21 agosto 2017

LACERATED AND CARBONIZED: guitarrista fala sobre álbum 'Narcohell', clipe novo e violência no RJ

Por Julio Feriato / Fotos: divulgação

Da esq. p/ dir.: Jonathan Cruz (V), Caio Mendonça (G), Paulo Doc (B) e Victor Mendonça (Bt)
A banda carioca Lacerated And Carbonized surgiu em 2005 e lançou seu primeiro trabalho em 2011, "Homicidal Rapture". Mas foi com "The Core of Disruption", de 2013, que o grupo realmente caiu nas graças da imprensa e do público headbanger, tanto aqui quanto no exterior. 

E, após turnês pela America do Sul, Europa e vários shows em território nacional, o Lacerated And Carbonized soltou em novembro de 2016 o excelente "Narcohell, produzido por Felipe Eregion (vocalista do Unearthly) e mais uma vez mixado e masterizado pelo produtor alemão Andy Classen (Destruction, Krisiun, Nervosa, Violator) no Stage One Studios, Alemanha.

"Narcohell" é praticamente um soco na cara e exibe composições fortes, diretas, agressivas mas sem deixar o groove de lado. Ou seja, puro Death Metal sem muitas firulas, e que ainda conta com as ilustres participações de Mike Hrubovcak (Monstrosity) e Marcus D'Angelo (Claustrofobia) em duas composições.

Semana passada a banda lançou em seu canal do Youtube o videoclipe para a música "Hell de Janeiro", única composição em português do disco. Aproveitei a deixa e entrei em contato com o guitarrista Caio Mendonça para bater um papo sobre o atual momento do grupo. O resultado você lê a seguir.

Primeiramente quero parabeniza-los pelo álbum "Narcohell"! Quando começaram a compor vocês já tinham em mente do resultado que queriam alcançar?
Quando eu começo a compor um novo disco, sinto que estou em uma área desconhecida, inexplorada. Por mais que você queira que o disco siga por um caminho, o que vai definir como as músicas vão sair é a inspiração do momento. Apesar disto, nosso objetivo era nos superar e fazer nosso melhor álbum. Acredito que conseguimos isto.

Agora que já passou quase 1 ano desde seu lançamento, como você analisa "Narcohell" em comparação aos seus antecessores?
Eu diria que "NarcoHell" é a evolução natural do disco anterior, "The Core of Disruption", por termos nos aprofundado ainda mais na temática com foco na violência do nosso estado, Rio de Janeiro. Sinto também que resgatamos uma abordagem mais rasgada e direta nos riffs, característica forte presente no álbum "Homicidal Rapture".

"Narcohell" é um titulo forte para um álbum. Como surgiu a idéia?
A ideia surgiu após a composição da faixa título. Eu trouxe esse instrumental rápido e agressivo para o ensaio e o Paulo na mesma hora começou a bolar uma letra sobre o narcotráfico, um tema forte para um instrumental forte. Ali mesmo surgiu a primeira frase do refrão, "Living Narcohell...". Ou seja, "Narcohell" começou como letra, virou título de música e, posteriormente, título do álbum.

Vocês têm noticia de como tem sido a aceitação do disco no exterior?
O disco foi lançado no Brasil e EUA no ano passado, e agora, após um ano, o álbum será lançado no México pela Concreto Records. Isto só mostra a força do disco e o interesse em torno dele. Tivemos um feedback muito bom durante parte da nossa última turnê sul-americana e estamos ansiosos para mostrar as novas músicas em nosso próximo giro na Europa.

Uma das coisas que aprecio no Lacerated and Carbonized é o fato de sempre fazer músicas diretas e curtas. Isso é algo proposital?
Nós não impomos limites ou regras na hora de compor, mas acredito que o LAC possua uma característica bem definida, que é a junção de riffs diretos e pesados com uma bateria mais rápida e trabalhada. O mais importante é que as músicas estejam do nosso agrado e, ao acrescentar novos elementos nas composições, você deve sempre se perguntar se você está fazendo o melhor pela sua música.


A banda lançou recentemente um videoclipe para "Hell de Janeiro", única música em português do disco. Por que escolher esta música para gravar um clipe?
Escolhemos esta música por causa da mensagem. Independente do idioma, esta é a letra mais direta já feita pelo LAC e sintetiza muito bem a temática do álbum como um todo. Além disso, a faixa mostra uma faceta diferente do LAC, explorando riffs mais pesados em uma estrutura mais cadenciada.

Dá pra ver que o vídeo foi gravado em uma favela. Como foram as filmagens?
As favelas são um símbolo do descaso do poder público. Na maioria dos casos, falta uma infra-estrutura básica para que os moradores possam viver com um mínimo de dignidade. Esse cenário de abandono foi perfeito para ilustrar a mensagem que a gente queria transmitir com essa música. Conversamos com a produtora CS Music Vídeos que abraçou a ideia e nos apoiou, realizando parte das filmagens no morro Dona Marta e a outra parte em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio.

A letra de "Hell de Janeiro" possui uma forte crítica ao governo e à criminalidade do Rio de Janeiro, mas acredito que isso possa ser estendido praticamente ao país todo, não é?
Sem dúvidas. O Rio de Janeiro passa por um estado de calamidade, mas o restante do Brasil não está muito atrás. Acredito que as pessoas estão gostando do vídeo por se identificarem com ele. Elas vêem o clipe e sabem que aquela é a realidade nua e crua, infelizmente. Curto muito esta letra, pois você consegue encaixá-la em diferentes situações. O trecho "Cidade de ladrão", por exemplo, pode ser direcionado para a criminalidade cotidiana que a gente vê nas ruas do Rio, mas também pode ser usado para o alto escalão da política, vide nosso ex-governador, Sérgio Cabral, preso por roubar/ receber milhões em propinas.

Qual sua opinião quando dizem que usuários de drogas são os maiores financiadores da criminalidade?
O vício em drogas deve ser tratado como doença. Independente do motivo que levou o cara a entrar no mundo das drogas, sair é muito difícil, e até que isso aconteça, muitos usuários perdem seus bens, sua família, amigos... O verdadeiro criminoso costuma ficar impune. É ultrajante saber que uma das maiores apreensões de cocaína já feita na história do Brasil foi no helicóptero de um político e todos os envolvidos estão soltos. (Nota: Confira aqui maiores detalhes sobre este caso)

Eu sempre vejo pessoas reclamando da falta de segurança no país e pedem por mais policiais nas ruas. Particularmente acho que enquanto existir tanta desigualdade social, cidadãos na miséria passando fome e sem poder de compra, a violência urbana não irá diminuir. Qual sua visão á respeito disso?
Você está certo. Para diminuir os índices de criminalidade, você deve ter um entendimento do que leva as pessoas a cometerem esses crimes. Sem ir na causa do problema, por mais que você prenda um bandido, um outro vai surgir no lugar. Do jeito que está, precisamos sim do patrulhamento, mas somente uma abordagem combativa já se mostrou ineficaz. Precisamos de políticas de inclusão social, oportunidades iguais de estudo e trabalho para todas as classes, melhoria nos serviços públicos de saúde e educação, dentre outros fatores. O problema é que nossos políticos só pensam em curto prazo, nas próximas eleições. Falta interesse em investir nesses projetos que só vão gerar frutos 15, 20 anos depois.

Caio, obrigado pela entrevista! Quais os próximos passos da banda agora que o clipe foi lançado?
Muito obrigado por todo o apoio, Julio e Heavy Nation! Estamos embarcando ainda nesse mês de agosto para mais uma extensa turnê européia. Depois disto, temos algumas datas no Brasil e espero encontrar todos os metalheads na estrada! Obrigado e espero que curtam "Hell de Janeiro"! \m/
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11 agosto 2017

ABNORMALITY: brutal death metal com duras críticas às guerras americanas

Por Julio Feriato / fotos: divulgação
Da esq. p/ dir.: Josh Staples (B), Jay Blaisdell (BT), Mallika Sundaramurthy (V), Sam Kirsch (G) e Jeremy Henry (G)
O ABNORMALITY é uma banda americana de brutal death metal radicada em Boston, Massachusetts. Sua discografia ainda é pequena, mas conta com dois belos petardos: "Contaminating the Hive Mind" (2012) e "Mechanisms of Omniscience" (2016).

Musicalmente o grupo segue o caminho já pavimentado por nomes como Suffocation e Immolation, mas talvez o diferencial do Abnormality seja as letras politizadas e a frontwoman Mallika Sundaramurthy, uma headbanger de sangue indiano, que possui um dos vocais mais cavernosos do metal extremo atual! Achou exagerado? Tire a prova nos videos ao vivo que a banda tem no Youtube.

Recentemente entrei em contato com Mallika e ela aceitou bater um papo para falar sobre sua carreira e sobre o atual momento politico dos EUA, com fortes criticas à Donald Trump, seu atual presidente.

Mallika, você pode nos contar um pouco sobre você e sua carreira?
Faz quatorze anos que eu sou vocalista de Death Metal, sendo que estou há doze no Abnormality. Nós lançamos uma demo em 2007 e um EP, "The Collective Calm in Mortal Oblivion", em 2010. Com a Sevared Records lançamos nosso primeiro álbum em 2012, o "Contaminating the Hive Mind".  Atualmente estamos na Metal Blade e com eles lançamos em 2016 nosso segundo álbum, "Mechanisms of Omniscience". Desde então as coisas estão ficando cada vez melhores pra gente.

Na sua opinião qual a maior diferença entre "Mechanisms of Omniscience" em relação aos trabalhos anteriores?
Eu penso que houve uma evolução natural. A gente sempre tenta se superar em cada música nova que compomos, mas sempre mantendo a brutalidade original. Mas acho que a maior diferença veio com Sam Kirsch, nosso novo guitarrista. Tem sido ótimo tocar com ele.

Recentemente vocês fizeram uma turnê ao lado do Napalm Death e do The Black Dahlia Murder. Como foi viajar com essas bandas?
Foi um sonho que se tornou realidade! São pessoas muito legais e foi uma honra compartilhar o palco com bandas deste calibre.

Houve algum fato curioso que ocorreu durante a turnê e que você gostaria de contar?
Realmente foi muito legal ouvir algumas histórias contadas pelos caras do Napalm Death. Você sabe, eles são uma banda totalmente anti-fascismo, e Barney (vocalista) contou que já rolaram brigas com skinheads em alguns shows. Discutir politica com os caras do Napalm foi algo prazeroso.
Apesar de ser uma banda underground, vocês sempre gravam ótimos videoclipes. Qual deles é o seu favorito?
Obrigada! Eu acho que o vídeo para "Mechanisms of Omniscience" é o meu favorito. Tudo tem tudo: ótimos efeitos visuais, efeitos especiais, bons atores, enredo e imagens de banda.

Há uma forte crítica ao governo dos EUA e suas guerras no clipe de "Fabrication of the Enemy". Estou certo?
Sim, você está! Particularmente há uma critica às guerras no Oriente Médio. Acreditamos que elas existem somente para controlar os oleodutos e beneficiar o complexo industrial militar americano.

Eu li em algum lugar que seu pai é indiano. Qual a sua opinião sobre o presidente Donald Trump e sua política contra os imigrantes?
Eu acho que Trump é um presidente ganancioso, ridículo, racista e sexista. Suas políticas são insanas e prejudiciais. Eu sou filha de um imigrante cuja família esteve nos EUA por gerações. Eu acredito que deve haver leis para proteger a América e seu povo, e há muitos caminhos legais para a cidadania.

No Brasil há muitas mulheres na cena metal, mas o machismo ainda é forte por aqui. Como é a cena americana para as mulheres?
Nos EUA também existe machismo, assim como no resto do mundo. O metal ainda é um gênero musical dominado pelos homens, e, infelizmente, mulheres musicistas têm de lidar com comentários sexistas, menos oportunidades e menos respeito no geral. Particularmente acredito que lentamente as coisas estão mudando para melhor, mas ainda há um longo caminho a percorrer para as mulheres terem tratamento justo e igualitário.

O que você sabe sobre a cena brasileira?
Há anos sou muito fã do Sepultura e do Krisiun, eles definitivamente são duas das maiores bandas de metal extremo no mundo. Tenho alguns amigos no Brasil, como a Jacqueline, do Insanity Force; ela sempre me fala sobre a cena metal brasileira. E faz alguns anos que assisti um documentário sobre brasileiras musicistas, o "Women in Metal" (assista aqui)

Vocês já estão compondo novo material?
Sim, estamos bem concentrados nas novas composições. Adianto que como sempre, será algo brutal, técnico e intenso!

Mallika, muito obrigado pela entrevista! Que tal deixar uma mensagem aos headbangers brasileiros?
Obrigada à você, Julio! O Brasil parece ser um país fantástico e cheio de fãs apaixonados. Espero poder tocar por aí em breve! Muito obrigada a todos que apoiam o Abnormality! Cheers!

Discografia: 
"The Collective Calm in Mortal Oblivion" (EP, 2010)
"Contaminating the Hive Mind" (2012)
"Mechanisms of Omniscience" (2016)

08 agosto 2017

E se ROB HALFORD fosse uma DRAG QUEEN?

Por Caio Lima


Não é segredo para ninguém, ou pelo menos para aqueles dotados de um mínimo de bom-senso, que o espaço do heavy metal é um expressamente dominado por homens machistas. Sim, porque somos nós, homens, as figuras supostamente mais importantes desde o surgimento do que hoje pode ser rotulado como metal na cultura fonográfica ocidental. Dessa forma, antes de falarmos sobre o sucesso pungente do cantor e drag queen, Pabllo Vitar, é necessário que reconheçamos algumas coisas. Vamos lá, rapazes, vamos ter uma conversa de homem para homem.

Pabllo Vittar
Primeiro, onde já se imaginou que uma figura tão destoante como a de uma drag queen, ainda mais brasileira, fosse fazer sucesso internacional? É verdade que a carreira do Pabllo ainda precisa subir alguns degraus importantes na escada do sucesso para ser considerada “internacional”, mas, o simples fato de um homem gay, nordestino e afeminado, estar chegando tão perto do sucesso como ele está, incomoda muita gente. Muitos homens, para ser mais exato. 

E, tão logo estas linhas forem lidas, eu sei que surgirão nas cabeças de vários rapazes leitores ideias como: “mas, não é preconceito, é gosto pessoal. O cara canta mal, ele grita”. Sim, meus caros, eu até concordo com vocês. Pessoalmente, não posso ser associado como fã incondicional da carreira ascendente deste cantor maranhense (apesar de meus quadris não resistirem às primeiras notas de “K.O.”, muito menos os meus lábios consigam evitar a dublagem, sempre que toca “Todo Dia”). Justamente por isso, talvez eu esteja mais próximo de vocês do que vocês imaginam. 

O Pabllo Vitar é tudo de que a indústria cultural necessita, especialmente neste momento temporal, para se afirmar “inclusiva”, “democrática”, “à favor da diversidade”, diferentona.

Inclusive, para os mais desavisados, é importante que deixemos clara a escolha do artigo: trata-se de um homem, “o” Pabllo Vitar, ainda que ele possa se identificar com a categoria “fluida” de gênero. “A” Pabllo Vitar é a drag queen, é a personagem que ele encara sempre que veste uma peruca e assume trejeitos femininos em sua expressão de gênero. Quer algo mais lucrativo para esta indústria do que apoiar e levantar uma figura tão revolucionária quanto à de uma drag queen que canta, desde funk, a eletrobrega? Precisamos dar o braço a torcer: a bicha está quebrando barreiras.

Isto nos leva ao segundo ponto do que eu gostaria de tratar neste texto: a atribuição de um preconceito velado ao fato deste não existir, uma vez que, as mesmas pessoas que buscam deteriorar a carreira deste cantor, dizerem-se fãs de figuras do rock e do heavy metal, assumidamente gays, como Fred Mercury, Elton John e até mesmo Rob Hallford (Judas Priest). “Ora, como eu posso estar sendo preconceituoso, se na verdade eu sou fã do Judas Priest? Se eu danço e canto junto com o Mercury, quando ele quer ‘se libertar’”? Pois bem, meus queridos, pasmem: vocês podem, sim, ser preconceituosos quanto à ascensão do Pabllo Vitar e, ainda assim, continuarem como fãs incondicionais destes cantores supracitados e suas bandas. 

Fred Mercury
Isto decorre de um simples fato: nenhum destes caras eram, primeiro, drag queens (apesar de as performances do Mercury levantarem sérias dúvidas nesse sentido), segundo, nenhum deles são-nos contemporâneos e, terceiro, nenhum deles se propôs a cantar, como disse, do funk ao eletrobrega. De onde eu vejo, a suposta “superioridade musical” das obras destes cantores sobrepujariam a sexualidade destes. Ou melhor: apesar de gays, nenhum desses caras se propôs a cantar as bagaceiras que o Pabllo canta. 

E, não me entendam mal, como disse, eu também estou longe de ser um fã incondicional do cantor. Também acredito que ele precise de umas boas aulas de canto, de mais técnica e fluidez performática no palco, para que a sua carreira não seja resumida à “cultura do lacre”. Mesmo assim, eu, enquanto homem gay, bicha, que vivo em um mundo cheio de representações de gênero das mais diversas, e, ainda assim, considero-me fã incondicional (agora, sim!) de inúmeras bandas do heavy metal (do sinfônico ao black), preciso reconhecer que a representatividade que o Pabllo Vitar traz para o público LGBT é inquestionável.

Não se trata aqui de preferências pessoais, até porque, se fosse, precisaríamos rever, com o mesmo olhar de criticidade, uma série de performances ao vivo das nossas bandas de metal preferidas, não? Ou será que nenhum dos front men de nossas bandas preferidas não confundiram um dó menor com um ré maior em pleno show entupido de fãs sedentos? 

O que se apresenta, ao meu ver, é o fato de uma bicha como a Pabllo Vitar (“a”, agora, como artigo que precede um posicionamento político revolucionário e intencional) incomodar bastante os headbangers mais conservadores, pelo simples fato de ela existir e estar fazendo sucesso. E eu sinto muito, pessoal, a cultura LGBT, de algum tempo em diante, não vai mais ficar reclusa às boates, tão estrategicamente localizadas nos recintos mais afastados de nossas cidades. Quer vocês aceitem, quer não, suas críticas à figura deste artista apenas servem para reforçar uma verdade que, de tão velha, é até chata de ser relembrada: somos, todos nós, homens headbangers, machistas, misóginos, LGBTfóbicos e, por tudo isso, incapazes de darmos o braço a torcer quando o assunto é assumir nossos próprios limites e o quão preconceituosas são grande parte de nossas opiniões.

Myrkur
Desnecessário dizer, mas gostaria de finalizar o texto dessa forma, a misoginia de que sofrem grande parte das mulheres em “nossa” cena. Basta que pensemos no fato relativamente recente de misoginia, sofrido pela cantora norueguesa Amalie Bruun, precursora e única responsável pela banda de black metal norueguesa, Myrkur. 

Há alguns poucos anos, falha-me a memória agora para conseguir precisar quantos, mas eu arriscaria, no máximo, dois, essa cantora publicou, na página oficial de seu projeto no Facebook, sobre a necessidade de bloquear o envio de mensagens, atitude que claramente a aborreceu e entristeceu. 

O motivo? Ela estava recebendo ameaças de morte e discursos de ódio dos mais diversos, os quais afirmavam uma mulher “não poder” fazer black metal, pois este seria um espaço pretensamente “dos homens”. Mas, que absurdo, não é mesmo? Uma mulher, esteticamente agradável aos olhos da moda, aventurando-se em uma das áreas mais obscuras, densas e, não curiosamente, masculinizadas do metal. Aquele não era o espaço dela. 

Não é o meu objetivo, aqui, estender-me nos perrengues passados pela cantora, perrengues estes que eu duvido fortemente que tenham cessado. O principal motivo que me leva a não querer falar mais sobre isso é o simples fato de que eu não sou mulher e, por isso, estou longe de entender do que se trata sofrer com discursos misóginos. 

Agora, é no mínimo sintomático que estes caras, talvez os mesmos que odiaram o fato de uma mulher produzir black metal de extrema qualidade (técnica, harmônica e, principalmente, poética), apontem o dedo para o Pabllo Vitar e qualifiquem a sua arte, sua carreira e, por que não, a sua vida, como algo “menor”, amparando-se, notadamente, em argumentos de ordem tecnicista, ou escusando-se em preferências pessoais por cantores assumidamente gays... no cenário do rock e do heavy metal. 

Somos, todos, preconceituosos. Temos, todos, limites em nossa possibilidade de aceitar o outro. Talvez, se aceitássemos e abraçássemos isto, fôssemos capazes de entender que não é da carreira do Pabllo que vocês estão falando, é da sua imagem, é das suas escolhas harmônicas, estéticas e poéticas, que tão claramente divergem daquelas feitas pelo Mercury, John ou Hallford. Mas, não criemos pânico: “a” Pabllo Vitar crescerá independentemente do ódio disparado, porque, acreditem se quiser, nós, LGBTs, estamos acostumados e aprendemos a viver em um mundo que quer a nossa não-existência (algo muito pior do que a morte física). 

E, pasmem! Estamos em todos os lugares.

Mais! Não vamos parar. A Pabllo Vitar é, hoje, uma das figuras mais relevantes no cenário nacional e internacional e ela é apenas mais uma que representa a nossa incômoda e vindoura vitória contra o preconceito. Quer o “mundo do metal” aceite, ou não. E, será que vocês não aprenderam nada com os mesmos mestres aos quais vocês tanto se referem para se autodeclararem “livres de preconceito”?  

Sobre o autor: Caio Lima é professor de história, headbanger e militante da causa LGBTQ em Natal, Rio Grande do Norte.



06 julho 2017

"Não há lugar para parasitas na Polônia", diz vocalista do THUNDERWAR, sobre imigrantes muçulmanos

Por Julio Feriato / Fotos: divulgação


O nome Thunderwar inicialmente nos remete à bandas de Power Metal, mas não se deixe enganar: o que esses poloneses querem mesmo é tocar o mais puro e rápido Death Metal. Tá certo que nem tão puro assim, já que desde o EP “The Birth of Thunder” (2013), o grupo formado por Kamil “Madness” Mandes (Vocal/Baixo), Witold Ustapiuk (Guitarra), Maciej “Olszak” Olszewski (Guitarra) e Vit Argasiński (Bateria) tem preferência em dosar a agressividade característica do Death Metal com riffs melódicos, bem na linha das bandas escandinavas.

Essa característica ficou ainda mais latente em seu mais recente trabalho, o poderoso “Black Storm“, lançado em dezembro de 2016.  “Nosso guitarrista, Witold Ustapiuk, deve ter vendido sua alma ao diabo e recebeu uma poderosa habilidade de criar uma suave receita que mistura Death Metal escandinavo e americano”, brinca Kamil “Madness” Mandes, vocalista e baixista do Thunderwar. Junte isso ao seu timbre vocal que lembra nomes como John Tardy (Obituary), Chuck Schuldiner (Death) e Martin Van Drunen (Asphyx) e teremos uma obra musical bem diferente do que geralmente costuma vir das terras polonesas.

Recentemente tive uma conversa com Mandes para falar sobre o novo disco e algumas respostas me surpreenderam de uma forma não positiva. Em certos momentos ele pareceu um pouco conservador, principalmente quando abordei sobre os imigrantes que fogem da guerra para a Europa, entre outras coisas. Tá curioso? Então leia.


Heavy Nation: No que o Thunderwar difere das outras bandas na Polônia?
Kamil “Madness” Mandes: Eu digo que a Polônia não tem outra banda de metal que consiste em pessoas tão bonitas, inteligentes e bem educadas, como nós. Isso nos distingue. Todos os artistas poloneses são alcoólatras e hedonistas degenerados. Nossos pais nos forneceram valores familiares, amor pelo nosso país e respeito pelos idosos.

Comparado ao EP “The Birth of Thunder” (2013), “Black Storm” apresenta músicas com riffs mais trabalhados e melódicos. Esta será uma tendência cada vez mais forte nos próximos álbuns?
Posso compartilhar um pequeno segredo: nosso próximo álbum será muito mais espontâneo, refrigerado e com uma enorme dose de rock and roll. Nós provavelmente reduziremos as melodias, mas definitivamente não vamos renunciar a elas.

Eu vi muitas pessoas dizendo que Thunderwar seria uma mistura entre Dissection com vocais semelhantes a bandas como Asphyx e Death. O que você acha desse tipo de comparação?
Isso é muito lisonjeiro! Adoramos essas bandas e estamos felizes pelo fato de nossa música trazê-las à sua mente. Obrigado a todos os headbangers brasileiros que acham isso! Nós amamos vocês e suas lindas senhoras! (N. do redator: só lembrando que muitas ‘lindas senhoras’ também são headbangers, viu Mandes?)


As bandas polonesas mais populares do Brasil são Behemoth, Vader e Decapitated. Qual é a sua opinião sobre elas?
Acho que o Vader é a essência do Death Metal polonês e adoro todos os seus discos. Sobre Behemoth, eu gosto do último álbum “The Satanist”. Decapitated também é legal, eles têm esse groove agradável agora. No entanto, das três mencionadas, Decapitated é a que menos ouço. Mas concordo que elas são nossa impiedosa trindade e tenho orgulho por representarem o nosso país.

O público polonês apoia as bandas locais ou têm o costume de valorizar primeiro o que vem de fora?
Eles preferem apoiar e ir aos eventos. Aqui na Polônia as pessoas do metal geralmente se conhecem e consideramos que os shows são uma oportunidade de conhecer gente e fazer um pogo com alguma música boa e agressiva. Há, claro, shows em que a frequência é pobre, mas acho que isso não acontece apenas na Polônia. No entanto, na maioria das vezes um fã de metal polonês é um fanático e um cultista que vive e respira metal. Eu sou um louco desse tipo, e, porra, me sinto bem assim!

O que você sabe sobre a cena brasileira?
Gosto muito de Sarcófago, Krisiun e Sepultura, mas não sou um especialista sobre sua cena. Sei que o Brasil é um enorme império da Death Metal e que seu underground é vasto e bem respeitado. Eu realmente gostaria de abandonar minhas terras do norte gelado e visitar seu reino exótico, pelo menos por alguns dias. Espero que isso aconteça um dia!

Bom, então vou te mostrar 5 bandas brasileiras pra você conhecer. Peço que as ouça e depois me diga suas impressões.
Ok, vamos lá!

DESDOMINUS – “Sacred Scrolls of Holy Lies”

Bela introdução… As melodias me dizem que os músicos são pessoas sensíveis, artistas que você conhece… Mas putz, essa voz realmente não é sensível! Eu diria que parece um Gremlin bravo no microfone. (risos) Em geral, é OK, mas tem muitas melodias. Prefiro a velha escola. Próxima!

NERVOSA – “Hostages”

Conheço essa banda muito bem. Eu assisti ao show delas no Brutal Assault, na República Tcheca e fiquei encantado! É um Thrash Metal muito agradável, do jeito que eu gosto. Geralmente não há muitas mulheres em bandas de metal, mas quando elas se juntam podem mostrar seus dentes! Aliás, a vocalista Fernanda é extremamente hot em suas calças legging!

VALHALLA – “Evil Fills Me” (Live)

O nome me diz que vai ser algo bom. Oh merda, são garotas, assim como Nervosa! São as reais Valkirias, sem brincadeira! É difícil ver bateristas que também são vocalistas e esta é uma linda mulher! Fiquei admirado com sua grande habilidade de tocar e a capacidade de ‘rosnar’ ao mesmo tempo! O gutural dela é melhor do que muitos homens… Eu definitivamente não gostaria de discutir com ela. (risos) Death Metal maravilhoso, eu gostei muito! É um golpe musical impressionante e visualmente é ainda melhor!

AUTOPSE – “Better off Dead”

Thrash Metal com riffs simples, cozinha áspera… Eu gosto disso. E, novamente, uma garota cheia de graça e emoção no vocal. Isso me acalma. Parece que as mulheres estão indo muito bem em sua cena musical! Fiquei curioso e ouvi outras músicas desta banda, fiquei impressionado. Esta música é muito boa, intransigente, agressiva e sinistra! Eles tem o poder, continuem assim!

WARSHIPPER – “And the Darkness Calls”

Tive sentimentos mistos sobre esta banda. O som é ‘ok’, mas sendo honesto não vi nada de especial. Por um lado, tudo parece bem e no lugar certo, mas, por outro lado, falta algo que realmente chame minha atenção. O vocal soa um pouco como Jon Nodtveidt (Dissection).

Como os poloneses estão a ver a crescente imigração de muçulmanos para a Europa por causa da guerra na Síria?
Minha opinião aqui é rigorosa e clara: não devemos deixar os muçulmanos na Europa porque eles querem nos superar culturalmente, sem mencionar o fato de que entre os refugiados pode haver terroristas. E há uma ameaça muito maior, a islamização. Basta dar uma olhada em países onde foi isso longe demais: estupros, assaltos, ataques terroristas. Felizmente, a Polônia não tem esses problemas e isso é porque nossa nação é intolerante, conservadora e tem espírito de luta, excelentes características para nossos tempos.

É claro que não estou dizendo que não há pessoas entre os refugiados que estão realmente fugindo da guerra, mas encaremos os fatos, a maioria são homens jovens, sem educação ou ambições que procuram apenas ‘dobras’ europeias. Não há lugar para parasitas aqui, especialmente se eles estão frustrados e perigosos. Felizmente, à parte do ambiente “multicultural”, a maioria dos poloneses é fortemente contra os imigrantes, o que é bom. Devemos derrubar mesquitas e deportar todos os islâmicos ortodoxos!

Quais são os planos para o futuro?
Bem, estamos trabalhando em nossa fama e riqueza! (risos) Mas, sério, não sei, não sou bom em planejamentos. Prefiro agir espontaneamente e com inspiração.


17 março 2017

KING DIAMOND revela que próximo álbum será inspirado no clássico "Abigail"

Por Daniel Pacheco / Fotos: divulgação


No dia 25 de junho acontecerá na capital paulista um  evento que celebra 25 anos de atividades da produtora Liberation, o Liberation Fest. As atrações provocaram algumas discussões nas redes sociais entre os mais radicais, mas não deixam de ser nomes fortes. Entre eles, Lamb of God, Heaven Shall Burn, Carcass, os paulistas do Test, e como atração principal, o lendário King Diamond.

Para falar sobre este show e algumas outras curiosidades, King nos concedeu uma exclusiva e você confere o resultado logo abaixo.

Vocês estão excursionando no momento tocando o álbum Abigail na íntegra. Como é revisitar essa obra todas as noites?
Sim, nós estamos fazendo três shows especiais esse ano e é o mesmo set que nós estivemos tocando desde novembro. Em 2015 também fizemos uma turnê pelos Estados Unidos com esse set e ano passado fizemos uma turnê pela Europa onde tocamos nos maiores festivais de lá. Essas duas turnês foram gravadas para um blu-ray que irá conter um show ao ar livre na Europa e outro fechado nos EUA. Preciso dizer que eu tive uma amostra grátis de como está ficando a edição final e é algo fora do comum! Há muitas coisas maravilhosas nesse blu-ray para serem vistas e ele deve sair ainda esse ano.

Quando isso estiver terminado, nós começaremos a escrever e a gravar o próximo disco do King Diamond. Como estamos tocando tanto o disco Abigail, há um sentimento de que estamos de volta a 1987, então esse próximo álbum promete ser o melhor que fizemos desde então! Além disso, eu não fumo há bastante tempo agora, além de caminhar 10 kms todos os dias, o que faz meu coração ficar cada vez mais forte, por conta de tudo isso eu sinto muita mais facilidade em cantar as músicas do Abigail hoje, do que em 1987.

Desde que li pela primeira vez o encarte de Abigail, eu notei que você insere o número nove de várias maneiras na história. Isso realmente acontece ou é somente uma observação sem sentido?
Não, você tem toda a razão! O nove é um número mágico, é usado muito no satanismo de LeVay. O nove é um círculo completo, é a vida, entende?

Na história eu digo que dezoito se tornarão nove, há também referência a ele no título de uma das músicas “The 7th Day of July 1777”, isso também é um nove, você só precisa olhar para isso de uma maneira especial. A idade da Miriam referência o nove porque ela tem dezoito anos logo 8+1 = 9. Quando você observa todos os números da data, o sétimo dia de julho de 1777 você terá cinco números 7, e um número 1,5×7=35, o resultado mais um é 36, 3+6, você terá mais uma vez o número 9. É um dos números que você sempre chegará ao final de um ciclo, até mesmo 666 também é uma extensão do nove, quando você o multiplica por alguma coisa. Acho que 666 vai dar algo como dezoito, então oito mais um, será nove de novo, ou seja é um número muito mágico e é por isso que ele está lá.

É verdade que a história veio até você em um sonho onde treze pessoas em capuzes se aproximavam e isso o inspirou a fazer os cavaleiros do disco?
Sim e não. Eu realmente sonhei isso, mas este foi utilizado em uma música do Mercyful Fate, a Nightmare. Houve esse sonho em que eu e meu irmão estávamos em um quarto e ao menos treze pessoas de um culto entraram nele, todos eles encapuzados e apontando para mim, eu então tentei gritar, mas eu não tinha voz, eles diziam para mim: “You’re only living on borrowed/Time from your life” (Você está vivendo apenas um tempo emprestado de sua vida.) e eu usei essa frase na letra da música.

Isso é algo velho, mas a inspiração para Abigail também veio de diversos sonhos que eu tive em uma noite em particular. Eu acordei em meio a uma tempestade – acho importante dizer que as tempestades na Dinamarca não são nada parecidas com as que temos aqui no Texas, lá as tempestades são realmente gostosas, algo muito bom de se ouvir para dormir e relaxar. Enfim, este sonho me acordou e não me atrevi a voltar a dormir, pois não queria perder aquelas memórias que estavam frescas na minha cabeça. Eu tomei um copo de café e então comecei a escrever tudo que eu conseguia lembrar, isso se transformou no Abigail.


Qual foi o sua experiência mais próximo com o sobrenatural?
Houveram muitas experiências que eu vivi com relação a bruxaria, fantasmas, assombrações… Coisas as quais eu não gostaria de comentar. O apartamento em que eu vivia era extremamente assombrado e aparentemente esse espírito me segue até hoje na casa em que moro. Eu quem construi esta casa, ninguém viveu aqui antes de mim e existem quatro pontos quentes aqui onde você pode medir e sentir as coisas. Algo diferente está aqui, meu gato algumas vezes se senta nesses lugares e fica olhando para o teto, rosnando, eu costumo até mesmo brincar com a minha mulher algumas vezes perguntando se ela pode ver esses fantasmas no nosso teto, ela fica toda assustada e me pergunta se estou falando sério e eu respondo, “ué, pode estar lá, nós só não podemos vê-los”. Eu sei que existem coisas aqui, é como se eu tivesse meu próprio fantasma de família particular (Family Ghost).

Existem boatos sobre o nome Melissa, da onde você realmente tirou esse nome?
Melissa era o nome de um crânio que eu ganhei. Eu não sei porque eu tive que dar um nome para ele, mas foi esse nome que eu dei. Ele tinha essa marca imensa na testa, bem profunda, onde ele tinha sofrido uma batida tão forte, que você podia ver onde ele havia quebrado e se regenerado! Obviamente a pessoa sobreviveu ao golpe e me peguei imaginando o que havia acontecido com essa pessoa, como ela levou essa porrada e o que aconteceu com ela depois? Então eu inventei algo para mim mesmo e coloquei na letra da música.

Depois de seus múltiplos infartos em 2010, você passou por uma cirurgia muito delicada no coração que o forçou a mudar uma série de hábitos. Muita gente desacreditou que você iria retornar com a mesma qualidade vocal de antes, mas você voltou ainda melhor!
Essa é a melhor época para se ver e ouvir o King Diamond, a banda é a melhor que poderíamos ter e o show é fantástico! Tudo será levado para São Paulo, todos os equipamentos e palco que foram usados nos EUA e na Europa, então vocês terão uma experiência totalmente inesquecível! Isso eu posso te garantir e é muito legal de se ver, as diferentes gerações de pessoas vindo aos shows. A última vez que estive no Brasil boa parte do público de metal de hoje não havia nascido, ou eram jovens demais para entrar em show de grande porte. Eu vejo isso na tour, o número de pessoas jovens aumentando e o público se renovando, todos eles terão a melhor versão de mim agora.


Existem muitas pessoas que o tem como referência na literatura de horror, mesmo você nunca tendo publicado um romance ou um conto. Você se vê escrevendo um romance?
Mas é claro que sim, aqui está outra coisa engraçada que envolve minha esposa: ela me enganou um dia, me mostrando dois capítulos de Abigail escritos em formato de romance e quando eu comecei a ler, era fantástico! Ela me disse que um dos meus fãs havia enviado isso a ela, então eu disse a pedi para localizar essa pessoa para que pudéssemos trabalhar juntos nisso afinal, eu sei todos os rumos que a história pode ou não tomar, o clima, todas as coisas que aconteceram na mansão, junto com um autor poderíamos desenvolver todo um romance.

Ao final ela confessou que ela mesma havia escrito aqueles capítulos e isso me deixou muito feliz! Com certeza está nos nossos planos escrevermos algo do tipo juntos. Acho que isso não aconteceu ainda somente pela minha falta de tempo, mas acho que vocês podem esperar algo assim vindo por aí nos próximos anos. Abigail, Conspiracy, Puppet Master, eu gostaria muito de fazê-los. Esse também é um meio de que alguém da indústria do cinema se interesse nessas histórias, eles não conseguem ignorar um livro de sucesso e isso seria grandioso.

Como fã de horror, não consigo me lembrar de ninguém antes do King Diamond a fazer um disco conceitual de horror.
Sim, outras bandas haviam feito discos conceituais antes, mas não discos de horror, isso é um dos fatores que tornam Abigail tão especial. Este tipo de música e esse estilo literário colocados juntos realmente criou algo único e provavelmente é por isso que o fez ser tão forte quando você o escuta pela primeira vez. Eu encontrei, logo antes de entrarmos em turnê nos EUA em 2015, uma cópia lacrada da primeira prensagem do Abigail, eu a abri e coloquei na vitrola, até hoje a produção desse disco é algo que me deixa feliz! O som é um absurdo, é assustador, mesmo com toda a tecnologia que temos hoje, farei de tudo para que o nosso próximo disco seja realmente fiel ao som e produção que tivemos com o Abigail, porque é incrível, estamos até trabalhando para relançar desse disco sem a remasterização que foi feita quando ele saiu em CD.

Quais são seus autores de horror preferidos e como eles influenciam na hora de compor um disco?
Bom, infelizmente eu não tenho tido tempo de ler um livro já há algum tempo. Mas vou te dar um exemplo prático sobre minha forma de compor. Veja o Puppet Master por exemplo, eu não lia livros naquela época, acho que por falta de tempo principalmente, esse disco foi inspirado simplesmente por eu estar na Hungria, e por ter visto as pessoas que fabricam fantoches de fato.

Nós estávamos lá em 1999 com o Mercyful Fate, fazendo uma turnê com o Metallica, e fomos tocar em Budapeste. Tivemos um domingo de folga e enquanto andávamos pela cidade, todas as lojas estavam fechadas, então nós fomos para uma parte mais velha de Budapeste e lá eles tem algumas vielas bem estreitas. De repente nos deparamos com uma área que estava cheia de marionetes, era bem mal iluminada, mas ainda assim você podia ver todas essas marionetes penduradas pelas paredes. Era algo bem sinistro, mesmo no meio do dia, então nós andamos um pouco mais até nos depararmos com uma espécie de entrada para um quintal dos fundos, onde ficava o Teatro Nacional de Fantoches, que diabos é isso?

Quando eu penso em um teatro de fantoches, vem a minha cabeça duas pessoas em um barraquinha com os fantoches nas mãos. Mas esse era um teatro real, com fantoches do tamanho de pessoas! Quando eu voltei para o hotel naquela noite comecei a imaginar algo como um teatro onde um titereiro ficaria  em cima do teto, controlando esses marionetes gigantes e talvez alguns deles pudessem vir a vida através de bruxaria ou algo assim e a história se desenvolveu deste ponto.

Então é assim que nasce uma história do King Diamond, obviamente meu modo de pensar foi influenciado por meus autores favoritos de antigamente, poderia citar alguns como um autor inglês chamado James Herbert, ele me deu alguns pesadelos e definitivamente é o meu favorito, Stephen King, aliás quem não gosta dele? H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe, eles são clássicos!

O que você pensa da influência que você exerceu nas bandas de black metal norueguesas? Você vê essa influência como algo real?
Sim, eu vejo isso e me sinto honrado. Pessoalmente fui muito influenciado por Led Zeppelin, mas eu não queria soar como eles. Eu queria comprar uma guitarra e fazer aquele som, coisas como Dazed and Confused. Eu também fui influenciado pelo Alice Cooper e Peter Gabriel eu os vi ao vivo em 72 e o meu show é muito inspirado no que eu vi naquela noite. Vocalmente falando, meu vocalista preferido é o David Byron do Uriah Heep. Então eu fui influenciado por todas essas coisas, mas eu ainda sou eu mesmo, eu me esforcei para ser eu mesmo, é isso que você pode ver também nas bandas de black metal norueguesas, elas não são nem de longe cópias minhas, são uma versão do que eu faço, e ser inspiração para elas é uma grande honra.

Veja bem, isso não é apenas uma imagem para mim e espero que não seja para elas também, pois eu realmente sigo e vivo a filosofia de Anton Szandor LaVey (fundador da Igreja de Satã), eu já fui até sua igreja e passei uma noite toda lá, sou amigo de suas duas filhas, eu inclusive as encontrei na minha última passagem por São Francisco – CA, nós saímos para jantar depois do show, eu, elas, minha esposa e dois seguranças fomos para o restaurante favorito de Anton LaVey, onde ele costumava ir tarde da noite, e isso foi muito interessante, pude sentar e comer onde ele comeu.

Muito obrigado pela entrevista, King!
Muito obrigado por seu tempo! Nos vemos em São Paulo e preparem-se para um espetáculo totalmente fantástico!



05 março 2016

Novo do SHADOWSIDE terá ex-Hammerfall e participação de Andy La Rocque

Por Julio Feriato / Fotos: divulgação



Na estrada desde o inicio dos anos 2000, a Shadowside sempre foi uma banda focada no profissionalismo, uma característica muito bem refletida em seus três álbuns de estúdio: “Theatre of Shadows” (2005), “Dare to Dream” (2009) e o excelente “Inner Monster Out” (2011, gravado na Suécia com produção do renomado Fredrik Nordström, que já trampou com In Flames, Dimmu Borgir, Soilwork e mais uma penca de bandas suecas que você gosta).

Conversei com Dani Nolden para saber mais detalhes do novo traballho, sobre a inclusão do baixista Magnus Rosén (ex-Hammerfall) como mais novo membro do grupo e sobre a participação do guitarrista Andy LaRocque. Ei-la.

Dani Nolden
Dani, na ultima vez que conversamos vocês tinham acabado de voltar de uma turnê europeia ao lado do Helloween e Gamma Ray. Como foi tocar com grandes ídolos e quais as melhores lembranças dessa tour?
Nós nunca tivemos uma experiência ruim como banda de abertura, e com o Helloween e Gamma Ray, todos sempre nos perguntavam como havia sido o show, se o público estava legal, se estávamos curtindo a turnê, se precisávamos de alguma coisa. A admiração que nós tínhamos pelas bandas só aumentou, pois quando éramos crianças eles já eram rockstars, porém ainda assim fomos tratados como iguais por eles o tempo todo. 

Os shows em si foram simplesmente incríveis! Nós já havíamos estado em alguns países como Polônia e Espanha, que sempre são maravilhosos e não foi diferente dessa vez, mas visitamos alguns lugares em que nunca havíamos tocado antes, como Paris, onde tivemos a oportunidade de ser a primeira banda de Metal brasileira a pisar no Olympia, uma casa lendária fundada em 1888. O público nos recebeu de forma muito calorosa, empolgados, gritando o nome da banda em alguns lugares. 

Quando o público grita o nome da banda de abertura, é sinal de que alguma coisa funcionou (risos).

“Inner Monster Out” foi lançado em 2011 e conseguiu uma bela repercussão mundo afora. Mas em termos de Brasil, como você avalia a repercussão por aqui? 
Eu achei excelente e fiquei muito feliz, especialmente porque o “Inner Monster Out” foi um álbum baseado no nosso gosto e nada mais. Foi um risco, um instinto, que acabou se tornando o mais bem-sucedido da banda até hoje, tanto aqui quanto lá fora. É o nosso álbum mais vendido e o que menos fizemos pra vender (risos). Ele originou a nossa maior turnê, também tanto no Brasil quanto no exterior: foram 20 datas só no Brasil e 36 lá fora. 

Os fãs se envolveram muito na divulgação do álbum, todo o trabalho de lançamento do “Inner Monster Out” foi um esforço conjunto maravilhoso. A promoção do disco foi feita praticamente pelo ‘street team’, pela galera que realmente gosta da banda, pois muita gente chegou até nós por causa de amigos. 

Acho que os fãs ficaram tão empolgados com o resultado do trabalho quanto a gente e isso acabou gerando um entusiasmo que contagiou a todos. Foi algo realmente especial.

Recentemente o baixista sueco Magnus Rosén (ex-Hammerfall) foi anunciado como mais novo membro da banda. Isso é algo definitivo ou será somente durante as gravações do novo trabalho?
É definitivo. Magnus é um membro da banda agora. A aproximação inicial tinha como objetivo chamá-lo só para as gravações, mas depois de algumas conversas, ficou claro que ele era o cara certo e fizemos o convite.

Magnus Rosén
Ele tem fama de ser um artista muito perfeccionista. Como está sendo trabalhar com ele? Ele está ajudando a compor novas músicas? 
Sim! Ele está participando das composições, dando opiniões, trazendo as músicas dele, trabalhando conosco como banda, exatamente como sempre fizemos. Está fluindo tudo muito bem! Esse perfeccionismo é algo fundamental para a Shadowside porque mesmo sendo um baixista extremamente técnico, ele entende melhor que ninguém como é essencial que a “estrela” seja a música, e não nós músicos individualmente, mas que isso não significa que a banda não precisa ser sólida. 

Ele é bastante preocupado com entender todos os detalhes, nunca é desleixado com coisas aparentemente fáceis, e isso é algo muito importante pra nós. Nossa música é simples, direta, sem arranjos ou estruturas complicadas, mas tocar isso com precisão é essencial. Eu considero o Magnus um dos melhores baixistas do mundo, não só pela qualidade técnica dele, mas porque ele tem essa sensibilidade em saber o que a música pede. 

A composição está fluindo de uma maneira muito divertida, tranquila e estamos ainda mais empolgados com o resultado até agora do que estávamos com o “Inner Monster Out”.

Foi noticiado que o guitarrista Andy LaRocque (King Diamond) também está contribuindo neste novo álbum. O que exatamente ele tem feito? 
Ele é amigo do Magnus e eles tinham algumas composições juntos que nunca haviam lançado. Como demos liberdade ao Magnus para compor, ele nos ofereceu essas músicas porque achou que tinham a nossa cara – e realmente tinham! Então ele já chegou contribuindo com um material muito legal e vamos ter a honra de ter algumas composições no álbum com a participação do Andy La Rocque como um dos autores!

Devido ao novo lineup e as participações certamente podemos esperar por um grande álbum! Qual a previsão de lançamento?
Ainda não temos uma previsão de lançamento. A gravação será em junho em Gotemburgo, Suécia, novamente com a produção do Fredrik Nordström. A data de lançamento ainda está em aberto, mas eu acredito que deve ser final deste ano, início de 2017.

Dani, obrigado pela entrevista! 
Muito obrigada pelo apoio e pelo espaço do Heavy Nation, e muito obrigada aos fãs pela paciência e empolgação que eles têm tido conosco! Estamos muito ansiosos para gravar e lançar este novo cd; e o fato de vocês estarem constantemente nos dizendo como estão aguardando por esse material nos deixa ainda mais animados. Vai ser bem pesado, e, como o próprio Fredrik disse, é um passo acima com relação ao “Inner Monster Out”. Fiquem ligados!