Por Júlio Feriato
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Da esq. p/ dir.: Gene Hoglan, Kelly Conlon, Chuck Schuldiner e Bobby Koelble. |
Em março de 1995, o DEATH lançava Symbolic, seu sexto álbum de estúdio, um disco que, três décadas depois, continua sendo celebrado como um dos pontos mais altos do death metal e, ao mesmo tempo, um divisor de águas no metal extremo. Para entender a importância desse trabalho, é preciso revisitar a trajetória da banda até então.
O DEATH nunca foi uma banda comum dentro do estilo que ajudou a moldar. O diferencial estava na inquietação criativa de Chuck Schuldiner, que se recusava a repetir fórmulas. A cada álbum, o grupo não apenas mudava de formação, mas também de pele: evoluía, surpreendia e se reinventava, mantendo um brilho singular em sua trajetória. Scream Bloody Gore (1987), por exemplo, era pura brutalidade — talvez o disco mais sangrento e visceral de seu ano, como se escorresse sangue do toca-discos. Já Leprosy (1988) trouxe mais técnica, mas sem abandonar a crueza e a agressividade que sustentavam o som da banda. Em Spiritual Healing (1990), a brutalidade cedia espaço a composições mais elaboradas, riffs bem trabalhados e solos memoráveis — basta lembrar do dueto em “Low Life”, uma das joias do álbum.
Lineup de "Human", em 1992. |
A verdadeira guinada, no entanto, veio com Human (1992). Para esse disco, Chuck recrutou músicos de ponta: Steve DiGiorgio (SADUS) no baixo e a dupla Paul Masvidal e Sean Reinert (ambos do CYNIC) na guitarra e bateria, respectivamente. O resultado foi um álbum complexo, técnico e ousado, que exigia várias audições para ser absorvido, mas que acabou se tornando um clássico, com músicas como “Secret Face” e, claro, “Lack of Comprehension”. No ano seguinte, Individual Thought Patterns (1993) levou a ousadia ainda mais longe. Com Andy LaRocque (King Diamond) na guitarra, Steve DiGiorgio no baixo e Gene Hoglan (DARK ANGEL) na bateria, o disco soava técnico e agressivo, mas também carregado de feeling. Faixas como "The Philosopher", “Trapped in a Corner” e “Jealousy” ainda hoje figuram entre as favoritas dos fãs.
Foi nesse contexto que nasceu Symbolic. Gravado ao longo de seis semanas no estúdio Morrisound Recording, em Tampa, Flórida, o disco contou com a produção de Jim Morris — em parceria com o próprio Schuldiner — e trouxe mais uma mudança de formação. Gene Hoglan permaneceu na bateria, mas agora acompanhado por Kelly Conlon no baixo e Bobby Koelble na guitarra. Essa renovação deu frescor ao som e abriu caminho para novas experimentações.
Musicalmente, Symbolic soava diferente de tudo o que a banda havia feito antes. Havia ali a brutalidade do death metal, mas mesclada com melodias envolventes, riffs inspirados pelo metal tradicional e passagens que flertavam com o progressivo. A voz de Chuck, menos gutural e mais rasgada, consolidava uma assinatura única, enquanto a bateria de Hoglan oferecia uma precisão quase cirúrgica. O resultado foi uma produção cristalina e poderosa, talvez a melhor de toda a carreira do Death, valorizando cada detalhe das composições.
As letras também marcavam um novo patamar de profundidade. Schuldiner deixava de lado os temas macabros da juventude para mergulhar em reflexões existenciais, críticas sociais e questões filosóficas. “Symbolic”, a faixa-título, fala sobre memórias da infância e a passagem do tempo; “Empty Words” questiona a falta de substância em discursos superficiais; “Crystal Mountain” critica o dogmatismo religioso. Havia, no disco, uma atmosfera introspectiva e humana, que tornava a experiência tão emocional quanto brutal.
A recepção, na época, foi mista. Parte dos fãs mais ligados ao death metal mais cru estranhou o direcionamento mais melódico e progressivo, mas a crítica especializada não poupou elogios. Com o tempo, Symbolic se consolidou não apenas como um dos melhores álbuns do Death, mas como um marco do gênero. Hoje, é considerado por muitos o ponto alto da carreira de Schuldiner, pela maneira como equilibrou técnica, peso e sentimento.
Chuck Schuldiner (direita) com Gene Hoglan. |
Os bastidores também reservam curiosidades. Chuck gravou demos em 8-track para experimentar com sobreposição de guitarras e arranjos antes de entrar em estúdio, algo que ele não havia feito com a mesma sofisticação antes. Já a capa, criada por René Miville — que também assinou as de Human e Individual Thought Patterns —, tornou-se icônica, a ponto de sua arte original ter sido leiloada anos depois por mais de dez mil dólares.
Apesar do sucesso artístico, a relação de Schuldiner com a gravadora Roadrunner já estava desgastada. Durante a turnê de Symbolic, ele manifestava o desejo de seguir em frente com um novo projeto, o CONTROL DENIED, onde poderia explorar ainda mais sua veia progressiva e suas letras introspectivas. Symbolic, nesse sentido, foi uma ponte para essa nova fase criativa.
Em 1998, Chuck Schuldiner lançaria The Sound of Perseverance, o último álbum do DEATH, considerado por muitos como a síntese final de sua genialidade. Ali, o lado progressivo se tornava ainda mais evidente, e a intensidade emocional das composições mostrava que Chuck nunca deixou de evoluir artisticamente - mas essa é outra história.
As camadas ocultas de Symbolic: um mergulho em suas músicas
“Zero Tolerance” – Aqui, o peso predomina. A bateria de Gene Hoglan se destaca com precisão cirúrgica, e a letra traz um posicionamento firme contra a hipocrisia e o fanatismo. É uma das faixas mais agressivas do álbum, lembrando aos fãs que o Death ainda mantinha suas raízes extremas.
“Empty Words” – Um dos momentos mais memoráveis. Os riffs melódicos são quase hipnóticos, enquanto Schuldiner vocifera contra a superficialidade da comunicação. O refrão, repetindo “Empty words!”, gruda na mente e mostra como a banda conseguiu criar algo acessível sem perder intensidade.
“Sacred Serenity” – Uma canção carregada de atmosfera, com linhas de guitarra quase contemplativas. A temática aborda paz espiritual, mas sem romantismo barato, sempre com a crítica típica de Chuck. É uma das músicas onde a produção cristalina de Jim Morris brilha mais, dando espaço para cada instrumento respirar.
“1,000 Eyes” – A paranoia é o fio condutor dessa faixa, que fala sobre vigilância e controle — temas que se tornaram ainda mais atuais décadas depois. Musicalmente, ela é complexa, cheia de quebras e mudanças de andamento, mostrando a faceta progressiva da banda.
“Without Judgement” – Uma das mais filosóficas do disco. Chuck reflete sobre preconceito e intolerância, clamando por empatia. O instrumental segue a mesma linha: riffs intrincados, mas carregados de emoção. É uma das faixas que mais evidenciam a maturidade lírica e musical alcançada pelo Death nessa fase.
“Crystal Mountain” – Talvez a faixa mais icônica do álbum. Com riffs marcantes e refrão memorável, é uma crítica afiada ao dogmatismo religioso. Não por acaso, tornou-se presença constante nos setlists e é, até hoje, uma das músicas mais lembradas do Death. Musicalmente, é perfeita: pesada, melódica e complexa na medida certa.
“Misanthrope” – Mais direta e agressiva, essa canção retoma um pouco da crueza dos discos anteriores. A letra fala sobre desprezo pela humanidade, mas com a profundidade reflexiva que Schuldiner imprimia até mesmo em temas tradicionalmente sombrios.
“Perennial Quest” – O encerramento do álbum é épico. A faixa mais longa do disco, com quase nove minutos, alterna momentos pesados e melódicos em uma jornada que resume bem a proposta de Symbolic. A letra fala sobre a busca eterna por sentido, um tema que acompanharia Chuck até seus últimos trabalhos.