31 agosto 2025

DEATH: trinta anos depois, Symbolic ainda nos olha com mil olhos

Por Júlio Feriato

Da esq. p/ dir.: Gene Hoglan, Kelly Conlon, Chuck Schuldiner e Bobby Koelble. 

Em março de 1995, o DEATH lançava Symbolic, seu sexto álbum de estúdio, um disco que, três décadas depois, continua sendo celebrado como um dos pontos mais altos do death metal e, ao mesmo tempo, um divisor de águas no metal extremo. Para entender a importância desse trabalho, é preciso revisitar a trajetória da banda até então.

DEATH nunca foi uma banda comum dentro do estilo que ajudou a moldar. O diferencial estava na inquietação criativa de Chuck Schuldiner, que se recusava a repetir fórmulas. A cada álbum, o grupo não apenas mudava de formação, mas também de pele: evoluía, surpreendia e se reinventava, mantendo um brilho singular em sua trajetória. Scream Bloody Gore (1987), por exemplo, era pura brutalidade — talvez o disco mais sangrento e visceral de seu ano, como se escorresse sangue do toca-discos. Já Leprosy (1988) trouxe mais técnica, mas sem abandonar a crueza e a agressividade que sustentavam o som da banda. Em Spiritual Healing (1990), a brutalidade cedia espaço a composições mais elaboradas, riffs bem trabalhados e solos memoráveis — basta lembrar do dueto em “Low Life”, uma das joias do álbum.

Lineup de "Human", em 1992.

A verdadeira guinada, no entanto, veio com Human (1992). Para esse disco, Chuck recrutou músicos de ponta: Steve DiGiorgio (SADUS) no baixo e a dupla Paul Masvidal e Sean Reinert (ambos do CYNIC) na guitarra e bateria, respectivamente. O resultado foi um álbum complexo, técnico e ousado, que exigia várias audições para ser absorvido, mas que acabou se tornando um clássico, com músicas como “Secret Face” e, claro, “Lack of Comprehension”. No ano seguinte, Individual Thought Patterns (1993) levou a ousadia ainda mais longe. Com Andy LaRocque (King Diamond) na guitarra, Steve DiGiorgio no baixo e Gene Hoglan (DARK ANGEL) na bateria, o disco soava técnico e agressivo, mas também carregado de feeling. Faixas como "The Philosopher", “Trapped in a Corner” e “Jealousy” ainda hoje figuram entre as favoritas dos fãs.

Foi nesse contexto que nasceu Symbolic. Gravado ao longo de seis semanas no estúdio Morrisound Recording, em Tampa, Flórida, o disco contou com a produção de Jim Morris — em parceria com o próprio Schuldiner — e trouxe mais uma mudança de formação. Gene Hoglan permaneceu na bateria, mas agora acompanhado por Kelly Conlon no baixo e Bobby Koelble na guitarra. Essa renovação deu frescor ao som e abriu caminho para novas experimentações.

Musicalmente, Symbolic soava diferente de tudo o que a banda havia feito antes. Havia ali a brutalidade do death metal, mas mesclada com melodias envolventes, riffs inspirados pelo metal tradicional e passagens que flertavam com o progressivo. A voz de Chuck, menos gutural e mais rasgada, consolidava uma assinatura única, enquanto a bateria de Hoglan oferecia uma precisão quase cirúrgica. O resultado foi uma produção cristalina e poderosa, talvez a melhor de toda a carreira do Death, valorizando cada detalhe das composições.

As letras também marcavam um novo patamar de profundidade. Schuldiner deixava de lado os temas macabros da juventude para mergulhar em reflexões existenciais, críticas sociais e questões filosóficas. “Symbolic”, a faixa-título, fala sobre memórias da infância e a passagem do tempo; “Empty Words” questiona a falta de substância em discursos superficiais; “Crystal Mountain” critica o dogmatismo religioso. Havia, no disco, uma atmosfera introspectiva e humana, que tornava a experiência tão emocional quanto brutal.

A recepção, na época, foi mista. Parte dos fãs mais ligados ao death metal mais cru estranhou o direcionamento mais melódico e progressivo, mas a crítica especializada não poupou elogios. Com o tempo, Symbolic se consolidou não apenas como um dos melhores álbuns do Death, mas como um marco do gênero. Hoje, é considerado por muitos o ponto alto da carreira de Schuldiner, pela maneira como equilibrou técnica, peso e sentimento.

Chuck Schuldiner (direita) com Gene Hoglan.

Os bastidores também reservam curiosidades. Chuck gravou demos em 8-track para experimentar com sobreposição de guitarras e arranjos antes de entrar em estúdio, algo que ele não havia feito com a mesma sofisticação antes. Já a capa, criada por René Miville — que também assinou as de Human e Individual Thought Patterns —, tornou-se icônica, a ponto de sua arte original ter sido leiloada anos depois por mais de dez mil dólares.

Apesar do sucesso artístico, a relação de Schuldiner com a gravadora Roadrunner já estava desgastada. Durante a turnê de Symbolic, ele manifestava o desejo de seguir em frente com um novo projeto, o CONTROL DENIED, onde poderia explorar ainda mais sua veia progressiva e suas letras introspectivas. Symbolic, nesse sentido, foi uma ponte para essa nova fase criativa. 

Em 1998, Chuck Schuldiner lançaria The Sound of Perseverance, o último álbum do DEATH, considerado por muitos como a síntese final de sua genialidade. Ali, o lado progressivo se tornava ainda mais evidente, e a intensidade emocional das composições mostrava que Chuck nunca deixou de evoluir artisticamente - mas essa é outra história.


Mesmo após trinta anos, Symbolic continua atual e inspirador. Seu legado se reflete em bandas que transitam do progressivo ao extremo, e sua influência é percebida em qualquer projeto que busque equilibrar técnica, peso e emoção. Mais do que um disco de death metal, Symbolic é uma obra atemporal, um retrato da genialidade de Chuck Schuldiner e, no melhor sentido da palavra, um verdadeiro símbolo da capacidade da música extrema de transcender rótulos.

As camadas ocultas de Symbolic: um mergulho em suas músicas


“Symbolic” – A faixa-título abre o disco de forma grandiosa. O riff inicial é direto, mas logo se desdobra em melodias cheias de emoção. A letra é uma das mais conhecidas de Chuck, falando sobre a infância e o peso das memórias. É, de cara, uma das melhores sínteses do que o álbum representa: brutalidade e sensibilidade caminhando juntas.

“Zero Tolerance” – Aqui, o peso predomina. A bateria de Gene Hoglan se destaca com precisão cirúrgica, e a letra traz um posicionamento firme contra a hipocrisia e o fanatismo. É uma das faixas mais agressivas do álbum, lembrando aos fãs que o Death ainda mantinha suas raízes extremas.

“Empty Words” – Um dos momentos mais memoráveis. Os riffs melódicos são quase hipnóticos, enquanto Schuldiner vocifera contra a superficialidade da comunicação. O refrão, repetindo “Empty words!”, gruda na mente e mostra como a banda conseguiu criar algo acessível sem perder intensidade.

“Sacred Serenity” – Uma canção carregada de atmosfera, com linhas de guitarra quase contemplativas. A temática aborda paz espiritual, mas sem romantismo barato, sempre com a crítica típica de Chuck. É uma das músicas onde a produção cristalina de Jim Morris brilha mais, dando espaço para cada instrumento respirar.

“1,000 Eyes” – A paranoia é o fio condutor dessa faixa, que fala sobre vigilância e controle — temas que se tornaram ainda mais atuais décadas depois. Musicalmente, ela é complexa, cheia de quebras e mudanças de andamento, mostrando a faceta progressiva da banda.

“Without Judgement” – Uma das mais filosóficas do disco. Chuck reflete sobre preconceito e intolerância, clamando por empatia. O instrumental segue a mesma linha: riffs intrincados, mas carregados de emoção. É uma das faixas que mais evidenciam a maturidade lírica e musical alcançada pelo Death nessa fase.

“Crystal Mountain” – Talvez a faixa mais icônica do álbum. Com riffs marcantes e refrão memorável, é uma crítica afiada ao dogmatismo religioso. Não por acaso, tornou-se presença constante nos setlists e é, até hoje, uma das músicas mais lembradas do Death. Musicalmente, é perfeita: pesada, melódica e complexa na medida certa.

“Misanthrope” – Mais direta e agressiva, essa canção retoma um pouco da crueza dos discos anteriores. A letra fala sobre desprezo pela humanidade, mas com a profundidade reflexiva que Schuldiner imprimia até mesmo em temas tradicionalmente sombrios.

“Perennial Quest” – O encerramento do álbum é épico. A faixa mais longa do disco, com quase nove minutos, alterna momentos pesados e melódicos em uma jornada que resume bem a proposta de Symbolic. A letra fala sobre a busca eterna por sentido, um tema que acompanharia Chuck até seus últimos trabalhos.

30 agosto 2025

MALEFICARUM: o legado cult do death metal italiano

 Por Júlio Feriato

Formação clássica do Maleficarum.
No início dos anos 1990, a cena do death metal estava efervescente. A Suécia e a Flórida dominavam o gênero, mas até mesmo em países onde o metal extremo não tinha tanta tradição começaram a surgir nomes marcantes. Foi nesse contexto que, em 1993, na cidade de Termoli (Molise, Itália), nasceu o MALEFICARUM, banda que buscava imprimir sua própria visão sombria e técnica dentro do estilo. 

Enquanto boa parte do death metal daquele período pendia para o sueco melódico ou para o brutal norte-americano, o MALEFICARUM trilhou um caminho diferente. Com uma proposta voltada ao ocultismo, a banda soava orgânica, carregada de atmosfera e com um quê de tragicidade tipicamente mediterrânea, que misturava riffs densos, técnicos e soturnos.

A estreia veio com a demo Unblessed (1993), hoje cultuada como um dos registros mais obscuros da cena italiana. Ainda que crua, ela já deixava claro o interesse do grupo por uma sonoridade que não se encaixava facilmente em rótulos. As guitarras traziam riffs encorpados, com passagens arrastadas e um senso de melodia dissonante que remetia mais ao peso soturno do doom/death do que ao virtuosismo veloz que dominava a época. O vocal de Andrea Zanetti se destacava pelo timbre cavernoso, carregado de reverberação, acentuando a sensação de claustrofobia. A produção limitada, longe de ser um defeito, contribuía para a aura ritualística que se tornaria marca registrada da banda.

Dois anos depois, o MALEFICARUM lançou seu primeiro álbum completo, Across the Heavens (1995), onde a evolução foi nítida. O som ganhou estrutura mais elaborada, sem perder a densidade obscura da demo. Aqui, a influência do doom metal se faz ainda mais presente: riffs arrastados se entrelaçam a construções técnicas, criando um clima de peso e tensão permanente. Em vez de melodias heroicas ou luminosas típicas do death metal melódico escandinavo, o disco se apoia em linhas secas, tensas e sufocantes, reforçando um fatalismo sombrio.

O ponto alto do disco é “Time I Am”, faixa que sintetiza bem a proposta da banda: uma bela fusão entre a primeira fase do AT THE GATES e a sofisticação técnica que remetia ao Death. Ainda assim, o MALEFICARUM não soava como cópia — havia ali uma aura mais obscura e intimista, quase litúrgica, que conferia à música uma identidade própria.

Outro momento marcante é “The Raping of Life”, em que o vocal gutural de Andrea Zanetti contrasta com intervenções femininas, criando uma sensação perturbadora e dramática. O recurso, longe de soar “gótico” no sentido popular do termo, reforça o caráter sacrílego e desesperador da música.

Apesar das críticas à produção — especialmente ao som da bateria, excessivamente seco e “clicky” — Across the Heavens sobrevive ao tempo pelo que realmente importa: suas composições. O disco transmite uma sensação ritualística única, como se cada faixa fosse parte de uma liturgia profana. O Maleficarum, aqui, conseguiu traduzir em música o peso da escuridão mediterrânea, um fatalismo que o diferencia dos demais polos do death metal dos anos 90.

Se Across the Heavens foi a consolidação de uma identidade sonora única, Under the Cross representou o ápice da maturidade artística do MALEFICARUM. Lançado em 2002, o disco aprofunda ainda mais a estética ritualística da banda, com composições densas, arranjos mais sofisticados e uma produção que, embora ainda crua, favorece a atmosfera opressiva e introspectiva. 

As guitarras ganham contornos mais dissonantes e angulares, evocando um desespero quase litúrgico. Faixas como “Always Suffering” — com direito a teclado que remete a órgãos medievais — e “De Vermis Mysteriis” revelam uma banda que não apenas dominava os elementos do death/doom, mas os moldava com personalidade e propósito. Em Under the Cross, o Maleficarum não buscava agradar ou seguir tendências: sua música era um rito de passagem sombrio, uma descida consciente aos abismos da alma mediterrânea.

Infelizmente a banda não teve vida longa, encerrando atividades logo em seguida. Mas toda sua discografia permaneceu como registros de uma ousadia que escapava dos clichês da época. Enquanto muitos buscavam soar suecos, americanos ou poloneses, o MALEFICARUM trilhou um caminho próprio: death metal técnico, mas carregado de atmosferas obscuras, melódicas e quase ritualísticas, com uma assinatura que não se confunde com a de outros nomes.

Hoje, com os relançamentos feitos pela Despise the Sun Records, a obra do grupo pode ser revisitada e ganha novo reconhecimento no underground. Para quem procura death metal que vai além do peso bruto e mergulha em paisagens sonoras sombrias, o Maleficarum é uma descoberta obrigatória.

29 agosto 2025

ARCHONS: o tesouro oculto do death metal canadense

Por Júlio Feriato


Em 2006, na cidade de Rouyn-Noranda, Quebec, surgiu uma banda que poucos chegaram a conhecer, mas que entregou dois discos capazes de encantar qualquer fã de metal extremo mais exigente: ARCHONS. Apesar de permanecer restrita ao underground canadense, sua sonoridade remetia diretamente à escola sueca do melodeath — especialmente nomes como DARK TRANQUILITY e AT THE GATES. Com apenas dois álbuns, a Archons deixou um registro pequeno, porém marcante, dentro do death metal melódico técnico.

A formação original contava com Simon Descoteaux (baixo), Christian Poulin (bateria), Simon Charette e Francis Beaulieu (guitarras), e Sébastien Audet (vocais). Desde o início, o grupo chamou atenção por unir técnica apurada, agressividade controlada e uma abordagem lírica crítica. O resultado foi sua estreia: The Consequences of Silence, lançado em 2008.


O álbum é uma verdadeira aula de melodeath técnico. A faixa de abertura, “The Enigma of Torrents”, já apresenta a proposta: riffs intricados, solos melódicos e pausas bem calculadas que criam uma atmosfera densa. Faixas como “Delusional Beliefs”, “Pulverizing Inner Thoughts” e “The Fall of a Dreamer” mostram uma banda segura de sua identidade — brutal, melódica e cerebral. A bateria de Poulin é um espetáculo à parte, com blastbeats precisos e variações rítmicas que elevam o nível do trabalho. Já os vocais de Audet, ásperos e intensos, lembram Mikael Stanne (Dark Tranquillity) em sua fase mais visceral, evocando a tradição melódica do estilo.

Outro destaque da ARCHONS está nas letras. Em vez de apostar nos clichês do gênero, a banda explorou temas como injustiça social, alienação e omissão diante de atrocidades. Em “Of Pride and Prejudice”, por exemplo, há um verso que sintetiza bem essa postura (em tradução livre): “Negligência de conhecimento só traz uma onda de ignorância”. Não é apenas uma frase de impacto — é uma crítica direta à passividade intelectual.

A produção do álbum é afiada e clara, dando espaço a cada instrumento. As melodias e harmonias aparecem de forma equilibrada, sempre a serviço da narrativa sonora. O disco mantém sua qualidade do início ao fim, com destaque para “Of Pride and Prejudice”, que traz um dos riffs mais criativos do metal técnico recente, e “Delusional Beliefs”, que surpreende com pausas limpas e bem colocadas.


Onze anos depois, em 2019, a ARCHONS retornou com Buried Underneath the Lies, lançado de forma independente. O álbum manteve a essência melodeath, mas trouxe novas camadas sonoras e uma banda mais madura. Com faixas como “The Slumber (Countless Days of Coma)”, “Nostalgia (Almost Giving Up)” e “I, the Witness”, o disco explorou temas existenciais e emocionais sem perder a pegada técnica e agressiva. A recepção foi positiva entre aqueles que acompanharam o lançamento, embora o trabalho tenha passado praticamente despercebido pela mídia especializada — dentro e fora do Canadá.

Hoje, o status da banda é incerto. Alguns registros, como o Spirit of Metal, apontam que a ARCHONS encerrou atividades em 2013, enquanto o Metal Archives ainda a lista como ativa, mesmo sem novidades desde 2019. De qualquer forma, o silêncio atual só reforça o caráter de culto da banda — um nome que poucos conhecem, mas que merece ser redescoberto.

The Consequences of Silence e Buried Underneath the Lies não são apenas registros esquecidos em algum catálogo: são lembretes de que, no submundo do metal, existem joias escondidas esperando para serem revisitadas. Para quem vive o metal com paixão e exige mais do que apenas peso, Archons é uma descoberta obrigatória.

27 agosto 2025

OUTWORLD: a melhor banda de prog metal que você nunca conheceu

Por Júlio Feriato

Útima formação, com o vocalista Carlos Zema.
Em 2006, um disco surgiu para mostrar que o metal progressivo ainda tinha cartas novas na manga. Autointitulado, o álbum de estreia — e também despedida — da banda norte-americana OUTWORLD é um daqueles trabalhos que, ao serem revisitados hoje, deixam uma sensação agridoce: a de que um gigante havia acabado de dar seu primeiro passo, mas nunca chegou a caminhar.

A formação que gravou o álbum era de peso: Rusty Cooley (guitarra), Bobby Williamson (teclados), Shawn Kascak (baixo), Michael Lewis (bateria) e Kelly Sundown Carpenter (vocais). A química era explosiva: Cooley, já reconhecido como um shredder insano, conseguiu equilibrar técnica e riffs sólidos; Williamson trouxe densidade e atmosfera; a cozinha segurava firme e Kelly adicionava dramaticidade rara. Sua voz, aliás, merece destaque: encorpada, versátil e absolutamente única, difícil de comparar a qualquer outro vocalista do gênero. O resultado? Uma fusão de DREAM THEATER e SYMPHONY X com o peso sombrio de NEVERMORE e a agressividade moderna de MESHUGGAH.

Capa do debut autointitulado de 2006.

O repertório é coeso e memorável. “Raise Hell” abre como um soco técnico e cheio de groove, “Riders” oferece refrão grudento sem abrir mão da sofisticação, “City of the Dead” mergulha em texturas sombrias, enquanto “Prelude to Madness” funciona como ponte instrumental digna de clássicos do prog. "The Never" impressiona pelo peso e groove. O clímax vem em “I, Thanatos”, uma verdadeira mini-suíte que resume a proposta da banda: peso, virtuosismo e melodia em igual medida. 

Formação com o vocalista Kelly Sundown Carpenter.

O disco recebeu atenção: saiu em 2006 nos EUA e ganhou edição europeia em 2007, sinal de que o som tinha fôlego para atravessar o Atlântico. Em 2007, a banda venceu o prêmio FameCast Fenom Contest na categoria melhor banda de Metal e melhor vocalista, conquistado por votação popular — um feito que mostrava que não apenas os críticos, mas também o público, estavam atentos.


Um capítulo importante se abriu logo após a saída de Kelly Sundown Carpenter e de Michael Lewis: Carlos Zema — conhecido no Brasil por seu trabalho com as bandas HEAVEN'S GUARDIAN e VOUGAN — assumiu os vocais, enquanto Matt McKenna passou a tocar bateria.

Capa da "Promo 2008".

Essa nova fase rendeu material próprio, como o EP Promo 2008, com quatro faixas (Weltschmerz, Blindness, Faceless Enemy e Purity) que poderiam facilmente figurar em um álbum completo. O registro é revelador da capacidade criativa do OUTWORLD: apresenta uma musicalidade mais agressiva, porém igualmente intensa, equilibrando o virtuosismo característico de Rusty Cooley com linhas vocais carregadas de dramaticidade. Carlos Zema imprime sua marca com uma interpretação poderosa e visceral, contrastando com a sofisticação mais lírica de Kelly Carpenter, o que confere ao material uma identidade própria. Não é exagero dizer que este EP é uma joia pouco explorada da discografia da banda, um retrato de uma fase promissora que acabou não se consolidando por completo.

Além disso, também foram lançados os singles "War Cry" (regravada com a voz de Zema), que ganhou videoclipe, e "Polar". Esse conjunto de registros consolidou a percepção de parte do público, que passou a associar a música e a imagem do OUTWORLD também à fase com Zema.

No entanto, a trajetória do grupo foi marcada por turbulências: Rusty Cooley iniciou o projeto DAY OF RECKONING e chegou a convidar Zema para assumir os vocais, mas o cantor não se identificou com a direção musical proposta.

Houve ainda tentativas de manter a chama acesa, mas, em março de 2009, Rusty Cooley anunciou oficialmente o fim do OUTWORLD. Os músicos seguiram outros rumos: Rusty com o DAY OF RECKONING, Williamson se destacou no EUMERIA, e Zema segue sua carreira com as bandas IMMORTAL GUARDIAN e o HEAVEN'S GUARDIAN.

E assim, o OUTWORLD ficou como uma promessa interrompida. Um único álbum, capaz de impressionar tanto pela técnica quanto pela força das composições, e uma história marcada por trocas de vocalistas, saídas estratégicas e divergências musicais que impediram a consolidação. A verdade é que, se a formação tivesse se mantido estável por pelo menos mais um ciclo, estaríamos falando de um nome de peso ao lado dos grandes do prog metal moderno.

Outworld continua sendo um registro de potencial bruto — um lembrete de que, às vezes, basta um disco para criar uma lenda. O gigante nunca acordou de fato, mas o primeiro passo que deu ainda ecoa forte entre os fãs de metal progressivo que ousam revisitar sua curta, porém intensa, trajetória.

Nota: Não confundir o OUTWORLD americano com outras bandas de mesmo nome espalhadas pelo mundo. Este artigo se refere ao grupo texano de progressive/power metal formado em 1997 e responsável pelo álbum homônimo de 2006.


24 agosto 2025

THE GATHERING – 30 anos de Mandylion, o álbum que reinventou o gothic/doom metal

Por Júlio Feriato

Até a primeira metade dos anos 1990, o doom/gothic metal seguia preso a uma estética essencialmente masculina, sombria e homogênea. Bandas como PARADISE LOST, ANATHEMA e MY DYING BRIDE reinavam nesse cenário lúgubre e introspectivo. Mas no dia 22 de agosto de 1995, um grupo holandês até então restrito ao underground extremo soltava ao mundo um disco que ninguém esperava — mas que todos precisavam ouvir. O nome banda era THE GATHERING. O álbum: Mandylion. E a partir dali, nada seria como antes.

É necessário o nobre leitor entender que, naquela época, mesmo que as bandas acima citadas tenham ousado incluir vocais femininos em algumas de suas músicas, a cena metálica ainda era embriagada pelo peso do death e do doom e  jamais tinha testemunhado algo tão ousado quanto o que o THE GATHERING apresentou. 

E, dentro deste contexto, a banda fez o impensável: uniu peso e densidade a uma voz feminina cristalina, emocional, quase etérea. O resultado? Um álbum que não apenas redefiniu a trajetória da banda, mas também reconfigurou o mapa inteiro do gothic/doom metal mundial. Mandylion abriu portas, quebrou barreiras e mostrou que brutalidade e sensibilidade podiam coexistir em harmonia — algo impensável até então.

Porém, antes de lançar Mandylion, o THE GATHERING caminhava à beira do abismo. O debut Always… (1992) agradou aos mais radicais do doom/death, mas ficou restrito ao underground. Almost a Dance (1993) foi um tropeço, um disco desarticulado que quase encerrou a trajetória da banda. Só que, no meio do caos, surge a figura de Anneke van Giersbergen, uma jovem holandesa de apenas 22 anos, dona de uma voz que parecia não pertencer a este mundo. Com ela, o THE GATHERING entrava no Woodhouse Studios, na Alemanha, em junho de 1995 — e em apenas duas semanas gravava um dos álbuns mais transformadores da década.

Para quem viveu a época, Mandylion foi um baque. Eu mesmo, mergulhado no death metal dos anos 90, me vi desconcertado quando coloquei o disco para rodar. O peso estava lá — riffs densos, atmosferas sufocantes — mas, de repente, vinha aquela voz. Uma voz que não gritava, não urrava: ela sentia. Foi um dos raros momentos em que percebi, ainda adolescente, que o metal podia ser devastador não só pela brutalidade, mas também pela emoção. Talvez tenha sido o disco que mais ouvi no final daquela década — e até hoje continua entre meus favoritos de todos os tempos.

Logo na faixa de abertura, “Strange Machines” deixou claro que o THE GATHERING não seria mais apenas “mais uma banda de doom”. O single virou hino, símbolo da nova era. A música fala sobre viajar no tempo — e soou, ironicamente, como uma viagem no tempo da própria cena, abrindo portais para um futuro que ninguém esperava.

Na sequência, “Eléanor”, talvez uma das mais belas canções da banda, trouxe melancolia e lirismo em doses perfeitas. A interpretação de Anneke Van Giersbergen transformou a faixa em um hino pessoal de muitos fãs, especialmente daqueles que vinham de vertentes mais extremas e se viram cativados por essa mistura de peso e emoção.

“In Motion #1” e “In Motion #2” mostravam a veia atmosférica e hipnótica que a banda exploraria ainda mais no futuro. Um díptico quase cinematográfico, alternando passagens etéreas com explosões de peso — como se cada música fosse uma porta para um universo novo.

O centro do álbum é marcado por “Leaves”, a faixa mais conhecida do disco e talvez a mais icônica da carreira da banda. Aqui, o THE GATHERING atingiu um equilíbrio raro: acessível sem perder densidade, radiofônico sem ser superficial. O videoclipe ajudou a atravessar fronteiras e conquistar até ouvintes de fora do metal, transformando a música em um verdadeiro cartão de visitas mundial.

“Fear the Sea” resgatava a densidade quase claustrofóbica do doom, mas iluminada pela voz de Anneke, que conferia humanidade e fragilidade à brutalidade instrumental.

“Mandylion”, a faixa-título, mergulhava em referências esotéricas e religiosas, ampliando a aura espiritual que permeia o disco.

E por fim, “Sand and Mercury” encerrava o álbum como um épico transcendental, misturando introspecção, peso e atmosfera em um desfecho que não apenas fechava um capítulo, mas coroava um marco definitivo do metal dos anos noventa.

O impacto foi imediato. Mandylion vendeu bem na Europa, chamou atenção da crítica e, principalmente, abriu caminho para toda uma geração de bandas com vocal feminino no metal: WITHIN TEMPTATION, EPICA, AFTER FOREVER, LACUNA COIL, NIGHTWISH. Todas, direta ou indiretamente, foram influenciadas pela ousadia do THE GATHERINGDepois dele, ficou provado que era possível soar pesado e ainda assim belo, agressivo e ainda assim emocional. Em outras palavras: Mandylion quebrou as correntes.

Três décadas se passaram, mas Mandylion continua sendo referência. É lembrado não só como o melhor disco do THE GATHERING, mas como um alicerce da identidade do gothic metal europeu. Ainda hoje, bandas e fãs recorrem a ele como um ponto de partida, como um manual de como se equilibrar entre peso e sensibilidade.

Celebrar os 30 anos de Mandylion é mais que relembrar um disco. É reconhecer o momento em que uma banda prestes a se dissolver decidiu apostar tudo em uma mudança radical — e, com isso, escreveu história. Poucos álbuns tiveram esse poder transformador. Mandylion não apenas marcou época: ele abriu novos caminhos para o metal e continua a ecoar como uma das obras-primas absolutas dos anos 90.


16 agosto 2025

GEHENNA e o feitiço sombrio de "Malice (Our Third Spell)"

Por Júlio Feriato

Em 23 de setembro de 1996, quando a cena do black metal norueguês já se distanciava da fase mais polêmica dos incêndios de igrejas, o GEHENNA lançava seu terceiro álbum de estúdio: Malice (Our Third Spell). Gravado entre junho e agosto daquele ano no Soundsuite Studios, o trabalho contou com co-produção da própria banda ao lado de Terje Refnes. Originalmente saiu em CD pela Cacophonous Records, mas também ganhou versão em cassete via M.A.B. Records e reedições posteriores em CD, em 2000.

Esse álbum é lembrado como o fim da chamada “primeira era lendária” do GEHENNA: foi o último registro com Sarcana nos teclados e Dirge Rep na bateria, e também a despedida do estilo de black metal sinfônico puro que a banda explorava até então. A partir dali, o grupo caminharia para sonoridades mais próximas do death metal.

O título Malice não poderia ser mais apropriado. A música é sombria, maliciosa e agressiva, mas estranhamente bela. A produção soa mais limpa e acessível do que nos discos anteriores, com guitarras menos distorcidas e discretas na mixagem, mas equilibradas com os teclados de Sarcana, que criou arranjos ousados para a época. Vale notar que o DIMMU BORGIR só seguiria por esse caminho no clássico Enthrone Darkness Triumphant, lançado no ano seguinte.

Logo de cara, “She Who Loves the Flames” mostra como o black metal começava a ganhar contornos mais sedutores. A faixa conquistou fãs com sua atmosfera melódica e riffs que lembram o heavy metal tradicional, enquanto os vocais roucos e graves mantêm a aura maléfica característica da banda.

“Touched and Left for Dead” resgata a atmosfera dos trabalhos anteriores, com andamentos arrastados, sintetizadores etéreos e vocais obscuros que reforçam a melancolia. Já “Bleeding the Blue Flame” se destaca pelas melodias que trazem um frescor inesperado ao disco e reforçando a capacidade do GEHENNA de explorar nuances dentro do black metal sinfônico.

O ponto alto do disco está em “Ad Arma Ad Arma”, uma faixa de quase quatorze minutos que descreve um mundo em ruínas após uma guerra nuclear. Apesar da forte carga melódica, a composição transmite uma frieza apocalíptica, combinando perfeitamente com a atmosfera do álbum. As seguintes, “The Pentagram” e “The Word Became Flesh”, confirmam o talento do GEHENNA em compor black metal atmosférico com passagens melódicas bem inseridas.

A faixa-título, por sua vez, funciona como um resumo em três minutos: teclados épicos, guitarras inspiradas, energia maliciosa, explosões sonoras e um encerramento surpreendente ao som de violão.

A recepção da crítica foi positiva. O Metal-Archives classificou Malice como “um exemplo impecável de black metal sinfônico”, enquanto outras análises destacam a evolução nas guitarras de Dolgar e Sanrabb, que finalmente ganharam o peso necessário para dialogar com os teclados de Sarcana. Essa mudança fez o álbum soar mais robusto e consistente em relação ao material anterior.

Ainda assim, o GEHENNA não atingiu a mesma relevância de compatriotas como EMPEROR e DIMMU BORGIR. Um dos motivos pode ter sido o colapso da própria Cacophonous Records, que faliu pouco depois e deixou várias bandas desamparadas — um golpe duro para a promoção de um trabalho desse porte.


Entre fãs, no entanto, Malice segue cultuado e até mesmo considerado injustiçado. Em fóruns e comunidades de metal, não é raro encontrar comentários como este:

“Malice é facilmente o álbum de black metal mais esquecido dos anos 90. Uma verdadeira obra-prima, tanto em termos de composição quanto de som único.”

Apesar de toda a força criativa demonstrada aqui, o Malice (Our Third Spell) acabou sendo o último grande momento do GEHENNA. A banda seguiu lançando álbuns nos anos seguintes, mas nunca mais atingiu o mesmo nível de relevância ou impacto dentro da cena. Para muitos fãs, este disco permanece como o ápice da carreira — um feitiço sombrio e único que o grupo jamais conseguiu repetir.

De qualquer modo, Malice (Our Third Spell) não apenas consolidou o GEHENNA como um nome criativo dentro da cena norueguesa, mas também entregou um dos discos mais subestimados do black metal dos anos 90. 

06 agosto 2025

VENICE MAY: a estreia sublime em "Illusion Is Inevitable"

 Por Júlio Feriato

A banda francesa VENICE MAY nasceu do encontro entre a vocalista ucraniana Natalia Samofalova e o guitarrista e produtor Vincent Bedfert, que juntos criaram uma proposta musical marcada pela introspecção, densidade emocional e uma sonoridade melancólica. Estabelecidos em Paris, eles deram vida a um projeto que, desde o início, preferiu o caminho mais atmosférico ao comercial, apostando em camadas sutis de som e em uma estética sonora quase meditativa. Seu primeiro álbum, Illusion Is Inevitable, lançado em 2018, reflete bem essa filosofia.

Com 12 faixas e produção independente, o disco é uma imersão num universo que transita entre o post-rock, o art rock e o doom atmosférico. A ausência de sintetizadores e batidas eletrônicas — uma decisão deliberada — contribui para a natureza orgânica das faixas, que apostam em guitarras envoltas em reverb, riffs espaçados e ambientes sonoros que ora acolhem, ora sufocam. A escolha estética aproxima o som do Venice May de nomes como KATATONIA, PORTSHEAD e até mesmo ANATHEMA em momentos menos extremos, embora com uma pegada mais minimalista e meditativa.

Diferentemente de bandas mais comerciais, a Venice May não aposta em explosões melódicas nem em refrões pegajosos. Seu som é mais contido, voltado para o peso emocional, sem apelo comercial evidente. A música não se constrói para impressionar nos primeiros segundos, mas para se entranhar aos poucos, com suas camadas revelando texturas a cada nova audição. Nesse sentido, a banda se aproxima mais da tradição do doom melódico moderno do que do rock alternativo radiofônico.

A voz de Natalia Samofalova é o ponto central do disco. Longe de ser apenas bela ou “etérea”, ela carrega uma melancolia densa, quase fatalista. Seu timbre, às vezes resignado, às vezes penetrante, parece emular a voz de alguém que canta não por vaidade, mas por necessidade — como uma tentativa de sobrevivência emocional. Há algo de ritualístico em sua interpretação, como se cada música fosse uma confissão gravada às escondidas.

A produção de Vincent Bedfert é econômica, mas extremamente eficaz. Ele constrói paisagens sonoras que, embora não tenham grandiosidade orquestral, criam uma sensação de profundidade quase cinematográfica. Cada guitarra, cada pausa, cada eco parece milimetricamente calculado para manter o ouvinte num estado de suspensão.

A capa atmosférica de Illusion is Inevitable.

A recepção do disco em sites especializados foi positiva. O portal francês Music Waves deu quatro estrelas, elogiando a construção de atmosferas e o equilíbrio entre delicadeza e peso emocional. O Vinyl Chapters destacou a produção e o controle da dinâmica como pontos fortes, ainda que algumas críticas pontuassem a uniformidade excessiva entre faixas. A Sputnikmusic elogiou a identidade sonora, embora tenha sugerido que certas músicas poderiam ter sido mais concisas.

Entre os momentos mais marcantes estão “A Mouse and a Snake”, que abre o álbum com um clima carregado de pressentimentos, “Hiding Place”, com sua melodia que parece se esconder dentro de si mesma, e “Limerence”, faixa em que o título já carrega todo o desespero contido na voz de Natalia. Já “Devil’s Lap”, com um andamento mais direto, é apontada por parte da crítica como um ponto de desequilíbrio — não por sua estrutura em si, mas por destoar do restante da obra em termos de sutileza.

Illusion Is Inevitable é, acima de tudo, um disco coerente com sua proposta: não tenta agradar, mas também não afasta; não se apressa, mas também não se acomoda. É um álbum de estreia corajoso, que escolhe a lentidão como ferramenta estética e a dor como matéria-prima. E talvez por isso, não seja um álbum para todos. Mas para quem se deixa tocar por atmosferas sombrias e beleza contida, é uma experiência que ecoa bem depois do silêncio final.

 

A história por trás da capa de "Bark of the Moon", de OZZY OSBOURNE

Por Julio Feriato

Ozzy enfrentou horas de maquiagem para criar uma das capas mais marcantes de sua carreira.
Na gélida noite de outubro de 1983, Ozzy Osbourne estava agachado sobre uma árvore caída, coberto de pelos sintéticos e maquiagem protética que o transformavam em um lobisomem. A cena, cuidadosamente construída, era parte da produção da capa e do videoclipe de Bark at the Moon, terceiro álbum solo do vocalista britânico, lançado após a morte trágica de seu guitarrista e amigo Randy Rhoads, no ano anterior.

A locação escolhida foi o tradicional Shepperton Studios, nos arredores de Londres — conhecido por ter recebido produções como Alien, de Ridley Scott, filmes da série Pantera Cor-de-Rosa e até o polêmico show "falso" do Led Zeppelin, The Song Remains the Same. Naquela ocasião, o espaço foi requisitado pelo fotógrafo britânico Fin Costello, responsável pelas capas dos álbuns anteriores de Ozzy: Blizzard of Ozz (1980) e Diary of a Madman (1981), além de clássicos como Alive! (1975), do Kiss.


A produção exigiu um planejamento mais elaborado. Em entrevista à Revolver Magazine, em 2010, Costello revelou que a proposta inicial do diretor de arte da gravadora CBS, Roslav Szaybo, era vestir Ozzy com uma pele de lobo comum. “Ozzy não gostou da ideia e quis algo mais extremo”, disse o fotógrafo.

A solução veio com a ajuda de Sharon Osbourne, que acionou o maquiador de efeitos especiais Greg Cannom, conhecido por seu trabalho no clipe de Thriller, de Michael Jackson. Cannom produziu as próteses em Los Angeles, incluindo garras e moldes faciais. Enquanto isso, Ozzy e Costello buscavam referências em livros sobre lobisomens em reuniões realizadas em pubs londrinos. O processo criativo durou cerca de um mês.

No dia da sessão, Osbourne chegou ao estúdio às seis da manhã para iniciar a transformação, mas as filmagens começaram apenas às dez da noite. “Ele usava apenas meias pretas — o restante do corpo estava coberto por pelos”, contou Costello. “Apesar do frio intenso e de passar mais de cinco horas filmando ao ar livre, Ozzy não reclamou em nenhum momento.”

A icônica imagem da capa é resultado da junção de duas fotografias: uma em 35mm do vocalista caracterizado como lobisomem e outra, usada como fundo, da lua cheia, capturada durante uma sessão anterior no Ridge Farm Studios, em Surrey — local onde o álbum foi gravado. “Tecnicamente, é uma composição imperfeita, mas funcionou perfeitamente”, avaliou Costello. “Assim como Alive!, essa imagem ganhou vida própria com o tempo.”

Quarenta e dois anos depois, Bark at the Moon permanece como um dos registros visuais mais memoráveis da carreira de Ozzy Osbourne — e uma referência duradoura do cruzamento entre heavy metal e imagética cinematográfica de horror.