11 janeiro 2026

Gene Hoglan sobre Chuck Schuldiner: "Ele não era muito fã de pessoas ou da indústria musical"


Na série "Minhas 3 Perguntas Para" de Jonathan Montenegro, o baterista Gene Hoglan (TESTAMENT , DARK ANGEL, DETHKLOK, STRAPPING YOUNG LAD ) compartilhou suas experiências de sua época na lendária banda de metal DEATH, da qual fez parte de 1993 a 1995.

Ele também falou sobre Chuck Schuldiner, o mentor do DEATH , e disse: “ Chuck  era, no fundo, uma pessoa muito… Ele era uma pessoa muito pacífica. Amava animais. Amava jardinagem. Não era muito fã de pessoas ou da indústria musical, mas gostava dos seus amigos; gostava dos seus animais. Esse era  o Chuck. ”

“Além de ser um dos padrinhos do death metal, ele também era um ótimo cozinheiro. Pronto. Ele cozinhava muito bem. Nossa, ele preparou um monte de coisas incríveis para nós durante aqueles anos que passamos juntos. Isso foi muito legal. Seu legado sempre viverá.”

“Eu e [os ex  -membros do DEATH]  Bobby Koelble  e  Steve DiGiorgio , temos [a banda tributo]  DEATH TO ALL  , e começamos uma  turnê com o DEATH TO ALL  na semana que vem aqui nos Estados Unidos. Então, é isso. E é sempre muito divertido tocar  as músicas do Chuck e fazer com que soem legais.”


Em uma conversa de 2019 com Andrew McKaysmith do podcast “Scars And Guitars” , Hoglan discutiu seu período trabalhando com o DEATH . Ele disse na época: “ Chuck  era muito mente aberta e gostava que seus músicos que tocavam com ele simplesmente buscassem o melhor que pudessem fazer. Toda vez que eu criava uma batida maluca, ele dizia: 'Estou bem. Posso tocar meus riffs em cima das suas batidas, então se é isso que você quer, vá em frente. Solte a imaginação; mande ver. Estou bem aqui, então continue fazendo o seu som.' Nesse sentido,  trabalhar com Chuck  sempre foi um verdadeiro prazer. Não havia nenhuma restrição — e era bem óbvio que ninguém me limitava na bateria.”

“Eu toquei tudo em  Symbolic . Definitivamente há alguns exageros, [mas] ele nunca disse: 'Ei, não toque isso' ou 'Isso não está funcionando'. As únicas vezes que me lembro de algo assim ter acontecido foram duas ocasiões diferentes. Uma foi nas  sessões de Individual Thought Patterns  , e foi quando [o produtor]  Scott Burns , enquanto eu gravava  'Jealousy' , me lembro de  Scott  dizendo: 'Ei, cara. Não estou curtindo essa batida. Talvez você possa simplificá-la?' Eu respondi: 'Claro, sem problema'.”


"Aí, em  'Symbolic' , o [produtor]  Jim Morris  praticamente disse a mesma coisa — tipo, 'Não tenho certeza sobre essa'. O engraçado é que, na batida em que o  Jim Morris  disse 'Isso não vai acontecer', era uma batida que eu roubei do  Sean Reinert . Era algo do álbum  Human … quanto ao  Chuck , ele sempre foi muito gentil, tipo, 'É, cara. Faz o que você sabe fazer. Vai ficar ótimo.'"

“Chuck  era um cara bem complexo. Em alguns dias, certas coisas o afetavam de maneiras que talvez não afetassem você ou eu…  Chuck  não tinha muita confiança na indústria da música. Eu entendo isso — eu compreendo totalmente… Ele geralmente era muito legal de se trabalhar, e nos divertimos bastante até ele precisar tomar as decisões necessárias para manter a sanidade. Quando ele teve que deixar  o DEATH  de lado depois do  álbum Symbolic  , ele dissolveu  o DEATH  e precisou seguir em frente. A melhor maneira para  Chuck  seguir em frente foi com o lançamento de  CONTROL DENIED.”

O podcast foi ao ar em 2023, e você pode conferir no video abaixo.


10 janeiro 2026

BANGERS OPEN AIR 2026: IN FLAMES e o legado do “som de Gotemburgo”

Por Júlio Feriato

Uma das confirmações mais comentadas do Bangers Open Air 2026 é a participação do IN FLAMES, banda sueca que figura entre as mais influentes do metal melódico mundial. Para entender o peso dessa presença no line-up deste ano, é preciso olhar não só para o impacto do grupo ao longo de mais de três décadas, mas também para como eles e sua cidade de origem moldaram uma parte essencial da história do metal.

A banda surgiu no início da década de 1990 em Gothenburg (Gotemburgo), na Suécia, num cenário onde músicos se reuniam, trocavam ideias e experimentavam misturas sonoras sem pensar em rótulos. Com o tempo, aquilo que era apenas um jeito local de tocar evoluiu para o que se conhece hoje como “Gothenburg sound” — uma vertente do death metal melódico que equilibra agressividade com melodias e refrões mais acessíveis do que o death metal tradicional.

Esse estilo nasceu, em parte, da convivência e influência entre bandas que frequentavam os mesmos palcos e estúdios da cidade, assim como da troca de referências com outros centros do metal — desde o death metal de Flórida até a New Wave Of British Heavy Metal e o thrash europeu.


O IN FLAMES não foi só mais uma banda de Gotemburgo: ao longo dos anos, eles se tornaram símbolo desse som melódico, influenciando gerações de músicos que vieram depois. Sua trajetória demonstra não apenas evolução musical, mas também uma capacidade curiosa de ampliar os limites do metal. Se os primeiros discos tratavam de riffs técnicos embutidos em melodias, parte da carreira posterior da banda explorou sonoridades mais modernas, aproximando-se de outras vertentes sem jamais abandonar a intensidade que os tornou relevantes.

Isso explica por que a presença do grupo no Bangers Open Air 2026 causa tanto burburinho. Não se trata apenas de ver um nome consagrado no line-up, mas de assistir ao vivo uma banda diretamente conectada à formação de um gênero que, até hoje, reverbera no metal global.


Desde sua formação em 1990 na cidade de Gothenburg, Suécia, o In Flames construiu uma carreira marcada por mudanças sonoras e experimentação, sem perder sua identidade. A discografia da banda é extensa e reflete essa evolução:

* Discos da primeira fase como Lunar Strain (1994) The Jester Race (1996) Whoracle (1997) e Colony (1999) são considerados clássicos do death metal melódico, com guitarras harmonizadas e velocidade técnica que ajudaram a definir o estilo.

* Clayman (2000) consolidou o grupo como um nome central no metal europeu, misturando melodia intensa com uma estrutura pesada que soava intrigante e acessível ao mesmo tempo.

* Nos anos 2000, álbuns como Reroute to Remain (2002) e Soundtrack to Your Escape (2004) incorporaram elementos mais modernos e experimentais, aproximando a banda de palcos maiores e de um público mais amplo — inclusive nos Estados Unidos e na Europa.

* Come Clarity (2006) é frequentemente citado como um dos melhores discos da carreira, reunindo a agressividade do início com melodias mais refinadas e acessíveis.


* Álbuns posteriores como A Sense of Purpose (2008), Sounds of a Playground Fading (2011), Siren Charms (2014), Battles (2016), I, The Mask (2019) e o mais recente Foregone (2023) mostram uma banda que segue experimentando sem abrir mão da intensidade e da técnica que a tornaram influente.

Essa trajetória não foi linear nem isenta de debates entre fãs — alguns álbuns mais experimentais dividiram opiniões — mas ela ilustra o compromisso da banda em evoluir sem perder sua marca no metal pesado.

Mas, o que esperar do show no Bangers Open Air 2026?

Em termos de performance ao vivo, o In Flames costuma equilibrar passado e presente com naturalidade. Mas não espere por músicas da fase clássica, pois os shows recentes mostram que a banda apenas revisita clássicos como Cloud Connected, Only for the Weak e Take This Life, e integra músicas mais novas como The Great Deceiver e State of Slow Decay em seu repertório — um sinal de que o show no Bangers deve misturar gerações de fãs e épocas da banda.


O vocalista Anders Fridén continua sendo um ponto focal da performance, alternando entre guturais agressivos e vocais limpos mais melodiosos, e a banda inteira demonstra grande sinergia no palco mesmo após tantos anos de carreira.


Com uma carreira que atravessa mais de três décadas, a expectativa é que o setlist — caso seja tão eclético quanto nos shows recentes — traga de 15 a 20 músicas, passando por diferentes fases da discografia e oferecendo uma experiência completa para fãs antigos e novos.

Além disso, a experiência ao vivo da banda é frequentemente descrita como energética, exigente e envolvente: não importa se o público conhece cada álbum ou chegou lá pela primeira vez, a performance ao vivo tende a capturar atenção com riffs marcantes, transições nítidas entre melodias e momentos mais explosivos, e uma presença de palco que respeita tanto os cânones do metal quanto a própria história do In Flames.

IN FLAMES no Bangers Open Air 2026 representa mais do que apenas mais um show internacional em um festival brasileiro. É a oportunidade de ver ao vivo um grupo que não somente ajudou a moldar um gênero, mas que continua a dialogar com diversas eras do metal sem abrir mão de sua personalidade. Se há algo que se pode esperar do set deles é exatamente essa caminhada — de Gotemburgo para o mundo — traduzida em riffs, melodias e energia que atravessam gerações. 



27 novembro 2025

Freezin’ Hell, debut do SIECRIST, revelou o potencial do thrash metal capixaba nos anos 90

Por Júlio Feriato

O Espírito Santo nunca foi exatamente um terreno fértil para o metal brasileiro. A cena existia, claro, mas raramente gerava algo que escapasse do circuito local — e justamente por isso a exceção chamada SIECRIST ganha ainda mais peso.

Em 1992, a banda lançou pela Cogumelo Records seu debut Freezin’ Hell, um LP que não apenas capturou o clima do metal extremo nacional do começo dos anos 90, como também demonstrou uma qualidade incomum para o underground brasileiro da época.

Com Adriano Scaramussa (vocais e guitarra), George Motta (guitarra), Cláudio Neto (baixo) e Adilson Schwartz (bateria), o SIECRIST sabia exatamente o que queria fazer: thrash metal duro, direto, sem frescura, mas ao mesmo tempo muito bem trabalhado. Ouvindo o disco na época — e até hoje — era fácil perceber as influências clássicas que qualquer headbanger reconhecia na hora, como a técnica do EXODUS ou a aspereza marcial do SODOM. No entanto, tudo vinha filtrado pela personalidade do grupo; eram referências absorvidas, digeridas e devolvidas com identidade própria.

O álbum abre com uma intro sombria que já coloca o ouvinte na temperatura certa antes de desaguar na faixa-título. Esta prepara o terreno com riffs cortantes e velocidade segura, deixando claro, logo de saída, que a banda fazia thrash com convicção. “Depression Suicide” vem na cola, carregando o peso emocional e rítmico que reforçava a identidade crua do grupo. Já “Agony”, embora mais densa em clima, segue totalmente ancorada no thrash, exibindo troca de andamento, variações na palhetada e vocais diretos, tudo no ponto.

Grande parte desse impacto também é mérito da produção de Marcos Gauguin, muito conhecido por ter trabalhado com SARCÓFAGO, THE MIST, OVERDOSE, entre tantos outros nomes que estavam no seu auge. Com o SIECRIST não foi diferente, pois Freezin’ Hell soa surpreendentemente claro e consciente de si. Tudo é equilibrado, com intenção. As guitarras têm corpo, a bateria não se perde quando acelera, e os vocais encaixam no ponto certo, sem atropelar ninguém. É um álbum que exibe maturidade técnica e um senso de direção acima do que era feito em 1992.

A capa de Kelson Frost fecha o pacote com a mesma força. Sombria, direta e visualmente marcante, ela poderia figurar facilmente ao lado de lançamentos europeus da época. É o tipo de arte que, só de bater o olho, já indica que o disco merece ser ouvido.

Formação do álbum "Soul in Fire".
Formação do álbum Soul in Fire.

Com um início tão promissor, o contraste com o que veio depois é inevitável. Soul in Fire (1995) tentou manter a chama acesa, apresentando-se mais agressivo e flertando com o death metal de forma mais evidente. Contudo, a partir daí a trajetória se perdeu, com discos fracos que não sustentaram o que a banda parecia prometer. A impressão final é que Freezin’ Hell e seu sucessor formam um instante raro de clareza artística dentro de uma carreira que poderia ter sido maior.

Talvez por isso o debut tenha ganhado status de peça cult ao longo dos anos. Nunca relançado em CD por aqui (nota: existe uma versão japonesa, mas dificílima de encontrar), ficou restrito a poucas cópias — hoje disputadas — e a uploads no YouTube. Acabou virando presença constante em listas de raridades nacionais e funciona como um retrato sincero de uma época em que o metal extremo brasileiro ainda queimava com intensidade.

Ouvir Freezin’ Hell é revisitar uma banda que, por um momento breve, parecia pronta para brigar em patamar mais alto e que deixou, nesse curto intervalo, um dos discos mais sólidos e bem acertados que o metal extremo brasileiro já produziu.


12 novembro 2025

TETRARCH renasce com fúria e sem pedir desculpas em "The Ugly Side of Me"

 Por Júlio Feriato

“The Ugly Side of Me" reafirma o poder do nu-metal com refrões grudentos, peso e autenticidade.”
Quando o TETRARCH lançou Freak em 2017, muita gente que cresceu ouvindo metal nos anos 2000 parou pra prestar atenção. O nu-metal já vivia sua segunda onda — com Korn e Limp Bizkit ressurgindo em turnês nostálgicas —, mas o quarteto de Atlanta parecia entender o espírito da coisa. Pegaram o que o gênero tinha de melhor, atualizaram o som pro século XXI, misturaram um toque de metalcore e entregaram um disco que poderia facilmente ter saído em 2002 sem soar datado.

Mesmo assim, confesso que demorei para digerir o som do TETRARCH. Talvez seja pelo meu velho preconceito contra o nu-metal (algo que levou anos para me libertar), mas ao ouvir o segundo álbum, Unstable (2021), a banda me “ganhou”. Não tem como ficar indiferente aos refrões grudentos vociferados pelo vocalista e guitarrista Josh Fore. E quando vi que a guitarrista Diamond Rowe é uma mulher negra, tudo ficou ainda mais interessante — sim, representatividade importa —, ainda mais sendo ela uma das principais compositoras do grupo.

Agora, com The Ugly Side Of Me (lançado em 9 de maio pela Napalm Records), o TETRARCH mostra que não pretende sair da rota que traçou.

E não é nenhuma surpresa. O grupo segue fiel à própria fórmula — sem mudanças bruscas, sem experimentos desnecessários. São trinta minutos de nu-metal puro, daqueles que poderiam tocar entre "Issues" (do Korn) e "Chocolate Starfish and the Hot Dog Flavored Water" (do Limp Bizkit) sem ninguém perceber diferença. A faixa de abertura, "Anything Like Myself", é praticamente uma homenagem ao Korn, com baixo pulsante e uma atmosfera sombria de sintetizadores que aparecem e somem nos momentos certos. "Best Of Luck" carrega o mesmo DNA, lembrando o brilho de "Twisted Transistor".

Já "The Only Thing I’ve Got" traz aquela pegada emocional do Linkin Park da era Meteora — refrão gigante, feito pra estádios, e uma produção limpa que realça o impacto. E aqui vale destacar: os refrões são grudentos no melhor sentido, daqueles que grudam na cabeça e fazem a gente querer voltar e ouvir de novo. Há sinceridade nas letras também — em "Never Again (Parasite)", Josh Fore solta um “I gave you my trust, but never again” com uma entrega que soa real, quase como um desabafo. Essa honestidade é o que sempre manteve o nu-metal vivo entre quem cresceu com ele: uma mistura de fúria, vulnerabilidade e melodia.

Mas aqui está o ponto: o TETRARCH é ótimo no que faz, só que essa fidelidade ao estilo tem um limite. Dá pra se manter consistente sem mudar o estilo — o CANNIBAL CORPSE e o OBITUARY provaram isso —, mas ambos foram pioneiros, não seguidores. O nu-metal já teve seu auge e sua queda, e agora vive um renascimento. E The Ugly Side Of Me, embora coeso e divertido, ainda pisa em terreno conhecido. Se a banda quiser ir além, precisa encontrar algo que seja realmente seu — uma identidade que mostre pra onde o gênero pode evoluir, e não apenas revisitar o passado. Mas, se a intenção for justamente essa, então o TETRARCH é vitorioso.

Mesmo assim, pra quem não viveu a época, o álbum é uma bela porta de entrada — quase uma coletânea das melhores sensações do nu-metal. Soa como aquela coletânea em fita cassete que a gente gravava pra ouvir no discman ou no carro, cheia de riffs pegajosos e refrões explosivos. Não reinventa a roda, mas entrega diversão honesta. E às vezes, isso já basta.


03 novembro 2025

HOODED MENACE eleva o death/doom a novos abismos em "Lachrymose Monuments of Obscuration"

Por Júlio Feriato 


Quase vinte anos depois de surgir na Finlândia com um doom/death denso e sepulcral, o HOODED MENACE chega ao sétimo álbum mostrando que ainda há espaço para aprofundar aquilo que já parecia consolidado. Lachrymose Monuments of Obscuration, lançado pela Season of Mist, não reinventa a banda — mas amplia horizontes com inteligência e convicção.

A espinha dorsal continua sendo Lasse Pyykkö, guitarrista e principal compositor. Seu foco quase obsessivo na criação de riffs cativantes permanece evidente: tudo parte dali. Mas desta vez, os arranjos são mais elaborados e atmosféricos, transformando cada música em uma experiência melancólica e cuidadosamente arquitetada.


Gravado com produção inteiramente conduzida em seu próprio estúdio em Joensuu, cidade natal da banda, o disco reflete controle absoluto sobre cada detalhe. Pyykkö esteve presente em todas as etapas, do riff inicial à mixagem final, e o resultado é uma coesão rara: não se trata de uma coleção de músicas, mas de uma obra pensada do início ao fim.

Entre as novidades, o violoncelo, tocado por Antti Salminen, adiciona profundidade emocional, especialmente em “Portrait Without a Face”. Já os sintetizadores inspirados na fase Somewhere in Time do IRON MAIDEN conferem ao álbum uma atmosfera soturna e nostálgica, reforçando o clima de horror gótico característico da banda.

As letras seguem fiéis ao universo do Hooded Menace: imagens surrealistas, decadência e fantasia macabra, sem narrativa linear, funcionando mais como pintura emocional do que história. Um destaque curioso é o cover de “Save a Prayer”, do DURAN DURAN, que Pyykkö transforma em algo que poderia sair de um disco sombrio do PARADISE LOST — ousado, mas surpreendentemente coerente.

Se há uma questão que o álbum levanta, é a duração de algumas faixas. Em certos momentos, a banda parece permanecer um pouco além do necessário dentro de ideias já bem estabelecidas. Nada que comprometa a atmosfera, mas um enxugamento poderia tornar o impacto ainda mais preciso.

De qualquer modo, Lachrymose Monuments of Obscuration é um álbum que respeita o passado, mas se atreve a expandi-lo. É pesado sem ser bruto, melódico sem ser açucarado, e confia plenamente na atmosfera que constrói. HOODED MENACE segue sendo HOODED MENACE — mais profundo, consciente e audacioso do que nunca.


02 novembro 2025

WORLD UNDER BLOOD: uma banda que tinha tudo para ser gigante

Por Júlio Feriato

Da esq. p/ dir.: Tim Yeung, Risha Eryavac, Luke Jaeger, Deron Miller.

Há tantas discussões sobre o motivo de tantas bandas não conseguirem viver apenas de sua música. Para mim, a resposta é até simples: existem bandas demais. É humanamente impossível acompanhar tudo o que é lançado — e no heavy metal isso é ainda mais evidente, porque quase todo fã também é músico e tem um projeto próprio.

E por que estou tocando nesse ponto? Porque talvez aí esteja uma das razões pelas quais o WORLD UNDER BLOOD nunca chegou a estourar mundialmente. Mesmo tendo lançado, em 2011, pela Nuclear Blast, um disco forte como Tactical, a banda passou quase despercebida — muita gente que curte metal extremo sequer chegou a ouvir falar deles.

A história da banda gira em torno de Deron Miller, vocalista, guitarrista e principal compositor do projeto. No Brasil ele é praticamente desconhecido, mas nos EUA sempre teve seu espaço por causa do CKY e, mais recentemente, do 96 BITTER BEINGS, ambos mais voltados ao rock alternativo. Por isso, quando foi anunciado que ele estaria à frente de um projeto de death metal melódico — contando também com Tim Yeung na bateria (ex-MORBID ANGEL), Luke Jaeger na guitarra (SLEEP TERROR) e Risha Eryavac no baixo (DECREPIT BIRTH, ex-ABYSMAL DAWN) — a curiosidade foi quase geral. Mas, quando Tactical saiu, não duvido que muita gente tenha ficado positivamente surpresa. Ele é, sem exagero, um dos discos mais inspirados do death metal dos anos 2010.

Antes de tudo: não, Deron não reinventou o estilo aqui. Não é esse o ponto. Mas ele conseguiu reunir o que havia de melhor no death metal melódico daquele período, somado a influências que, à época, muita gente tinha deixado de lado. Há ecos do death metal técnico da Flórida — algo entre DEATH e CYNIC — mas sempre filtrados pela identidade de Miller. É rápido, é agressivo, mas também melódico e técnico sem cair naquela fritação gratuita que muitas bandas do tech-death adotam. E o grande diferencial é justamente o vocal de Deron, alternando guturais fortes com vocais limpos bem colocados. O resultado, longe de estragar a atmosfera, é o que dá caráter ao disco e também uma camada progressiva, uma personalidade que o distancia do death metal mais genérico. Esse detalhe, pra mim, é acerto, não falha.

Aqui vale destacar outro ponto essencial: a produção, assinada por James Murphy (sim, o ex-DEATH, ex-OBITUARY e ex-TESTAMENT). Murphy conseguiu deixar Tactical nítido, pesado e sem exageros. As guitarras têm textura, a bateria é intensa sem soar artificial e o baixo, ao contrário de muitas produções extremas, está presente e definido. A sonoridade que ele alcança é parte do motivo pelo qual o álbum soa tão atual até hoje.


Entre os destaques, claro, está a faixa de abertura “A God Among the Waste” — veloz, cheia de blast beats, mas também melódica, com harmonizações vocais que lembram aquele espírito experimental do CYNIC antigo. “Pyro-Compulsive” é talvez a música mais bem resolvida do álbum, com riffs memoráveis e mudanças de dinâmica muito inteligentes. E “Under the Autumn Low” traz melodias que grudam na cabeça — facilmente poderia ter sido single, se o projeto tivesse tido mais investimento.

No fim das contas, Tactical nunca soou como um disco feito para agradar à “cena” ou a um estilo específico. E é justamente por isso que funciona. É uma obra sincera, cheia de convicção, que não tenta ser manifesto nem modelo. 

Ah, e o álbum fecha com um cover de “Wake Up Dead” (Megadeth), muito fiel ao espírito do original e executado com respeito.


É uma pena que o WORLD UNDER BLOOD não tenha dado continuidade ao projeto — havia espaço para evoluir muito mais. Mas é possível entender por que isso não aconteceu: o projeto nunca chegou a se tornar uma banda fixa. Tim Yeung logo seguiu para o MORBID ANGEL, enquanto Deron Miller enfrentava sua saída conturbada do CKY e passou a concentrar energia no 96 BITTER BEINGS

Sem turnê, sem formação estável e sem um apoio mais sólido da Nuclear Blast, o WORLD UNDER BLOOD permaneceu como aquilo que sempre foi: um projeto de estúdio criado no momento certo, por músicos que estavam disponíveis naquele instanteJustamente por isso, Tactical soa tão único — e também tão isolado na discografia de todos os envolvidos.

Dito isso, Tactical merece ser lembrado. E, de certa forma, redescoberto.

28 setembro 2025

REVEL IN FLESH: vingança alemã do death metal

Por Júlio Feriato

Embora ainda restrito ao circuito underground europeu, o REVEL IN FLESH se consolidou nos últimos anos como um dos nomes mais consistentes do death metal germânico contemporâneo. Formado em 2011, o grupo surgiu com a proposta clara de homenagear a sonoridade sueca dos anos 90, algo já evidente no próprio nome, retirado de uma faixa do ENTOMBED – referência que não deixa dúvidas sobre suas raízes e intenções.

"The Hour of the Avenger”, quinto trabalho de estúdio, lançado no final de 2019, reforça essa identidade com convicção. O disco abre sem rodeios, oferecendo uma descarga de riffs cortantes e melodias densas que evocam a velha escola escandinava, mas com vigor renovado. Dinâmico, pesado e brutal, o álbum mostra uma banda segura em explorar os limites do gênero sem perder a crueza que o define. O vocalista Ralf Hauber, com seus guturais cavernosos e ocasionais gritos histéricos, dá o tom visceral da obra, conduzindo as composições por territórios tão familiares quanto revitalizados.

A produção, desta vez, recebeu atenção especial: pela primeira vez, a bateria e os vocais foram gravados em estúdios diferentes, enquanto guitarras e baixo permaneceram sob os cuidados do VAULT M. Studios, de propriedade do guitarrista Maggesson. O toque final veio das mãos experientes de Dan Swanö, no renomado Unisound Studios, que além de amigo da banda, é uma lenda viva da cena death metal. O resultado é um som limpo, mas sem esterilização, pesado sem perder nitidez — exatamente o equilíbrio que uma proposta desse porte exige.

Curiosamente, ao longo de sua trajetória, o Revel In Flesh sempre prezou por uma identidade visual ligada ao macabro e ao grotesco. Apenas em “The Hour of the Avenger”, no entanto, um “mascote” sombrio foi introduzido na capa, marcando presença como figura simbólica e expandindo ainda mais a atmosfera da obra. É um detalhe que pode passar despercebido ao ouvinte desatento, mas revela a preocupação da banda em oferecer não só música, mas também narrativa estética.



Se é verdade que muitas formações da onda old school death metal se perderam ao longo do caminho — algumas por insistirem em não evoluir, outras por mudarem radicalmente de direção —, o REVEL IN FLESH parece ter encontrado um ponto de equilíbrio raro. Sem reinventar o gênero ou ambicionar um clássico imediato, a banda demonstra compreender o death metal em sua essência, extraindo dele uma vitalidade que soa atual e honesta. “The Hour of the Avenger” não pretende reescrever a história, mas é prova de que o velho ainda pode soar fresco quando entregue com paixão, técnica e consistência. E, no cenário saturado da música extrema, isso já é um feito que merece atenção.


Atualmente, porém, a banda atravessa um momento crítico: o vocalista Ralf Hauber é o único membro ativo, assumindo vocal, guitarra e baixo. Embora não haja anúncios oficiais sobre o fim da banda, a ausência de novos lançamentos e a saída dos demais integrantes sugerem que o grupo pode estar em uma pausa prolongada, ou até mesmo se encaminhando para o encerramento.

Ainda assim, The Hour of the Avenger permanece como um testemunho da capacidade do REVEL IN FLESH de extrair energia de uma tradição que, em mãos menos inspiradas, poderia soar datada. Mais do que uma homenagem à estética sueca, o disco reafirma o valor de uma banda que, enquanto pôde, trouxe vitalidade e precisão ao death metal alemão.