Por Krampus
Algumas bandas simplesmente continuam marchando. O HEADHUNTER D.C. é uma delas.
| Headhunter D.C. nos primórdios. |
Formado em Salvador, em maio de 1987, quando o Brasil ainda saía lentamente da ditadura militar e o metal extremo nacional engatinhava fora dos grandes centros do Sudeste, o grupo ajudou a construir uma identidade própria para o Death Metal brasileiro. Não como seguidor, mas como pioneiro.
Desde os tempos de Paulo Lisboa, passando pelos clássicos lançados pela lendária Cogumelo Records — Born... Suffer... Die (1991) e Punishment at Dawn (1993) — até os trabalhos posteriores, a banda atravessou mudanças de formação, dificuldades financeiras, escassez de infraestrutura, hiatos discográficos e todos os obstáculos possíveis que costumam esmagar grupos underground muito antes de completarem dez anos de existência.
O HEADHUNTER D.C. atravessou tudo isso durante quase quatro décadas.
E talvez seja justamente por isso que Rise of the Damned... soe tão autêntico. Porque não há nada aqui tentando agradar algoritmos. Não há refrões para TikTok. Não há produção esterilizada. Não há pose.
Há apenas Death Metal. Death Metal em sua forma mais pura, mais fanática e mais apaixonada.
O próprio título já entrega a intenção. Lançado em 06/06/2026, carregando um simbólico 6/6/(2)6, o álbum funciona como uma declaração de guerra contra a mediocridade moderna. É uma celebração da persistência do underground e também um manifesto de fé absoluta na música extrema.
| Formação do novo disco: hèracles Cardoso (baixo), Sérgio "Baloff" (vocal) e Danilo Coimbra. |
E essa devoção aparece logo na abertura. “40 Years’ Deathmarch” não é apenas uma introdução. É um monumento. Uma saudação aos quarenta anos de luta do Death Metal mundial. Dali em diante, o disco dispara uma sequência de ataques que jamais perde o foco.
“Unblessed by the Unsacred” e “No Salvation from Above” deixam claro que a banda continua adorando o altar erguido por POSSESSED, SLAYER, KREATOR, SEPULTURA e DEATH dos primeiros tempos. Há uma agressividade thrash pulsando por baixo das estruturas, mas o coração é absolutamente death metal.
“Burn the Book of Lies” é particularmente interessante porque sintetiza um dos temas centrais do álbum: a recusa em aceitar verdades impostas de cima para baixo. Não importa se a autoridade veste batina, terno executivo ou uniforme militar. O disco inteiro respira desconfiança diante de instituições que prometem salvação enquanto administram sofrimento.
“Gospel of Doom” e “The Dysangelist” aprofundam essa atmosfera de blasfêmia e questionamento. O próprio termo dysangelist funciona como uma inversão do evangelista tradicional: não aquele que promete paraísos futuros, mas aquele que revela a podridão escondida sob as promessas.
Musicalmente, é onde o IMMOLATION talvez apareça com mais força. As harmonias dissonantes, os riffs retorcidos e a sensação constante de instabilidade lembram os mestres nova-iorquinos, mas sem jamais soar como mera cópia.
E então chegamos a “One Thousand Apocalypses”, primeiro single do álbum. A faixa representa perfeitamente o que o HEADHUNTER D.C. faz melhor: transformar caos em arte. É uma avalanche de riffs, mudanças de andamento e violência controlada que poderia facilmente ter figurado em algum clássico da primeira metade dos anos 90.
Depois do instrumental litúrgico “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum”, surge a faixa-título.
| Arte para o single "One Thousand Apocalypses". |
“Rise of the Damned” é o coração do disco não apenas pela força musical, mas pela simbologia. Os condenados do título não são necessariamente os demônios da tradição religiosa. São todos aqueles que a sociedade descarta. Os que nunca receberam privilégios. Os marginalizados. Os excluídos. Os esquecidos.
E é justamente deles que surge a revolta, a resistência e o verdadeiro movimento da história.
O álbum fecha com duas declarações definitivas. “Possessed, Obsessed” é uma celebração da obsessão que mantém o underground vivo. Já “In Death Metal We Trust” dispensa explicações.
Não é apenas uma música. É um lema. Uma profissão de fé sulfúrica. Uma bandeira de ódio.
E quem melhor para carregar essa bandeira do que Sérgio Baloff? Poucos vocalistas representam tão bem a palavra “dedicação”. Integrante do HEADHUNTER D.C. desde 1989, Baloff tornou-se a própria voz da banda. Ao longo de décadas enfrentando todas as dificuldades imagináveis do underground brasileiro, permaneceu firme defendendo uma visão absolutamente intransigente do Death Metal. Seu nome tornou-se sinônimo de resistência. Sua voz continua soando como a de um profeta furioso anunciando o fim dos tempos para uma civilização decadente.
O mais impressionante é que, após quase quarenta anos, o HEADHUNTER D.C. não soa nostálgico. Este novo opus soa necessário.
Rise of the Damned... não tenta reviver o passado. Ele demonstra que o passado ainda está vivo. Num mundo onde tudo se torna produto descartável, o HEADHUNTER D.C. continua defendendo valores cada vez mais raros: convicção, autenticidade, perseverança e lealdade ao underground.
Este não é apenas um novo álbum, mas a prova de que algumas chamas jamais se apagam.
Enquanto houver exploração, desigualdade, hipocrisia religiosa, alienação e violência institucionalizada, o Death Metal continuará tendo algo a dizer.
E enquanto houver Death Metal verdadeiro, haverá HEADHUNTER D.C.
Nota: 9,5/10




