Por Júlio Feriato
Olha, honestamente, eu ainda não consigo entender por que algumas bandas brasileiras simplesmente não conseguem furar a bolha e atingir um público maior. E não estou falando de banda ruim tentando parecer grande. Estou falando de nomes com qualidade, identidade, disco lançado, estrada e personalidade. Posso citar Shadowside, Headhunter D.C., Mindflow, Painside e tantos outros exemplos que acabaram ficando restritos demais ao underground, mesmo tendo material para chegar muito mais longe.
Mas o caso da HATEMATTER me chama atenção de um jeito especial. Até hoje, eu não lembro de ter ouvido uma banda brasileira soar exatamente como eles. E isso é mérito, sim. Mérito de composição, de conceito, de produção e, principalmente, de não soar como uma cópia barata de banda gringa.
Formada em 2007, em São Paulo, a HATEMATTER já tem quatro álbuns completos lançados: Doctrines, Foundation, Metaphor e Antithesis. Isso mesmo: quatro álbuns. E aí vem a pergunta incômoda: você já tinha ouvido falar deles antes? Alguns vão dizer que sim, claro. Mas tenho certeza de que muita gente, inclusive dentro do metal nacional, ainda responderia “não”. E isso, convenhamos, é quase um pecado mortal.
| O vocalista Luiz Artur. |
O som da banda pode ser colocado dentro de um death metal moderno, com bastante influência do melodic death metal sueco, especialmente daquela fase em que o IN FLAMES ainda tinha riffs cortantes, melodias marcantes e peso de verdade. Também dá para perceber algo de Soilwork, mas parar por aí é importante. Porque a HATEMATTER não é uma banda brasileira tentando imitar o som de Gotemburgo. Ela usa esse tipo de influência como ponto de partida, mas constrói uma identidade própria em cima disso. E parte dessa identidade passa pelos vocais de Luiz Artur, ex-THIS GRACE FOUND, dono de um timbre que se encaixou perfeitamente com a proposta do grupo.
Talvez o termo mais justo seja melodic groove/death metal. Há melodia, há peso, há técnica, há refrões e passagens bem trabalhadas, mas também existe uma pegada moderna, encorpada, com riffs que não ficam presos apenas à velocidade ou à brutalidade. A banda sabe criar atmosfera sem perder agressividade. E isso é algo que muita banda tenta fazer, mas poucas conseguem sem soar genéricas.
| "Doctrines" (2012). |
| "Foundation" (2015). |
Em Foundation, lançado em 2015, a banda deu um passo ainda mais interessante. O disco se inspirou no universo de Fundação, de Isaac Asimov, e mostrou que o metal da HATEMATTER não queria apenas soar bem: queria contar histórias. E isso faz diferença. O uso de ficção científica, literatura e narrativas distópicas não aparece como enfeite nerd jogado por cima das músicas. Ele interfere no clima, na construção das faixas e na forma como a banda encara o próprio som.
É aí que a HATEMATTER começa a se afastar ainda mais da comparação fácil com bandas estrangeiras. Porque uma coisa é ter influência de melodic death metal; outra é transformar esse tipo de sonoridade em trilha para temas como imperialismo, decadência social, negação da ciência, política, poder e colapso. A banda consegue usar a ficção científica como espelho da realidade, e não apenas como paisagem futurista bonitinha.
| "Metaphor" (2018). |
Depois veio Metaphor, em 2018, outro disco importante nessa caminhada. Aqui, o lado cinematográfico ficou ainda mais evidente. Referências a obras como Blade Runner, Mad Max: Estrada da Fúria, A Chegada e até Black Mirror ajudaram a moldar um álbum mais amplo, mais sensorial e mais conectado com questões humanas. A HATEMATTER fala de futuro, tecnologia, ruína e distopia, mas, no fundo, está falando da gente. Das nossas falhas, dos nossos medos, das nossas contradições.
E isso me agrada muito na banda: ela não trata o ouvinte como alguém que só quer bater cabeça. Claro que dá para ouvir HATEMATTER só pelo peso, pelos riffs e pela energia. Funciona muito bem assim. Mas quem quiser cavar um pouco mais encontra camadas. Há conceito, há literatura, há cinema, há comentário social. Não é aquele metal “cabeçudo” no mau sentido, que fica mais preocupado em parecer inteligente do que em ter música boa. É o contrário: as ideias servem às músicas, e não o contrário.
A trajetória da banda, porém, também teve momentos duros. Em 2020, a HATEMATTER perdeu Gustavo Polidori, guitarrista, amigo e um dos fundadores do grupo. A perda veio praticamente colada ao período da pandemia, o que colocou a própria continuidade da banda em dúvida. O single With Mankind Beneath My Feet acabou funcionando como homenagem a Gustavo, mas também como um retrato de um período de dor, luto e reconstrução.
| "Antithesis" (2023). |
Esse peso emocional desemboca em Antithesis, lançado em 2023. E o título não poderia ser mais adequado. O álbum trabalha justamente com opostos: raiva e esperança, perda e reconstrução, tecnologia e natureza, desespero e aceitação. É um disco nascido de um período sombrio, mas que não se limita a afundar na própria tristeza. Ele transforma dor em som, e isso dá ao álbum uma força especial.
Musicalmente, Antithesis talvez seja o trabalho mais completo da banda. O peso está lá, a melodia também, mas tudo soa mais maduro. Os sintetizadores e as orquestrações entram sem transformar a banda em algo artificial. As guitarras continuam sendo o coração do som, mas agora há uma camada extra de atmosfera que combina muito com essa proposta sci-fi e distópica. A participação de Mayara Puertas, do Torture Squad, em “Liberate Me”, também acrescenta ainda mais força ao disco.
| Foto: Leonardo Benaci. |
Outro ponto importante é que a entrada de Thiago Ribeiro na guitarra rítmica e nos vocais de apoio ampliou as possibilidades da banda. Ele já colaborava nas letras desde Foundation, então sua presença não soa como uma mudança brusca, mas como uma expansão natural do que a HATEMATTER já vinha construindo. Rafael Augusto Lopes (ex-Torture Squad), com sintetizadores, orquestrações e produção, também ajudou a reforçar essa identidade mais cinematográfica.
E talvez aí esteja a grande injustiça: a HATEMATTER tem tudo aquilo que muita gente cobra de uma banda nacional. Tem som bem produzido, tem conceito, tem identidade visual, tem bons músicos, tem discografia, tem letras com conteúdo e tem personalidade. Mas ainda assim continua sendo um nome que muita gente desconhece.
Isso diz muito sobre como o metal brasileiro ainda trata suas próprias bandas. Existe uma tendência irritante de valorizar qualquer banda mediana de fora enquanto nomes daqui precisam fazer o triplo para receber metade da atenção. Se Antithesis tivesse sido lançado por uma banda sueca, americana ou alemã, provavelmente muita gente estaria chamando de “descoberta do ano”. Mas como é uma banda brasileira, passa batido por parte do público que diz apoiar a cena.
A HATEMATTER não precisa ser vendida como “promessa”, porque promessa é algo que ainda vai acontecer. Eles já aconteceram. Já têm história, já têm discos, já têm conceito e já têm uma sonoridade própria. O que falta é mais gente prestar atenção.
No fim das contas, a HATEMATTER é uma daquelas bandas que mostram que o underground brasileiro não sofre por falta de qualidade. Sofre por falta de escuta, divulgação e curiosidade do próprio público. Porque talento, nesse caso, tem de sobra.
E se você gosta de death metal moderno, melodic death metal, groove, ficção científica, distopias, riffs bem construídos e discos que não tratam o ouvinte como idiota, faça um favor a si mesmo: ouça a HATEMATTER. Não como “banda nacional que merece apoio por ser nacional”, mas como uma banda de metal realmente boa.
Porque, sinceramente, já passou da hora de mais gente descobrir isso.




