiro. Só que a banda resolveu ir por outro lado.

Em vez de manter a energia, entraram músicas mais lentas, que quebraram o ritmo do show. Isso é algo que me incomoda no ANGRA: com tanto material forte com Lione, por que insistir justamente nas mais arrastadas? A sensação é de uma escolha que desmonta o que a própria banda construiu minutos antes.

Fabio Lione. Foto: @anderscarvalho

Vieram "Tide of Changes – Part I" e "Tide of Changes – Part II", que em estúdio funcionam bem, mas ao vivo não seguram o mesmo impacto. O clima até deu uma leve reagida com "Lisbon", que parecia indicar uma retomada. Pensei: “agora vai”. Não foi. Logo depois, veio "Vida Seca", seguida por "Wuthering Heights", clássico da Kate Bush, dessa vez com Alírio nos vocais, tentando um timbre mais próximo de Andre Matos, e, na minha visão, não funcionou tão bem. Vale dizer: respeito total ao Alírio, ele canta muito e dá conta do repertório. O problema não é sua capacidade, mas quando ele perdeu um pouco da força ao tentar imitar Andre.

A coisa só voltou a engrenar de verdade em "Carolina IV". Mas, a essa altura, a adrenalina do começo já tinha ficado pra trás. E assim se encerrou o primeiro ato.

Poucos minutos depois, começou o que provavelmente era o momento mais esperado: Kiko Loureiro, Aquiles Priester e Edu Falaschi se juntaram a Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli para o segundo ato. Quando todos finalmente apareceram no palco, a plateia foi ao delírio. Era um momento histórico não só pro ANGRA, mas pra quem acompanha a banda há anos.

Kiko Loureiro, Edu Falaschi e Rafael Bittencourt. Foto: @diegoccamara

Quando "Nova Era" começou, o festival inteiro cantou junto. Bonito de ver. Mas aqui entra meu lado chato: Edu Falaschi claramente não estava num bom dia. Não sei se era questão de retorno ou qualquer outro fator, mas a voz não estava legal. Lembrei na hora de uma entrevista que fiz com ele em 2011, antes do Rock in Rio, quando ele brincou sobre não poder ficar doente pra não comprometer o show. Pois é… dessa vez, alguma coisa não encaixou.

A voz não melhorou ao longo do set. Sempre que as músicas exigiam mais, especialmente nas partes mais altas, a coisa não vinha. Ainda assim, seguiram com "Waiting Silence", "Millennium Sun", "Heroes of Sand", "Spread Your Fire" (uma das melhores dessa fase), "Acid Rain" e fecharam com "Rebirth".

O terceiro ato começou com uma bela homenagem a Andre Matos, com um vídeo antigo dele ao piano introduzindo "Silence and Distance". Confesso que quase fui às lágrimas — Andre é um dos poucos artistas cuja morte realmente me abalou. A banda seguiu com a música ao vivo, com três guitarras no palco (Kiko Loureiro, Marcelo Araújo e Rafael Bittencourt), além de Alírio e Edu dividindo os vocais. E aqui não tem como não notar: a diferença de potência entre as vozes é bem evidente.

Na sequência, veio mais uma balada, "Late Redemption", novamente com vocais divididos.

Os três tenores: Edu Falaschi, Fabio Lione e Alirio Netto. Foto: @lecasuzukiphoto

O show deu uma pausa e emendou a intro "Unfinished Allegro", que puxou "Carry On". Nesse momento, todo mundo estava no palco: Fabio, Alírio e Edu nos vocais; Bruno Valverde e Aquiles na bateria; Felipe Andreoli no baixo; além de Rafael, Kiko e Marcelo nas guitarras. Foi interessante de ver e talvez tenha sido o clímax da noite.

Os três vocalistas fizeram jus ao Andre Matos? Não. Mas, sendo bem honesto, ninguém esperava isso. "Carry On" sempre foi uma música muito específica na voz dele, e tá tudo bem.

Familia reunida (ou quase). Foto: @marcosoliveirapht

Se você chegou até aqui, já percebeu que essa resenha está carregada de críticas. E sim, são críticas de fã. Acompanho o ANGRA desde sempre, mas não sou fã cego, e também não sou dos mais fáceis de agradar. Senti falta de músicas como "Time" (como assim ficou de fora?), "Evil Warning", que pra mim é essencial, e até "Holy Land", já que a ideia era incluir momentos mais cadenciados. E volto no ponto: com tanto material forte da fase com Fabio Lione, dava pra fazer escolhas mais equilibradas.

Dito isso, a maioria ali claramente não se importou com nada disso. Tenho amigos que se emocionaram de verdade com esse show — o que talvez indique que eu esteja sendo crítico demais, quase um "Régis Tadeu" da vida.

No geral, o Bangers Open Air 2026 foi uma experiência muito positiva. Sinceramente, tenho pouco a reclamar do festival. Vi bandas que gosto, reencontrei amigos (o que, pra mim, é mais importante), e mesmo com o corpo destruído depois, valeu cada segundo. Sair do interior do Paraná pra viver isso foi mais do que válido.

Que venha o Bangers Open Air 2027, estarei lá, sem pensar duas vezes.