20 junho 2026

OUBLIETTE e a beleza sombria do álbum "Eternity Whispers"

Por Júlio Feriato


Apesar de estar na ativa há mais de uma década, a OUBLIETTE ainda é uma banda relativamente obscura. Não é um daqueles nomes sempre lembrados quando se fala em black metal americano, e talvez seja justamente isso que a torne uma banda tão especial.

Formada em 2011, em Murfreesboro, no Tennessee, a OUBLIETTE nasceu como um projeto de Mike Low e Emily Low, inicialmente com a ideia de gravar algumas músicas que misturassem black metal, folk e melodias sombrias. Mas o que começou quase como algo caseiro foi tomando forma até se tornar uma banda completa.

O primeiro resultado foi o álbum Apparitions, lançado em 2014, apresentando uma sonoridade ainda em construção, mas já marcada por atmosferas melancólicas, vocais extremos e guitarras melódicas. Em 2018 veio The Passage, disco que consolidou melhor a identidade do grupo dentro do black metal melódico. Depois de seis anos sem um álbum completo, a banda retornou em 2024 com Eternity Whispers, seu terceiro full-length, lançado pela The Artisan Era.

Já nas primeiras audições, dá para entender que o disco não soa como uma tentativa desesperada de chamar atenção. Ele simplesmente se impõe pela qualidade das composições, pela riqueza das guitarras e pela forma como equilibra agressividade, melodia e introspecção. Talvez seja por isso que o impacto de Eternity Whispers seja tão forte.

O disco abre com “Primordial Echo”, faixa que apresenta bem a proposta do grupo. Há uma atmosfera sombria, quase contemplativa, mas logo a música ganha corpo com blast beats, guitarras em camadas e vocais rasgados. O black metal está ali, sem dúvida, mas não de uma forma engessada. A OUBLIETTE trabalha com o peso e a velocidade do estilo, mas deixa espaço para melodias que parecem carregar uma tristeza silenciosa. Não é apenas pancadaria; existe sentimento por trás da violência sonora.

Essa característica fica ainda mais clara em faixas como “With Death’s Shadow” e “Consumed By The Void”. A banda consegue soar agressiva sem abrir mão de um senso melódico muito forte. Os riffs têm aquela urgência do black metal tradicional, mas também carregam um traço introspectivo, quase dolorido. É música extrema, mas com uma profundidade emocional que faz diferença. O disco bate forte, mas não é frio. 

Um dos grandes méritos de Eternity Whispers é ser um álbum pesado e, ainda assim, gostoso de ouvir. Não no sentido fácil ou comercial, mas porque as músicas têm fluidez. As melodias entram, voltam, se transformam, desaparecem por alguns segundos e retornam em outro contexto. É o tipo de disco que combina muito com dias chuvosos, com aquele momento em que você quer se desligar do barulho do mundo e apenas acompanhar cada linha de guitarra. Dá para ouvir de olhos fechados, deixando as camadas se revelarem aos poucos.


Também há algo de muito visual na música da OUBLIETTE. “Dreams of Nevermore”, por exemplo, tem uma melancolia que parece crescer por dentro da faixa. Não é uma tristeza teatral ou forçada, mas uma sensação de distância, perda e recolhimento. Já “Ember’s Embrace”, com participação de violino, amplia essa atmosfera sem parecer um detalhe decorativo. O violino entra como parte natural do clima do álbum, reforçando esse lado mais sensível da banda sem suavizar demais a proposta.

O encerramento com “Vanish” funciona como uma síntese do álbum. A faixa tem velocidade, peso e intensidade, mas também uma sensação de despedida, como se a música fosse se desfazendo no próprio ar. É um final coerente para um disco que fala menos pela brutalidade isolada e mais pela forma como transforma essa brutalidade em atmosfera. A OUBLIETTE entende que o black metal pode ser agressivo sem ser unidimensional. Pode ser cortante, mas também emotivo. Pode esmagar, mas também envolver.

Um dos pontos mais interessantes da banda é a presença de três guitarristas: Mike Low, Andrew Wampler e Chris Austin. Isso não é comum no black metal, um estilo que normalmente funciona com uma ou duas guitarras. No caso da OUBLIETTE, porém, essa formação não parece exagero nem exibicionismo. Pelo contrário: as três guitarras são usadas para criar camadas, harmonias e linhas melódicas que se cruzam o tempo todo. Enquanto uma guitarra sustenta a base mais ríspida e tradicional do gênero, outra abre melodias mais emotivas, e uma terceira reforça texturas, pequenos detalhes ou passagens mais atmosféricas. É uma arquitetura sonora que ajuda a explicar por que Eternity Whispers soa tão cheio, mesmo sem perder força.

Também há uma bagagem interessante entre os integrantes. Mike Low tem ligação com bandas como INFERI e ENFOLD DARKNESS, nomes importantes dentro do death/black metal técnico e melódico americano. Andrew Wampler aparece associado a projetos como OPHIUCHUS, além de passagens por nomes do underground extremo. Spencer Moore, baterista do disco, também carrega um currículo forte, com conexões envolvendo ARCHSPIRE, ÆTHER REALM e INFERI. Cole Gerdeman vem do WHILE YOU WERE ASLEEP, enquanto Chris Austin teve passagem pelo MORTIUS. Essa experiência aparece no álbum: a OUBLIETTE não soa como um projeto de músicos tentando encontrar um caminho, mas como uma banda que sabe exatamente onde quer chegar.

O disco ainda conta com participações que ajudam a enriquecer sua textura. Ben Karas, conhecido por seu trabalho no THANK YOU SCIENTIST e no WINDFAERER, toca violino em “Ember’s Embrace”. Dave Palenske, do VOLCANDRA, participa nos vocais de “Consumed By The Void”, enquanto Stevie Boiser, do INFERI, aparece em “Dreams of Nevermore”. São participações pontuais, mas bem encaixadas, que reforçam a conexão da OUBLIETTE com uma cena extrema mais técnica, melódica e sofisticada.

Eternity Whispers é um disco que merece ser ouvido com calma. Não é só mais um lançamento de black metal melódico perdido no catálogo de uma gravadora. É um trabalho de composição cuidadosa, com riffs fortes, melodias marcantes e uma sensibilidade que torna a experiência muito mais profunda. 

A OUBLIETTE continua sendo uma banda pouco conhecida, mas talvez isso combine com a própria música: um som que parece vir de um lugar escondido, chuvoso, distante, feito para quem ainda gosta de se perder dentro de um álbum inteiro. E isso já é um mérito e tanto.

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