14 setembro 2015

JACKDEVIL rebate acusações sobre ser uma banda cristã

Por Julio Feriato / Fotos: divulgação

Da esq. p/ dir.: Renato Speedwolf (B), André Nadler (G/V), Filipe Stress (BT) e Ric Mukura (G)
Jackdevil é uma banda de heavy/thrash metal formada em São Luis/MA em meados de 2010. De lá pra cá, tornaram-se uma das bandas mais ativas da cena brasileira, seja gravando álbuns , eps, realizando apresentações ao vivo ou lançando videoclipes.

Com o lançamento de “Evil Strikes Again”, seu segundo álbum de estúdio, os Jackdevil provam que não são mera modinha passageira, como muitos acusaram no inicio. “Viemos pra ficar e não iremos parar tão cedo!”, afirma André Nadler, vocalista e guitarrista da banda.

Conversei com o vocalista/guitarrista Andre Nadler sobre o novo álbum e não pude deixar de perguntar sobre os boatos no underground sobre ser uma banda de white metal.

“Unholy Sacrifice” (2014) foi um álbum baseado nos livros e filmes de Stephen King. Desta vez, qual temática vocês abordaram em "Evil Strikes Again"?
O “Evil Strikes Again” não é um álbum conceitual como foi o “Unholy Sacrifice”. Dessa vez optamos por temáticas variadas abordando diversas esferas do terror, do real ao imaginário, mas ainda no mesmo clima do que foi feito anteriormente. Músicas como “Death by Red Lights”, que narra a história do bandido da luz vermelha e “Devil Awaits”‘, inspirada no filme “A Morte do Demônio” são bons exemplos para se analisar o que está contido nas canções do novo disco.

O tempo entre o lançamento desses álbuns é relativamente curto. Quais diferenças você aponta entre os dois?
“Unholy Sacrifice” e “Evil Strikes Again” retratam o mesmo Jackdevil, mas em momentos diferentes, pois apesar de apenas um ano de diferença, creio que existe um salto enorme dentro da qualidade sonora e um amadurecimento que nos permitiu envolver de forma frontal o que há de clássico e inovador em nossa música. Conseguimos extrair de forma mais intensa o que havia de influência e de personalidade na banda. Nos dedicamos por meses ao trabalho desse álbum e registramos todos os pontos positivos e negativos da nossa trajetória para que alcançássemos bons resultados.

Este trabalho é o segundo full-lenght da banda. Porém, se juntarmos com os EP’s, esse é praticamente o quarto lançamento em apenas 4 anos, algo que não é muito comum por aqui. Como funciona esse processo pra vocês?
O Jackdevil aposta no ‘faça você mesmo’ e nos últimos anos o empenho em ofícios como edição gráfica, engenharia de som e produção de conteúdo audiovisual foi algo presente em nosso cotidiano. O objetivo principal está sendo aprender ao máximo esse tipo de coisa para que possamos ter ainda mais domínio de tudo que produzimos.

No final das contas, para que hoje o Jackdevil tenha em mãos esses quatro materiais lançados, assassinamos inúmeros momentos de diversão, abdicamos dos dias de descanso, trocamos o tempo com a família pelos dias internados dentro do estúdio apenas com a companhia um do outro.

Contar a história do Jackdevil é falar sobre as nossas quatro vidas, pois dedicamos elas ao que está sendo feito desde que decidimos colocar para frente esse sonho lúcido de tocar heavy metal!


Vocês fizeram alguns shows no sudeste pela primeira vez em 2013. Quais lembranças que você tem sobre essa passagem por aqui?
Os shows que fizemos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo em nossos primeiros anos de existência fazem parte de muitas das nossas conversas, pois guardamos boas recordações de vários deles. Além das apresentações também posso destacar os inúmeros amigos e excelentes entrevistas que surgiram naquela ocasião. Tocamos por cinco dias seguidos logo na primeira semana! Mas também muita coisa inusitada aconteceu.

Faltou local para ficarmos e acabamos dormindo juntos em um motel daqueles de cama redonda e espelho no teto, o Filipe (Stress, baterista) perdeu os documentos dele no metrô em São Paulo, nos perdemos por várias vezes nas cidades e eu quase fui esmagado pela porta do metrô (risos). Aguentar o fedor dos meus companheiros de banda que passaram dias sem tomar banho foi uma tarefa complicada e já me preocupo com essa próxima turnê que contém mais de 20 shows e por vários países.

Enfim, tentamos sempre nos divertir em todos os momentos e ultrapassar os obstáculos de continuar com o Jackdevil firme e forte.

Em novembro vocês retornam a São Paulo para alguns shows. Como está a expectativa?
São Paulo sempre nos recebe de braços abertos e a maior prova disso é a quantidade de amigos que temos na cidade. Vários parceiros de estrada estão por lá como a Leather Faces, Mad Dög, Nervosa, Fire Strike, e muitas outras. 

Para a ‘Evil Strikes Again Tour 2015’ temos alguns shows já marcados em São Paulo ao lado do Onslaught e estamos nos preparando para fazer o melhor que podemos, por onde passarmos.

O que você tem a dizer sobre o boato que saiu nas redes sociais afirmando que a banda foi formada em uma igreja e que vocês são cristãos?
Imagino que o motivo desse boato seja porque meu primeiro envolvimento com música foi na igreja, quando garoto. Foi onde aprendi a tocar e não tenho vergonha disso. E por que teria? 

De qualquer modo não somos cristãos e não temos ligação nenhuma com religião – qualquer uma que seja! Desde a primeira vez que ouvi esse murmurinho eu me pergunto apenas uma coisa: e se fôssemos? Seríamos massacrados, discriminados ou iriam aproveitar a moda dos linchamentos e providenciar um para cada pessoa religiosa que gosta de metal? Somos contra todo e qualquer tipo de discriminação e intolerância!

O Jackdevil é uma banda de heavy/thrash metal e não uma horda de black metal para levar assuntos extremistas tão a sério. Estamos falando do mesmo metal pesado do Dave Mustaine (Megadeth), Tom Araya (Slayer) e Nicko McBrain (Iron Maiden), que se declararam cristãos e continuam com seus trabalhos dentro do estilo. Afinal de contas, a sua vida pessoal é problema seu, eu quero te ver no palco! 

Eu não quero saber o que você faz no seu dia a dia. Imagino que o metal foi feito para fugir desse regime imposto pelo sistema e não para ser outra maneira de oprimir as pessoas. Acho que temos inimigos maiores dentro do metal brasileiro para nos preocuparmos, como por exemplo, produtores corruptos que não pagam as bandas, um público preguiçoso que trocam shows por seus computadores repletos de mp3, falta de estrutura para eventos do estilo em vários locais do Brasil, etc. 

Por fim, dizem que a ‘inveja é a amargura que se sofre por causa da felicidade alheia’ e boatos acontecem quando alguém que não tem nada de útil a fazer resolve gastar seu tempo falando da vida de outra pessoa. Talvez essa seja a resposta mais objetiva.

No final, você concorda que os headbangers troo acabam se tornando tão fanáticos quanto os fanáticos que eles criticam?
Veja bem, torna-se algo estranho o fato de você criticar todas as religiões e tentar transformar o metal em mais uma. É claro que não há democracia sem liberdade de expressão, mas obrigar as pessoas a acreditar e se comportar como você julga ser a maneira correta se chama regime, e nós, brasileiros, já superamos isso, certo? 

Na minha opinião, no país da corrupção não poderia ser diferente e a religião se torna apenas mais um veículo sanguessuga dos bolsos do cidadão brasileiro, mas cada um segue o quiser e quando quiser. O perigo é até onde o tal extremismo no metal pode chegar. Enquanto todas as reclamações se resumirem aos protestos virtuais e debates está de bom tamanho. Recentemente vi alguns ‘xiitas’ do metal falando que era totalmente inadmissível que bandas de metal de verdade participem de eventos beneficentes porque não devemos ter misericórdia dos fracos, acredita? (risos) 

Essas regras criadas dentro do cenário nacional afastam muitas pessoas que gostariam de fazer parte do movimento. Toda essa história acaba diminuindo o número de garotas no show, a molecada fica inibida de entrar para o rock e esse papo deixa de canto o principal motivo de sairmos de casa em direção aos shows: música e diversão.

Esse tipo de crítica acontece também no estado do Maranhão ou por aí as coisas são mais tranquilas?
Acontece um pouco aqui no Maranhão também através de um grupo específico de pessoas, mas é bem evidente o objetivo dos que estão envolvidos com isso: atrapalhar o trabalho da banda por algum motivo que desconheço. Acho que seria muito mais simples apenas não gostar do Jackdevil, mas tem gente que vai além e perde seu tempo almejando o fracasso das bandas novas que estão se destacando. 

O pior é que ainda tem gente que cai nessa e não procura se informar. Só não sei se isso é burrice ou ignorância porque a ignorância é o desconhecimento dos fatos e das possibilidades e a burrice é uma força da natureza. 

A ignorância quer saber, a burrice acha que já sabe.

Falando em Maranhão, como ficou a cena daí após o fracasso do M.O.A.?
Ultimamente poucas bandas estão surgindo aqui na capital maranhense, os shows estão instáveis porque ora estão lotados, ora estão vazios e poucas turnês de grupos internacionais de rock n’ roll estão passando por aqui, pois falta mesmo até casas de show que possam abrigar os eventos. 

Mas em contrapartida aconteceram coisas boas também e hoje em dia temos ótimas bandas que não deixam nada a desejar em relação aos movimentos de outros cantos do Brasil e do mundo. Em que outra época tínhamos bandas maranhenses tocando fora do país e sendo destaque em revistas, blogs e outros veículos de comunicação ao redor do mundo. 

Realmente, é uma época difícil de ser avaliada, mas nós do Jackdevil nos esforçamos para ajudar como podemos e mesmo que já tenham fechado muitas portas quando começamos por aqui, sempre fazemos questão de abrir outras para aqueles que fazem os corres em nossa cidade natal e faremos isso sempre que possível. 

Vida longa ao metal maranhense, que mesmo mergulhado em tantas “adversidades” (leia-se falta de estrutura, fofoquinhas, mimimi’s e tretas) sempre consegue surpreender e lançar novos talentos como a Leopard Machine, School Thrash, Púrpura Ink, Royal Dogs, RedBeer Club, e outras.

Por fim, deixe seu recado para a galera!
Deixamos aqui o nosso eterno agradecimento aos que compartilham das nossas conquistas e nos ajudam nessa estrada, seja direta ou indiretamente. Que o metal nacional seja cada dia mais valorizado e que tenha menos cuzões. Que o fazer seja mais importante que o falar. Que as pessoas valorizem mais a música e menos os bastidores.



12 setembro 2015

MYTHOLOGICAL COLD TOWERS: "doom metal é um gênero maldito", afirma guitarrista

Por Julio Feriato / Fotos: divulgação

Nechron (G), Yaotzin (B), Hamon (BT), Samej (V) e Shammash (G)
Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre o Mythological Cold Towers. Mas saiba que já se passaram quase vinte anos desde que esses paulistas lançaram o primeiro cd “Sphere of Nebaddon: The Dawn of a Dying Tyffereth”, considerado um verdadeiro clássico do doom metal brasileiro e hoje disputado a tapas pelos fãs do estilo.

De lá para cá, mesmo após longos intervalos, o grupo também lançou “Remoti Meridiani Hymni: Towards the Magnificent Realm of the Sun” (2000), “The Vanished Pantheon” (2005), “Immemorial” (2011) e “Monvmenta Antiqva”, o mais novo trabalho, lançado em abril deste ano.

Conversei com o guitarrista Shammash para falar sobre a atual fase da banda; o resultado você confere logo abaixo.

Samej e Shammash no Heavy Nation, em 2011
Quando conversamos no programa Heavy Nation em 2011 você afirmou que o Doom Metal é um gênero musical maldito. Você ainda acha isso?
Acho sim, pois não só no Brasil como em outros países, o Doom ainda não possui o mesmo espaço como outros estilos têm. Mas não vejo isso como algo de negativo. O Doom é um gênero muito difundido e apreciado por ouvintes com gosto musical mais apurado e abrangente. Então, de certa forma, há uma conexão e proximidade entre os fãs do estilo.

O novo álbum “Monvmenta Antiqva” resgatou o doom clássico que a banda fazia no inicio de sua carreira. Isso foi proposital?
De alguma forma, sim. Além de sermos fãs desse Doom clássico praticado no inicio dos anos noventa, nós acompanhamos o surgimento do estilo e o nascimento das bandas que se tornaram ícones como, por exemplo, My Dying Bride, Anathema, Paradise Lost, Cathedral, Katatonia, entre outras, pois sempre fomos fortemente conectados com a cena underground mundial, desde os anos oitenta. Desta forma, nós temos o imenso orgulho do MCT ter emergido nesse período.

Outro detalhe marcante foi a volta dos teclados, instrumento que vocês haviam meio que deixado de lado no cd anterior.
Na verdade, nós utilizamos o teclado para dar uma ambiência envolta de mistério e climas épicos em nossa música. Chegamos a explorar mais esse instrumento na época dos albuns “Remoti Meridini Hymni” (2000) e “The Vanished Pantheon” (2005). A partir de “Immemorial” (2011), nós preferimos utilizar de forma mais sutil, apenas para harmonizar a atmosfera de opulência que a banda transmite.

Formação do álbum “Remoti Meridiani Hymni…”
Vocês impressionaram muita gente quando lançaram o “Remoti Meridiani Hymni…”, pois ele veio com uma proposta totalmente diferente, mais atmosférica e com músicas longas que passam dos dez minutos. O que inspirava a banda naquela época?
Naquele período a banda tinha outros integrantes que não estão mais hoje. Havia muita diversidade de gostos e influências musicais entre os membros. Lembro que buscávamos inspirações de vários tipos de músicas que combinavam com a atmosfera do MCT, como por exemplo, trilhas sonoras de filmes épicos. Ainda carregamos essas influências, porém, estamos mais focados em fortalecer a nossa identidade.

Foi também quando começaram a explorar o tema sobre as antigas civilizações da America Central, correto?
Isso é outro orgulho que temos: ser uma das primeiras bandas de Metal a incorporar essa temática na música. Então, naturalmente, foi lançada uma trilogia sobre a América pré-colombiana, iniciada no álbum “Remoti Meridini Hymni”, dando continuidade em “The Vanished Pantheon” e finalizando no “Immemorial”. O vocalista e letrista Samej soube através de uma profunda pesquisa e leitura, absorver esse tema e incorporá-lo à nossa música.

Em “Immemorial” as letras abordaram as civilizações perdidas da Amazônia. Um tema bem complexo e que exige muita pesquisa…
Exatamente. Há muitos mistérios e lendas que se formaram naquela região. Samej pesquisou muitos textos de cronistas antigos que estiveram lá e descreveram belas obras cheias de histórias assustadoras e míticas. Sem contar nos emblemáticos rastros deixados por antigas civilizações brasileiras não só na Amazônia, como em várias partes do nosso país.

E qual a concepção lírica de “Monvmenta Antiqva”?
Mudamos da água pro vinho, ou melhor, deixamos o tema sobre a América um pouco de lado e resolvemos falar sobre as civilizações clássicas. Não se trata de um álbum totalmente conceitual como os anteriores. Na verdade, “Monvmenta Antvqua” foi inspirado em nossa admiração pela arte e cultura greco-romana. O álbum reflete nosso fascínio e contemplação pela arte e cultura no mundo clássico, bem como os vestígios de suas construções, templos e todo o legado que deram origem a civilização ocidental.

Ao ouvir “Monvmenta Antiqva” tenho impressão de que ele talvez seja o álbum mais ‘emocional’ da banda. Como vc analisaria este trabalho?
De fato você, conseguiu absorver a verdadeira essência que o álbum transmite. Desta vez, fizemos o possível pra deixar a sonoridade repleta de magnificência e uma produção bem polida, a fim de evocar o sentimento de beleza e deslumbres que a própria arte clássica nos remete.

Vocês deram um rolê pela Europa em 2012. O que deu pra sentir da cena doom de lá?
Apesar de realizamos apenas cinco shows, abrangendo os países Portugal, Irlanda e Holanda, deu pra ter uma ideia de como as coisas funcionam por lá. O público no geral é como o daqui. Vão aos shows, apoiam e mostram grande receptividade às bandas. O diferencial é que na Europa há uma cultura voltada pro Metal em geral. Você percebe isso quando nota o profissionalismo em termos de estrutura e organização de eventos e o estímulo do público em apoiar as bandas, comprando seus materiais.

Quais os planos da banda agora que o novo cd foi lançado?
A ideia é preparar um merchandising e prosseguir com as apresentações pra divulgar o novo trabalho, abrangendo vários lugares possíveis. Temos várias propostas, mas, até o momento, estão confirmados shows no Rio Grande do Sul e Cuiabá. Estamos aptos a tocar em vários estados e regiões do Brasil. Nesse meio tempo, quem sabe não relançamos algum material antigo. 


Discografia:
* “Sphere of Nebaddon: The Dawn of a Dying Tyffereth” (1996)
* “Remoti Meridiani Hymni: Towards the Magnificent Realm of the Sun” (2000)
* “The Vanished Pantheon” (2005)
* “Immemorial” (2011)
* “Monvmenta Antiqva” (2015)

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13 junho 2015

A Parada LGBT ajudou revelar a hipocrisia de muitos headbangers no Brasil

Por Julio Feriato


O assunto favorito nas redes sociais nesta última semana foi uma polêmica foto da 19ª Parada do Orgulho LGBT, onde a transexual Viviany Beleboni encenou uma crucificação para representar a “agressão e a dor que a comunidade LGBT sofre diariamente no país“.

Questionada pelo Portal G1, Viviany explicou que vê a Parada como um protesto, não uma festa. “Usei as marcas de Jesus, que foi humilhado, agredido e morto; justamente o que tem acontecido com muita gente do meio GLS, mas com isso ninguém se choca. Nunca tive a intenção de atacar a igreja. A ideia era, mesmo, protestar contra a homofobia”.

Infelizmente, o recado foi mal interpretado e foi suficiente para que milhares de pessoas vomitassem com os dedos no Facebook ao ser contra o protesto: “como querem respeito se eles mesmos (os gays) não respeitam a religião dos outros?” 

Essa pergunta é fácil de responder. antes de tudo, respeito onde? Desde quando os católicos e principalmente os evangélicos radicais respeitam a sexualidade alheia? Que tipo de respeito é esse que compara os homossexuais à pedófilos e bandidos? Que chega ao ponto de criar um projeto de lei popularmente apelidado de “cura gay”? 

Mas, vindo de fundamentalistas evangélicos e católicos, eu até consigo entender tais questionamentos. O que não deu pra engolir foram os vários posts de pessoas ligadas à comunidade rock/metal dizendo-se ofendidas com a encenação de Viviany e compartilhando postagens de Silas Malafaia e Marcos Feliciano (dois exemplos do quanto o ser-humano pode ser preconceituoso e acéfalo) para criticar o protesto. 

Os mesmos “roqueiros/metaleiros” que sempre se gabam ser mais inteligentes e cultos do que as pessoas que curtem gêneros musicais populares, os mesmos que ouvem e compram discos do Slayer, Deicide, Gorgoroth, Cradle of Filth, Marilyn Manson, Belphegor, Sepultura… Isso só pra citar algumas bandas que já usaram a imagem de Cristo crucificado nas capas de seus álbuns ou em seus videoclipes.


Será que o mesmo fã do Deicide que achou um absurdo o protesto da Parada GLBT também ficou indignado com a capa e contracapa do disco “Once Upon the Cross”? Ou quando assistiu o DVD “Black Mass Kraków” dos noruegueses Gorgoroth, onde exibiam no palco algumas mulheres crucificadas?


Quer mais? O videoclipe da música “Arise“, do nosso querido Sepultura, exibe pessoas crucificadas usando máscaras de gás. Por que ninguém do metal se chocou com isso? Ou mesmo com a capa do LP “Rotting” do Sarcófago?

Isso tudo possui dois adjetivos: hipocrisia, e, principalmente, preconceito. Sim, preconceito! Outro belo exemplo é a capa da revista Placar onde o jogador de futebol Neymar aparece crucificado para demonstrar o quanto ele estava sendo “crucificado pelo povo” naquela época. Mas, qual é, né? Ele pode, é o Neymar, poxa! Um homem hétero, futebolista, paixão nacional, tudo bem!

Já Viviany Beleboni, não.  Beleboni é uma mulher transexual, o que para héteros mal informados é a mesma coisa que ser travesti, drag queen, bicha, veado – "tudo farinha do mesmo saco, tudo gente suja que não merece estar no planeta".

Portanto, cheguei a uma conclusão: a revolta dos hipócritas, sejam eles católicos, evangélicos ou metaleiros, nunca foi contra o manifesto, mas contra os manifestantes. Mais um exemplo de homofobia disfarçada de revolta.

Confira algumas bandas que usaram a crucificação ou imagens religiosas nas capas de seus discos e vídeos

Capa do EP "Insantification", da banda mineira In Memorian.


Cenas do DVD "Black Mass Kraków 2004", do Gorgoroth


Os austríacos do Belphegor exibiram uma freira nua com corpse paint se esfregando na cruz, no videoclipe “Lucifer Incestus


O que será que os metaleiros fundamentalistas acharam da capa do primeiro cd do Mysteriis?


Os curitibanos do Amen Corner sempre curtiram satirizar a imagem de Cristo tanto nas letras quantos nas capas.


Capa da demo “Fuck Me Jesus”, lançada em 1991, pela banda sueca Marduk.


Muito antes de usar a crucificação no clipe de “Arise”, o Sepultura já havia usado a imagem da crucificação de Cristo na capa do disco “Morbid Visions”, em 1986.


O Sarcófago também quis fazer seu protesto no EP "Rotting", em 1989.