Por Júlio Feriato
Quando se fala em black metal, a cabeça de muita gente ainda vai automaticamente para a Noruega dos anos 90: corpse paint, igrejas queimadas, frio, floresta, anticristianismo e toda aquela aura de escândalo que virou mitologia dentro do metal extremo. Só que, de vez em quando, aparece uma banda que lembra uma coisa simples: o terror não precisa vir da Escandinávia. Ele pode sair de Tangerang, em Banten (província da Indonésia, na ilha de Java), envolto em mortalha, cheiro de incenso, túmulo no palco e uma atmosfera que parece menos show de metal e mais cerimônia fúnebre invocada no meio da madrugada.
Essa banda atende pelo nome de TAHLILAN.
Formado em 2008, o grupo indonésio se move dentro do black metal, mas seria pobre demais resumir sua proposta a isso. O TAHLILAN parece mais interessado em transformar o palco num ritual do que simplesmente tocar música extrema. E não é um ritual neutro: há ali uma combinação de funeral, folclore, misticismo e satanismo. A própria identidade da banda já carrega um peso simbólico enorme: “tahlilan” remete a uma prática religiosa e comunitária muito presente na Indonésia, ligada a orações coletivas, lembrança dos mortos e rituais realizados após o falecimento de alguém. Ou seja, enquanto muita banda ocidental brinca de profanar símbolos religiosos alheios, o TAHLILAN parte de um imaginário fúnebre real, próximo, culturalmente reconhecível — e o contamina com o vocabulário sombrio do black metal.
É aí que a coisa fica interessante.
A Indonésia é o país com a maior população muçulmana do mundo. Não estamos falando de uma banda surgida em um cenário europeu mais secularizado, onde chocar a igreja já virou quase uma estética vintage. Estamos falando de um país em que religião, tradição, comunidade e cotidiano caminham de forma muito mais próxima. Nesse contexto, uma banda de black metal que sobe ao palco com visual de pocong (figura fantasmagórica do folclore indonésio, geralmente representada como um cadáver envolto em mortalha branca) não está apenas copiando clichê de corpse paint. Está mexendo com imagens locais, com símbolos de morte, com medo popular, com memória religiosa e com a fronteira desconfortável entre o ritual, o espetáculo e a blasfêmia.
E convenhamos: perto disso, muito black metal norueguês começa a parecer teatro infantil de inverno.
Claro, a frase é provocação. A importância histórica da cena norueguesa é indiscutível. Sem ela, provavelmente boa parte do black metal moderno nem existiria do jeito que conhecemos. Mas há algo no TAHLILAN que soa mais visceral justamente por não parecer uma encenação importada. Quando o vocalista aparece sendo carregado até o palco como um cadáver preparado para o enterro, coberto por kain kafan (tecido branco usado como mortalha em rituais funerários islâmicos), com maquiagem ensanguentada, enquanto os outros músicos surgem em robes vermelhos e rostos pálidos, a sensação não é a de uma banda querendo apenas “parecer malvada”. A sensação é a de que alguém abriu uma porta que talvez devesse permanecer fechada.
E aí entra outro elemento fundamental: o satanismo.
O vocalista do TAHLILAN costuma abrir apresentações gritando “Sataaan” ou “setan” (“demônio”, “diabo” ou “satã”, em indonésio). Isso impede qualquer tentativa de suavizar demais a proposta da banda como se fosse apenas folclore, apenas teatralidade ou apenas resgate cultural. Há, sim, uma camada satânica evidente na comunicação e na performance do grupo. A diferença é que esse satanismo não aparece de forma genérica, como mera cópia do manual escandinavo. Ele surge misturado ao imaginário funerário local, ao pocong, ao tahlilan, ao kain kafan, ao incenso, ao medo da morte e aos símbolos de uma sociedade majoritariamente muçulmana.
É justamente essa mistura que torna o TAHLILAN tão perturbador.
O mais impressionante é que a banda não se contenta com a estética básica do metal extremo. Eles levam para o palco incenso, objetos fúnebres e elementos que remetem diretamente ao universo dos ritos mortuários. Há relatos de uso de mortalha envelhecida, de pedra tumular real e de uma encenação que aproxima o show de uma cerimônia macabra. Isso não é simplesmente “visual pesado”. Isso é dramaturgia de horror local aplicada ao black metal. É como se o TAHLILAN tivesse entendido que o verdadeiro medo não está no símbolo genérico do demônio desenhado numa capa, mas naquilo que o público reconhece como parte de sua própria cultura.
Musicalmente, o grupo trabalha dentro do black metal místico e teatral, com uma atmosfera soturna, arrastada e carregada de espiritualidade sombria. O disco/EP Perjalanan Menuju Tuhan (“Jornada rumo a Deus”, em tradução livre) já entrega no título um paradoxo poderoso. Não é um nome satanista óbvio. Não é provocação barata do tipo “morte a tudo”. É uma frase religiosa, quase devocional, colocada dentro de uma embalagem extrema. As faixas, com títulos como “Dosa Bertahta Dalam Jiwaku” (“O pecado entronizado em minha alma”, em tradução aproximada), “Ritual Penghantar Doa” (“Ritual de condução da oração”), “Menembus Dinding Kematian” (“Atravessando a parede da morte”) e “Kusambut Kematianmu” (“Eu recebo a sua morte”), reforçam essa obsessão por pecado, oração, morte, passagem e transcendência.
E talvez esteja aí o grande diferencial do TAHLILAN : eles não parecem interessados apenas em negar a religião de modo adolescente, nem em fazer satanismo de cartilha escandinava. O que a banda faz é mais estranho e, justamente por isso, mais perturbador. Eles pegam símbolos associados à morte, à oração, ao luto e à tradição, e os atravessam com uma estética satânica, teatral e extrema.
O TAHLILAN tem algo que muita banda de black metal perdeu: perigo cênico.
Não necessariamente perigo real, mas aquela sensação de que o palco pode sair do controle, de que o show não é só entretenimento, de que existe alguma coisa errada acontecendo ali. O vocalista vestido como pocong não é apenas um personagem. É uma imagem de morte reconhecível para o público local. O incenso não é apenas fumaça para criar clima. A pedra tumular não é apenas cenário. O grito de “Sataaan” não é apenas bordão. Tudo aquilo constrói um ambiente em que o metal extremo se mistura a funeral, transe, superstição, provocação religiosa e teatro ritualístico.
É o tipo de banda que mostra como o black metal fica muito mais interessante quando para de tentar imitar a Noruega e começa a dialogar com seus próprios fantasmas.
E os fantasmas da Indonésia, pelo visto, são bem mais assustadores.
No fim das contas, o TAHLILAN não chama atenção apenas por ser uma banda de black metal em um país muçulmano. Isso, por si só, já renderia curiosidade. Mas o que faz a banda ser realmente fascinante é o modo como ela transforma esse contexto em linguagem. Eles não pegam o black metal europeu e apenas colam por cima uma maquiagem local. Eles fazem o contrário: pegam o medo local, o rito local, o imaginário funerário local, o satanismo e a tensão religiosa, e jogam tudo dentro do black metal.
O resultado é uma banda que parece saída de um velório profanado, de uma reza interrompida, de uma noite em que a fronteira entre os vivos e os mortos ficou fina demais.
Enquanto muita gente ainda está presa ao velho manual do black metal escandinavo, o TAHLILAN aparece como um lembrete brutal: o extremo não tem passaporte, não fala apenas norueguês e não precisa de neve para ser sombrio. Às vezes, basta uma mortalha, um microfone, um grito de “Sataaan” e um palco tomado por incenso.

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