16 junho 2026

TAHLILAN: black metal indonésio que faz a Noruega parecer brincadeira de criança

Por Júlio Feriato

Quando se fala em black metal, a cabeça de muita gente ainda vai automaticamente para a Noruega dos anos 90: corpse paint, igrejas queimadas, frio, floresta, anticristianismo e toda aquela aura de escândalo que virou mitologia dentro do metal extremo. Só que, de vez em quando, aparece uma banda que lembra uma coisa simples: o terror não precisa vir da Escandinávia. Ele pode sair de Tangerang, em Banten (província da Indonésia, na ilha de Java), envolto em mortalha, cheiro de incenso, túmulo no palco e uma atmosfera que parece menos show de metal e mais cerimônia fúnebre invocada no meio da madrugada.

Essa banda atende pelo nome de TAHLILAN.

Formado em 2008, o grupo indonésio se move dentro do black metal, mas seria pobre demais resumir sua proposta a isso. O TAHLILAN parece mais interessado em transformar o palco num ritual do que simplesmente tocar música extrema. E não é um ritual neutro: há ali uma combinação de funeral, folclore, misticismo e satanismo. A própria identidade da banda já carrega um peso simbólico enorme: “tahlilan” remete a uma prática religiosa e comunitária muito presente na Indonésia, ligada a orações coletivas, lembrança dos mortos e rituais realizados após o falecimento de alguém. Ou seja, enquanto muita banda ocidental brinca de profanar símbolos religiosos alheios, o TAHLILAN parte de um imaginário fúnebre real, próximo, culturalmente reconhecível — e o contamina com o vocabulário sombrio do black metal.

É aí que a coisa fica interessante.

A Indonésia é o país com a maior população muçulmana do mundo. Não estamos falando de uma banda surgida em um cenário europeu mais secularizado, onde chocar a igreja já virou quase uma estética vintage. Estamos falando de um país em que religião, tradição, comunidade e cotidiano caminham de forma muito mais próxima. Nesse contexto, uma banda de black metal que sobe ao palco com visual de pocong (figura fantasmagórica do folclore indonésio, geralmente representada como um cadáver envolto em mortalha branca) não está apenas copiando clichê de corpse paint. Está mexendo com imagens locais, com símbolos de morte, com medo popular, com memória religiosa e com a fronteira desconfortável entre o ritual, o espetáculo e a blasfêmia.

E convenhamos: perto disso, muito black metal norueguês começa a parecer teatro infantil de inverno.

Claro, a frase é provocação. A importância histórica da cena norueguesa é indiscutível. Sem ela, provavelmente boa parte do black metal moderno nem existiria do jeito que conhecemos. Mas há algo no TAHLILAN que soa mais visceral justamente por não parecer uma encenação importada. Quando o vocalista aparece sendo carregado até o palco como um cadáver preparado para o enterro, coberto por kain kafan (tecido branco usado como mortalha em rituais funerários islâmicos), com maquiagem ensanguentada, enquanto os outros músicos surgem em robes vermelhos e rostos pálidos, a sensação não é a de uma banda querendo apenas “parecer malvada”. A sensação é a de que alguém abriu uma porta que talvez devesse permanecer fechada.


E aí entra outro elemento fundamental: o satanismo.

O vocalista do TAHLILAN costuma abrir apresentações gritando “Sataaan” ou “setan” (“demônio”, “diabo” ou “satã”, em indonésio). Isso impede qualquer tentativa de suavizar demais a proposta da banda como se fosse apenas folclore, apenas teatralidade ou apenas resgate cultural. Há, sim, uma camada satânica evidente na comunicação e na performance do grupo. A diferença é que esse satanismo não aparece de forma genérica, como mera cópia do manual escandinavo. Ele surge misturado ao imaginário funerário local, ao pocong, ao tahlilan, ao kain kafan, ao incenso, ao medo da morte e aos símbolos de uma sociedade majoritariamente muçulmana.

É justamente essa mistura que torna o TAHLILAN tão perturbador.


No Ocidente, o black metal muitas vezes nasceu da oposição direta ao cristianismo. Na Indonésia, uma banda como o TAHLILAN opera em outro território simbólico. A tensão não vem apenas da blasfêmia contra uma religião dominante, mas do atrito entre satanismo, tradição islâmica, folclore, medo popular, ritos de morte e música extrema. Isso torna a banda muito mais intrigante do que boa parte dos grupos que apenas repetem fórmulas escandinavas com tremolo picking (técnica de tocar notas muito rapidamente, bastante comum no black metal), foto na floresta, logo ilegível e pose de maldade congelada.

O mais impressionante é que a banda não se contenta com a estética básica do metal extremo. Eles levam para o palco incenso, objetos fúnebres e elementos que remetem diretamente ao universo dos ritos mortuários. Há relatos de uso de mortalha envelhecida, de pedra tumular real e de uma encenação que aproxima o show de uma cerimônia macabra. Isso não é simplesmente “visual pesado”. Isso é dramaturgia de horror local aplicada ao black metal. É como se o TAHLILAN tivesse entendido que o verdadeiro medo não está no símbolo genérico do demônio desenhado numa capa, mas naquilo que o público reconhece como parte de sua própria cultura.

Musicalmente, o grupo trabalha dentro do black metal místico e teatral, com uma atmosfera soturna, arrastada e carregada de espiritualidade sombria. O disco/EP Perjalanan Menuju Tuhan (“Jornada rumo a Deus”, em tradução livre) já entrega no título um paradoxo poderoso. Não é um nome satanista óbvio. Não é provocação barata do tipo “morte a tudo”. É uma frase religiosa, quase devocional, colocada dentro de uma embalagem extrema. As faixas, com títulos como “Dosa Bertahta Dalam Jiwaku” (“O pecado entronizado em minha alma”, em tradução aproximada), “Ritual Penghantar Doa” (“Ritual de condução da oração”), “Menembus Dinding Kematian” (“Atravessando a parede da morte”) e “Kusambut Kematianmu” (“Eu recebo a sua morte”), reforçam essa obsessão por pecado, oração, morte, passagem e transcendência.

E talvez esteja aí o grande diferencial do TAHLILAN : eles não parecem interessados apenas em negar a religião de modo adolescente, nem em fazer satanismo de cartilha escandinava. O que a banda faz é mais estranho e, justamente por isso, mais perturbador. Eles pegam símbolos associados à morte, à oração, ao luto e à tradição, e os atravessam com uma estética satânica, teatral e extrema.

TAHLILAN tem algo que muita banda de black metal perdeu: perigo cênico.

Não necessariamente perigo real, mas aquela sensação de que o palco pode sair do controle, de que o show não é só entretenimento, de que existe alguma coisa errada acontecendo ali. O vocalista vestido como pocong não é apenas um personagem. É uma imagem de morte reconhecível para o público local. O incenso não é apenas fumaça para criar clima. A pedra tumular não é apenas cenário. O grito de “Sataaan” não é apenas bordão. Tudo aquilo constrói um ambiente em que o metal extremo se mistura a funeral, transe, superstição, provocação religiosa e teatro ritualístico.

É o tipo de banda que mostra como o black metal fica muito mais interessante quando para de tentar imitar a Noruega e começa a dialogar com seus próprios fantasmas.

E os fantasmas da Indonésia, pelo visto, são bem mais assustadores.

No fim das contas, o TAHLILAN não chama atenção apenas por ser uma banda de black metal em um país muçulmano. Isso, por si só, já renderia curiosidade. Mas o que faz a banda ser realmente fascinante é o modo como ela transforma esse contexto em linguagem. Eles não pegam o black metal europeu e apenas colam por cima uma maquiagem local. Eles fazem o contrário: pegam o medo local, o rito local, o imaginário funerário local, o satanismo e a tensão religiosa, e jogam tudo dentro do black metal.

O resultado é uma banda que parece saída de um velório profanado, de uma reza interrompida, de uma noite em que a fronteira entre os vivos e os mortos ficou fina demais.

Enquanto muita gente ainda está presa ao velho manual do black metal escandinavo, o TAHLILAN aparece como um lembrete brutal: o extremo não tem passaporte, não fala apenas norueguês e não precisa de neve para ser sombrio. Às vezes, basta uma mortalha, um microfone, um grito de “Sataaan” e um palco tomado por incenso.

09 junho 2026

O dia em que ANDRE MATOS disse que “o ANGRA deveria acabar”

Por Júlio Feriato
Fotos: Irisbel Mello

Algumas entrevistas ficam marcadas por uma frase. Outras, pelo contexto em que aquela frase surgiu. A conversa com Andre Matos no Heavy Nation, em março de 2013, acabou ficando nas duas categorias.

Naquele dia, eu estava ao lado de Fernanda Lira — hoje conhecida mundialmente por seu trabalho na CRYPTA — e de Mauricio Dehò, que na época também era repórter do UOL Esportes. A pauta era, em princípio, bastante natural para uma entrevista com um artista do tamanho de Andre: carreira solo, turnê, lembranças do VIPER, a importância do ANGRA, a trajetória no SHAMAN e os caminhos que ele ainda pretendia seguir.

Mas havia uma pergunta que eu queria fazer por curiosidade minha mesmo. Não era uma pergunta pensada para causar polêmica, nem para arrancar manchete. Eu sempre fui mais fã da fase do ANGRA com Andre Matos. Para mim, aquela formação tinha algo muito especial, uma combinação rara de técnica, identidade e emoção. Então, quando o assunto chegou à saída de Edu Falaschi e à possibilidade de um novo vocalista para a banda, quis saber quem Andre imaginava que poderia estar à altura de ocupar aquele posto.

A pergunta era simples: quem, na visão dele, teria condições de cantar no ANGRA?

A resposta foi completamente inesperada.

Andre não citou nomes, não fez média e não entrou naquele jogo diplomático de apontar possíveis substitutos. Com a calma e a firmeza que eram muito características dele, disse que, para ele, "o ANGRA deveria acabar".

Na hora, a surpresa foi geral. Não me lembro de um clima pesado, no sentido de constrangimento ou agressividade. Andre não falou aquilo de forma explosiva. Pelo contrário: respondeu de maneira articulada, como alguém que já tinha uma opinião muito bem formada sobre o assunto. Mas era impossível não perceber o peso da declaração.

Lembro claramente de eu e Mauricio Dehò nos entreolharmos. Foi uma troca rápida, quase instintiva, daquelas que dispensam explicação. Tenho certeza de que nós dois pensamos a mesma coisa naquele momento: “essa será a chamada do programa”.

E foi mesmo.


A questão é que aquele tipo de chamada também vinha de um contexto de pressão. O Heavy Nation era um programa de metal dentro de uma estrutura grande como a Rádio UOL, e havia uma cobrança constante por audiência. A diretoria queria que o programa sempre trouxesse alguma pauta chamativa, algo que gerasse acesso, repercussão, comentário. Pessoalmente, essa pressão me incomodava bastante.

Eu tinha noção de que o Heavy Nation, naquele período, era um dos programas de metal mais acessados do país — talvez o mais acessado dentro daquele formato. Mas, para o UOL, isso ainda parecia pouco. A comparação vinha com programas de gêneros muito mais populares, como sertanejo e música romântica. E aí não havia como competir. O público do metal é fiel, intenso, participativo, mas é um nicho. Comparar esse alcance com gêneros de massa era, no mínimo, injusto.

Por isso, aquela resposta de Andre Matos colocou a entrevista em um lugar curioso. Ao mesmo tempo em que a pergunta não tinha sido feita para provocar polêmica, a resposta entregou exatamente o tipo de repercussão que a direção esperava do programa. Era o dilema do jornalismo musical naquele ambiente: a gente queria fazer um programa sério, com conteúdo, memória e respeito pela cena, mas também precisava lidar com a lógica de audiência de uma grande plataforma.

E Andre, claro, era Andre.

Ele não era um entrevistado qualquer. Tinha elegância, cultura, vocabulário, senso crítico e uma postura muito própria diante da própria história. Podia ser cordial, mas não era evasivo. Quando queria dizer algo, dizia. E, naquele dia, disse algo que pegou todos de surpresa.

O mais importante, olhando em retrospecto, é entender que aquela declaração não soou como uma provocação gratuita. Andre falava a partir de uma relação profunda e complexa com o ANGRA. Ele não era um comentarista externo opinando sobre uma banda qualquer. Era um dos nomes centrais da construção daquela história. Alguém que ajudou a dar identidade, voz e grandeza a um dos capítulos mais importantes do metal brasileiro.

Por isso, quando ele dizia que a banda deveria acabar, havia ali uma mistura de análise, desencanto e talvez até uma visão muito particular sobre encerramento de ciclos. Para muitos fãs, o ANGRA ainda precisava continuar. Para Andre, naquele momento, a continuidade parecia ter perdido o sentido artístico.

A entrevista seguiu por outros caminhos, mas era evidente que aquela frase ficaria. E ficou. Foi recortada, comentada, debatida e lembrada por anos. Muita gente concordou, muita gente discordou, e muita gente talvez nem tenha entendido o contexto em que tudo aconteceu.

Mas eu me lembro bem: não foi uma pergunta feita para criar confusão. Foi uma curiosidade honesta de alguém que admirava profundamente aquela fase do ANGRA e queria saber quem o próprio Andre Matos via como alguém capaz de ocupar um lugar tão simbólico.

A resposta, no entanto, foi muito maior do que a pergunta.

Fernanda Lira, Andre Matos, Júlio Feriato e Mauricio Dehò.
E talvez seja por isso que aquela entrevista continue sendo lembrada. Porque, em poucos segundos, ela revelou não apenas uma opinião forte sobre o futuro de uma banda, mas também algo muito característico de Andre Matos: a recusa em responder apenas o que esperavam dele.

Andre podia ser elegante, educado e articulado. Mas, quando queria ser direto, era direto.

Naquela entrevista, ele foi.

Obs: Existe ainda um detalhe curioso sobre essa entrevista: além do áudio do programa, há no YouTube um registro em vídeo daquele encontro, filmado por Anderson Bellini, que anos depois, se tornaria o diretor do documentário Andre Matos – Maestro do Rock, dedicado à trajetória do cantor. 

Visto em retrospecto, esse detalhe dá ao vídeo um peso ainda maior: não era apenas a gravação de uma conversa marcante, mas um fragmento de memória capturado por alguém que, mais tarde, ajudaria a organizar parte do legado audiovisual de Andre Matos.

06 junho 2026

HEADHUNTER DC: O inferno não chega. Ele já chegou. E vem da Bahia.

Por Krampus


Existe algo profundamente admirável em bandas que se recusam a morrer. Não apenas sobreviver, mas permanecer fiéis a si mesmas enquanto o mundo muda ao redor. Modismos vêm e vão. Tendências surgem e desaparecem. Plataformas digitais transformam música em algoritmo. Gravadoras enterram carreiras. A indústria exige juventude eterna e obediência comercial.

Algumas bandas simplesmente continuam marchando. O HEADHUNTER D.C. é uma delas.

Headhunter D.C. nos primórdios.

Formado em Salvador, em maio de 1987, quando o Brasil ainda saía lentamente da ditadura militar e o metal extremo nacional engatinhava fora dos grandes centros do Sudeste, o grupo ajudou a construir uma identidade própria para o Death Metal brasileiro. Não como seguidor, mas como pioneiro.

Desde os tempos de Paulo Lisboa, passando pelos clássicos lançados pela lendária Cogumelo Records — Born... Suffer... Die (1991) e Punishment at Dawn (1993) — até os trabalhos posteriores, a banda atravessou mudanças de formação, dificuldades financeiras, escassez de infraestrutura, hiatos discográficos e todos os obstáculos possíveis que costumam esmagar grupos underground muito antes de completarem dez anos de existência.

O HEADHUNTER D.C. atravessou tudo isso durante quase quatro décadas.

E talvez seja justamente por isso que Rise of the Damned... soe tão autêntico. Porque não há nada aqui tentando agradar algoritmos. Não há refrões para TikTok. Não há produção esterilizada. Não há pose.

Há apenas Death Metal. Death Metal em sua forma mais pura, mais fanática e mais apaixonada.

O próprio título já entrega a intenção. Lançado em 06/06/2026, carregando um simbólico 6/6/(2)6, o álbum funciona como uma declaração de guerra contra a mediocridade moderna. É uma celebração da persistência do underground e também um manifesto de fé absoluta na música extrema.

Formação do novo disco: hèracles Cardoso (baixo), Sérgio "Baloff" (vocal) e Danilo Coimbra. 

E essa devoção aparece logo na abertura. “40 Years’ Deathmarch” não é apenas uma introdução. É um monumento. Uma saudação aos quarenta anos de luta do Death Metal mundial. Dali em diante, o disco dispara uma sequência de ataques que jamais perde o foco.

“Unblessed by the Unsacred” e “No Salvation from Above” deixam claro que a banda continua adorando o altar erguido por POSSESSED, SLAYER, KREATOR, SEPULTURA e DEATH dos primeiros tempos. Há uma agressividade thrash pulsando por baixo das estruturas, mas o coração é absolutamente death metal.

“Burn the Book of Lies” é particularmente interessante porque sintetiza um dos temas centrais do álbum: a recusa em aceitar verdades impostas de cima para baixo. Não importa se a autoridade veste batina, terno executivo ou uniforme militar. O disco inteiro respira desconfiança diante de instituições que prometem salvação enquanto administram sofrimento.


É impossível não perceber a atualidade dessa mensagem. Ao longo da história, os trabalhadores sempre foram convidados a acreditar que sua redenção viria do céu, do mercado ou dos governantes. Enquanto isso, a riqueza produzida coletivamente continuou sendo apropriada por poucos. O Death Metal sempre foi, consciente ou inconscientemente, uma arte de denúncia contra estruturas decadentes. E o HEADHUNTER D.C. entende isso como poucos.

“Gospel of Doom” e “The Dysangelist” aprofundam essa atmosfera de blasfêmia e questionamento. O próprio termo dysangelist funciona como uma inversão do evangelista tradicional: não aquele que promete paraísos futuros, mas aquele que revela a podridão escondida sob as promessas.

Musicalmente, é onde o IMMOLATION talvez apareça com mais força. As harmonias dissonantes, os riffs retorcidos e a sensação constante de instabilidade lembram os mestres nova-iorquinos, mas sem jamais soar como mera cópia.


A essa altura, Danilo Coimbra já se impõe como um dos grandes responsáveis pela identidade moderna da banda. Seu trabalho de guitarra é impressionante porque combina brutalidade e inteligência. Os riffs não servem apenas para esmagar. Eles contam histórias. Criam tensão. Conduzem o ouvinte por cenários apocalípticos que parecem pinturas sonoras da própria capa do álbum.

E então chegamos a “One Thousand Apocalypses”, primeiro single do álbum. A faixa representa perfeitamente o que o HEADHUNTER D.C. faz melhor: transformar caos em arte. É uma avalanche de riffs, mudanças de andamento e violência controlada que poderia facilmente ter figurado em algum clássico da primeira metade dos anos 90.

Depois do instrumental litúrgico “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum”, surge a faixa-título.

Arte para o single "One Thousand Apocalypses".

“Rise of the Damned” é o coração do disco não apenas pela força musical, mas pela simbologia. Os condenados do título não são necessariamente os demônios da tradição religiosa. São todos aqueles que a sociedade descarta. Os que nunca receberam privilégios. Os marginalizados. Os excluídos. Os esquecidos.

E é justamente deles que surge a revolta, a resistência e o verdadeiro movimento da história.

O álbum fecha com duas declarações definitivas. “Possessed, Obsessed” é uma celebração da obsessão que mantém o underground vivo. Já “In Death Metal We Trust” dispensa explicações.

Não é apenas uma música. É um lema. Uma profissão de fé sulfúrica. Uma bandeira de ódio.

E quem melhor para carregar essa bandeira do que Sérgio Baloff? Poucos vocalistas representam tão bem a palavra “dedicação”. Integrante do HEADHUNTER D.C. desde 1989, Baloff tornou-se a própria voz da banda. Ao longo de décadas enfrentando todas as dificuldades imagináveis do underground brasileiro, permaneceu firme defendendo uma visão absolutamente intransigente do Death Metal. Seu nome tornou-se sinônimo de resistência. Sua voz continua soando como a de um profeta furioso anunciando o fim dos tempos para uma civilização decadente.

O mais impressionante é que, após quase quarenta anos, o HEADHUNTER D.C. não soa nostálgico. Este novo opus soa necessário.

Rise of the Damned... não tenta reviver o passado. Ele demonstra que o passado ainda está vivo. Num mundo onde tudo se torna produto descartável, o HEADHUNTER D.C. continua defendendo valores cada vez mais raros: convicção, autenticidade, perseverança e lealdade ao underground.

Este não é apenas um novo álbum, mas a prova de que algumas chamas jamais se apagam.

Enquanto houver exploração, desigualdade, hipocrisia religiosa, alienação e violência institucionalizada, o Death Metal continuará tendo algo a dizer.

E enquanto houver Death Metal verdadeiro, haverá HEADHUNTER D.C.

Nota: 9,5/10

04 junho 2026

Vini Castellari: peso, verdade e representatividade no metal brasileiro

 Por Júlio Feriato


Ser gay no metal nunca foi exatamente algo simples. Agora imagine ser gay em uma cena que, durante décadas, vendeu uma ideia quase caricata de masculinidade: cara fechada, barba, cabelo comprido, riffs pesados, discurso agressivo e, muitas vezes, um conservadorismo disfarçado de “tradição”. É nesse ambiente que Vini Castellari, guitarrista, compositor e um dos fundadores do PROJECT46, construiu uma trajetória que vai além dos palcos, dos festivais e dos discos.

E não, a importância de Vini não está apenas no fato de ele ser um músico gay dentro do metal brasileiro. Reduzir sua história a isso seria cometer o mesmo erro de quem olha para artistas LGBTQIA+ como se a identidade viesse antes da obra. Vini é, antes de tudo, um guitarrista de uma das bandas mais relevantes do metal moderno nacional. O PROJECT46 não nasceu para fazer música confortável. Desde o começo, a banda apostou em peso, discurso direto e letras que encaram o Brasil sem maquiagem.

Imagem: matéria no G1.

Mas existe um ponto em que arte e vida se encontram. E, no caso de Vini, esse encontro ganhou força quando sua sexualidade deixou de ser apenas um assunto íntimo e passou a ter peso público dentro de uma cena que ainda trata esse tipo de tema como tabu. Em 2015, pouco antes da apresentação do PROJECT46 no ROCK IN RIO, uma entrevista ao G1 deu visibilidade ao fato de Vini ser um homem gay no metal brasileiro. O que poderia ter sido transformado em escândalo por parte do público mais conservador acabou revelando outra coisa: muita gente precisava ouvir aquilo.

A fala de Vini foi importante justamente por quebrar uma imagem pronta. Ele não se encaixava no estereótipo limitado que muitos ainda associam a homens gays. Era cabeludo, barbudo, metaleiro, guitarrista de uma banda pesada. Em outras palavras: era tudo aquilo que parte da cena costuma aceitar como “masculino” — até descobrir que aquele homem também era gay. E talvez aí esteja uma das grandes provocações de sua presença: Vini expôs, sem precisar levantar bandeira no palco a cada show, o quanto o preconceito dentro do metal também nasce de uma visão estreita sobre o que um homem pode ou não ser.

A reação, segundo ele próprio já contou, foi muito mais acolhedora do que a insegurança fazia imaginar. Os fãs mandaram mensagens de apoio, pessoas se identificaram com sua história e os companheiros de banda estiveram ao seu lado. Isso não significa que a cena seja livre de homofobia. Longe disso. Significa apenas que, quando alguém decide existir publicamente sem pedir desculpas, abre uma fresta por onde muita gente também começa a respirar.

O caso de Vini é simbólico porque não vem embalado numa estética pop de aceitação fácil. Estamos falando de metal brasileiro, de guitarra pesada, de rodas de mosh, de público muitas vezes resistente a qualquer conversa que envolva sexualidade, gênero ou diversidade. Por isso sua presença tem força. Ele não precisou abandonar o metal para ser quem é. Não precisou suavizar sua imagem. Não precisou pedir licença. Apenas continuou sendo guitarrista, compositor, metaleiro — e gay.

Banda Project 46.

Com o tempo, sua fala também amadureceu. Vini passou a tratar o tema com mais amplitude, reconhecendo que sua experiência, como a de um homem gay com aparência considerada “heteronormativa”, não é a mesma de pessoas trans, travestis, lésbicas ou gays afeminados, que costumam sofrer violências muito mais diretas. Essa percepção é importante porque tira o debate do campo do ego e coloca a conversa num lugar mais honesto: representatividade não é só falar de si, mas entender que existem outras vivências dentro da própria comunidade.

E a trajetória de Vini ainda ganhou outra camada quando ele passou a falar abertamente sobre saúde mental, dependência química e recuperação. Num gênero que, por muito tempo, romantizou autodestruição como se fosse parte obrigatória da vida de músico, ouvir um artista do metal falar sobre fragilidade, tratamento e reconstrução tem um peso enorme. Vini não surgiu tentando vender uma imagem de herói invencível. Pelo contrário: ao expor suas quedas e seu processo de recuperação, mostrou uma coragem que a pose de “durão” jamais alcança.

Isso também é metal. Talvez mais metal do que muita encenação vazia por aí.

Porque existe peso em assumir quem se é. Existe peso em falar de dependência sem glamour. Existe peso em admitir medo, dor, recaídas, recomeços e aprendizado. Existe peso em usar a própria voz para que outras pessoas entendam que não estão sozinhas. E, nesse sentido, Vini Castellari ampliou o papel que um músico pode ocupar dentro da cena.

O PROJECT46 segue sendo uma banda de riffs, pancada e discurso social. Mas, ao lado disso, Vini se tornou uma figura importante para uma geração que cresceu ouvindo metal e, muitas vezes, não se via representada nele. Sua existência pública ajuda a desmontar a ideia de que música pesada pertence apenas a homens heterossexuais, conservadores e presos a uma masculinidade engessada.

No fim, sua história não é sobre “um guitarrista gay”. É sobre um músico que não aceitou diminuir partes de si para caber numa cena que ainda precisa aprender muito. É sobre alguém que transformou exposição em acolhimento, vulnerabilidade em força e vivência pessoal em ponte para outras pessoas.

Vini Castellari não precisou deixar de ser metaleiro para ser gay. Não precisou deixar de ser gay para ser respeitado como músico. E é justamente aí que sua presença importa: porque, quando a música fala alto e a vida fala junto, o preconceito perde volume.

28 maio 2026

Quando o BRUJERIA usou a música como arma contra o machismo

Por Júlio Feriato


O BRUJERIA sempre construiu sua identidade em cima da provocação e da brutalidade. Suas letras, personagens e imagens caminham por um território sujo, violento e teatral, onde nada parece feito para soar comportado. Dentro desse universo, “Bruja Encabronada”, lançada como um dos singles do álbum Esto Es Brujeria (2023), chama atenção justamente por usar essa agressividade para transmitir uma mensagem muito clara: a revolta feminina contra abusadores, machistas e todas as estruturas que tentam silenciar mulheres.

A canção também ganha peso extra porque dialoga com a persona de “La Bruja Encabronada”, associada a Jessica Pimentel, atriz e musicista estadunidense de ascendência dominicana (conhecida por interpretar Maria Ruiz no famoso seriado da Netflix Orange Is the New Black), que passou a integrar o universo do BRUJERIA em 2017. 

Jessica Pimentel nos tempos da banda Desolate.

A “bruxa” da música não é apenas uma figura de terror ou ocultismo. Ela representa a mulher que cansou de ser chamada de louca, exagerada, histérica ou perigosa por não aceitar submissão. A palavra “encabronada”, em tradução livre, sugere alguém tomada por uma raiva profunda, e reforça justamente essa ideia: trata-se de uma fúria com motivo. Não é revolta gratuita. É reação.

A música fala de violência, abuso, medo, impunidade e resistência. O BRUJERIA pega uma linguagem típica do metal extremo — agressiva, direta e suja — e a coloca a serviço de uma denúncia social. A brutalidade, aqui, não está contra a mulher. Pelo contrário: ela vem da mulher. É a voz da vítima que se recusa a continuar calada.

E é aí que a faixa se torna especialmente interessante dentro da cena metal. O gênero sempre se orgulhou de ser rebelde, contestador e antissistema. Mas, ao mesmo tempo, parte de seu público ainda reproduz um machismo velho, cansado e contraditório. Muitos metaleiros aceitam tranquilamente letras sobre morte, guerra, demônios, mutilação e destruição, mas se incomodam quando uma música aponta o dedo para o abuso contra mulheres.

Essa contradição não é exclusividade da cena latina. Ela existe no metal mundial. Ainda há quem trate mulheres como intrusas no rolê, duvide do conhecimento delas sobre bandas, minimize denúncias de assédio ou ache que qualquer crítica ao machismo é “mimimi”. É curioso: o cara se diz contra a censura, contra a religião, contra o sistema e contra a caretice, mas se desespera quando uma mulher usa a mesma raiva do metal para denunciar violência.


“Bruja Encabronada” incomoda porque vira esse jogo. A mulher não aparece como objeto, vítima passiva ou fantasia masculina. Ela aparece como ameaça. Como força. Como alguém que devolve o medo a quem sempre o produziu. A figura da bruxa, historicamente usada para perseguir mulheres independentes, aqui se transforma em símbolo de resistência.

No fim, a música funciona como um recado direto para a própria cena: o metal não pode se dizer livre, rebelde e extremo se continuar protegendo comportamentos machistas. Ser pesado não é apenas falar de sangue, morte e caos. Às vezes, ser pesado é encarar verdades incômodas dentro do próprio público.

“Bruja Encabronada” é isso: uma música brutal, raivosa e necessária. Uma lembrança de que a fúria feminina não é exagero. Muitas vezes, é apenas justiça gritando mais alto que a distorção das guitarras.


26 maio 2026

“SCREAM BLOODY GORE”: QUANDO O DEATH METAL ESCAPOU DA SEPULTURA

Por Krampus

Death em 1987: Chuck Schuldiner ( R.I.P ), Chris Reifert e John Hand

Quase quatro décadas depois, Scream Bloody Gore ainda soa perigoso.

Não nostálgico. Não inocente. Não preservado atrás de um vidro, como uma relíquia intocável da adolescência do metal extremo. Perigoso.

Talvez essa seja a maior conquista de Chuck Schuldiner e da formação original do DEATH: eles criaram um disco tão fundamental que gerações inteiras absorveram sua linguagem, mas que ainda mantém o cheiro de salas de ensaio úmidas, fitas cassete duplicadas, amplificadores baratos, VHS de horror e obsessão juvenil em estado puro.


Lançado em 1987 pela Combat Records, Scream Bloody Gore não apenas levou o thrash metal a um nível mais extremo. Ele cruzou uma linha. O álbum estabeleceu um novo território emocional e sonoro, no qual a brutalidade deixou de ser mero adorno estético para se tornar a própria linguagem central.

É claro que o metal extremo não surgiu isoladamente. As bases já haviam sido lançadas por bandas como SLAYER, POSSESSED, HELLHAMMER e CELTIC FROST. No Brasil, um ainda jovem SEPULTURA já transformava escassez em fúria em discos como Bestial Devastation e Morbid Visions.

Aquelas gravações brasileiras primitivas viajaram pela rede subterrânea de troca de fitas e chegaram até Chuck Schuldiner, na Flórida, tornando-se uma das faíscas que o convenceram de que ele não estava sozinho em sua visão.

Chris Refeirt e Chuck usando uma camiseta muito antiga do Sepultura, provavelmente feita por Igor "Skullcrusher". 

E esse detalhe importa.

Porque o metal extremo jamais foi realmente construído pelos centros ricos da indústria musical. Ele nasceu em subúrbios, cidades negligenciadas, bairros operários e regiões periféricas, onde jovens criavam cultura com os recursos que conseguiam reunir. Tampa, Belo Horizonte, Essen, Coventry, Estocolmo — realidades diferentes conectadas pela mesma fome de criar algo mais brutal, mais livre e mais honesto do que a máquina polida de entretenimento ao redor deles.

De muitas formas, Scream Bloody Gore soa como o underground internacional descobrindo sua própria consciência coletiva.

Chuck Schuldiner não estava interessado em acessibilidade. Nem em perfeição técnica pela perfeição em si. O que importava era expressão. Impulso. Atmosfera. Convicção. Dá para ouvir isso imediatamente em faixas como “Infernal Death”, “Zombie Ritual”, “Denial of Life”, “Mutilation”, “Baptized in Blood” e na própria faixa-título.

Chris Refeirt e Chuck Schuldiner ensaiando antigamente.

Os riffs rastejam e golpeiam ao mesmo tempo. A bateria soa violenta em vez de clínica. Os vocais parecem menos uma performance e mais uma decomposição tomando forma humana. Ainda assim, por baixo de toda a imagética de horror e da distorção em motosserra, existe uma compreensão surpreendentemente sofisticada de composição musical.

Essa é uma das qualidades mais incompreendidas do álbum.

Tão importante quanto Chuck para o legado duradouro do disco foi a presença de Chris Reifert atrás da bateria. Sua performance selvagem, primitiva e inconfundivelmente humana deu a Scream Bloody Gore grande parte de seu pulso caótico. Reifert carregaria esse mesmo espírito posteriormente para o AUTOPSY, outra pedra fundamental do underground formativo do death metal, onde feiura, atmosfera e instinto bruto sempre importaram muito mais do que vaidade técnica ou refinamento comercial.

Chuck Schuldiner em algum show nos anos 80.

Apesar de toda a sua sujeira, Scream Bloody Gore permanece profundamente enraizado na construção clássica do heavy metal. Existem refrões memoráveis por toda parte. Grooves rítmicos. Instintos melódicos claros. O DNA do IRON MAIDEN e do thrash metal inicial ainda corre por suas veias — apenas arrastado para uma dimensão mais sombria e doentia.

É exatamente por isso que o álbum sobreviveu enquanto incontáveis imitadores desapareceram. Nunca foi brutalidade pelo espetáculo em si. Era brutalidade com identidade.

E talvez isso explique por que o disco ainda ressoa tão fortemente numa era em que até a rebeldia frequentemente é empacotada, monetizada e transformada em conteúdo inofensivo.

Scream Bloody Gore veio de um período em que a música underground ainda dependia de comunidades físicas, trocas de fitas, cartas manuscritas, fanzines e entusiasmo coletivo genuíno. Pertencia a pessoas que construíam sua própria infraestrutura cultural paralela, fora da aprovação das instituições dominantes.

Existe algo profundamente humano nisso. Especialmente hoje.

As imperfeições da produção apenas fortalecem seu poder. Nada aqui parece esterilizado. Nada soa desenhado algoritmicamente para consumo máximo. O disco respira. Sua. Parece vivo da maneira como apenas a arte genuinamente subterrânea consegue soar.

E é por isso que o álbum permanece muito maior do que “o primeiro disco de death metal” — debate que continuará para sempre entre historiadores do metal, aliás.

Seu verdadeiro significado está em outro lugar.

Scream Bloody Gore provou que a música extrema podia se tornar uma linguagem artística autônoma, com estética, atmosfera, lógica emocional e identidade cultural próprias. Mostrou que o underground não precisava mais pedir permissão a ninguém.

Quase quarenta anos depois, incontáveis subgêneros, cenas e bandas ainda existem à sombra dessa revelação.

Não porque Chuck Schuldiner seguiu tendências. Mas porque ele ajudou a criar uma realidade inteiramente nova.

25 maio 2026

HAVUKRUUNU: a cria selvagem que BATHORY e MOONSORROW teriam se tivessem um filho

Por Krampus

Havukruunu em 2017: Stefan (vocal/guitarra/baixo/teclado) e Noitavalo (bateria).
Então, quando foi a última vez que você ficou tão empolgado com uma banda a ponto de querer contar para qualquer pessoa, só para depois se dar conta de que ela não entenderia essa coisa de “metal” de que você estava falando e sentir vontade de esmagar o crânio dela com o martelo de Thor? Não foi ultimamente? Bem, então venha cá e leia isto.

A banda finlandesa Havukruunu, relativamente jovem, foi formada por volta de 2013. Com alguns álbuns incríveis, demos excepcionais e muito noise pagão estridente no currículo, lançou, em 2017, seu segundo álbum oficial, “Kelle Surut Soi”. Até agora, este é o seu melhor trabalho. E, provavelmente, o melhor álbum daquele ano — pelo menos para mim, e talvez para qualquer outra pessoa.


O som do Havukruunu lembra o que aconteceria se Quorthon, na época de “Blood Fire Death”, e o Moonsorrow, na era de “Verisakeet”, unissem forças e, no processo, decidissem adicionar blast beats intermináveis e bumbo duplo sempre que possível. O resultado traz gritos de guerra vikings, cantos ancestrais, coros, espíritos e até alguns vocais limpos — presumivelmente, quando o vocalista fica realmente furioso.

Isso é só o vocal. Depois vem a bateria: estelar, estrondosa e variada, inquieta e implacável. Faz tempo que eu não ouvia um baterista que gostasse tanto de tocar bateria... bem, desde o álbum anterior do Havukruunu. Se prestar atenção, pode até notar que ele acentua os riffs de guitarra ao bater em diferentes partes do prato de condução durante um blast beat.


Riffs? Sim, há muitos deles. Lembra-se do primeiro motivo que levou você a curtir esse negócio de metal? O Havukruunu tem todos eles e muito mais. Há riffs distantes, poéticos, triunfantes, orgânicos e honestos. Também há riffs galopantes, flamejantes e brutais. São riffs de verdade, do jeito que deveriam ser compostos. Alguns vão voltar à sua cabeça no dia seguinte; outros vão causar impacto imediato.

Alguns serão um mistério por algum tempo, como o riff explosivo no início de “Vainajain Valot”, que só se torna claro no final da música, porque, no começo, fica quase abafado pelo blast beat. Outros vão dar a você vontade de erguer as mãos e gritar, como a passagem para bater cabeça depois do solo de guitarra limpa em “Myrskynkutsuja”.


Algumas melodias são triunfantes; outras, pungentes; algumas só se tornam óbvias se você prestar atenção. E os solos, às vezes, aparecem até onde uma banda comum seria preguiçosa. Mas o Havukruunu não faz nada de “normal” — nem de “preguiçoso”, aliás. Há sempre algo acontecendo, seja uma linha de baixo inspirada surgindo quando você menos espera, seja um som inserido apenas para dar mais seriedade às coisas.

No começo, chega a ser assustador, porque você começa a gostar demais do Havukruunu e torce para que a banda não cometa um erro comum, como colocar uma parte chata depois de uma boa parte. Mas, faixa após faixa, minuto após minuto, as suspeitas desaparecem e, quando o álbum termina, todas as dúvidas também se dissipam, porque essa banda também não faz nada de “chato”. Você pode ouvir o álbum novamente sem se preocupar. Anos após o lançamento oficial, ainda ouço “Kelle Surut Soi” sempre que tenho uma hora livre.

Formação atual do Havukruunu.
“E o som?”, alguém pode perguntar. Ele é impactante e envolvente, mas um pouco frio e distante. É possível ouvir tudo, e isso já é uma conquista por si só. Portanto, é perfeito para o que se propõe. Se você ouvir alguém tocando “Kelle Surut Soi” em outro cômodo, provavelmente sentirá inveja.

Kelle Surut Soi” é épico, mas não no sentido das histórias de reluzentes matadores de dragões; ao contrário dos cavaleiros brilhantes de outrora, ele é marcado pelo tempo, veste peles emaranhadas e quase certamente já arrancou a garganta de outro homem com uma mordida. 


Embora se possam fazer críticas à homogeneidade — como ocorreu com seu antecessor, “Havulinnaan” (2015) —, este álbum é, acima de tudo, monstruosamente divertido, conseguindo, inclusive, eliminar minha noção de tempo. Se você decidir se presentear, apagando as luzes e ouvindo o álbum com fones de ouvido, não haverá mais nada ao redor, e você não conseguirá pensar em nada além da música. Sim, é tão bom assim. Compre.